Divagações noturnas: o belo é simples


 Always.

Li num blog que adoro um comentário meio constrangido sobre repetições. A dona do blog se desculpa com seus leitores por publicar mais do mesmo, digamos assim. Achei uma graça aquele delicado pedido de desculpas, aquela consideração com os leitores, como se ela não fosse dona absoluta do blog e não tivesse o direito de publicar nele o que bem entendesse. Mas gente boa é assim mesmo: faz bem feito, mas jamais esquece que o que realmente importa é a nossa relação com as pessoas em nossa volta.

E aí fiquei aqui pensando com meus botões, digo, com meu pijama sem botões, como é prazeroso conviver com pessoas assim. E fiquei refletindo que, com o tempo, passei a achar que isso é quase uma condição sine qua non para o verdadeiro "saber fazer bem feito": não se tornar arrogante, não se sentir por cima da carne seca. Porque, no fim das contas, ninguém está sempre por cima da carne seca; e mesmo que assim fosse, arrogância é algo difícil de se justificar.

Às vezes me pego dizendo algo do tipo "ah, fulano pode ser besta! Ele sabe tudo". E lembro de uma ou duas situações em que cheguei mesmo a defender essa visão. Em uma delas, assisti a uma reportagem sobre transplante de pulmão e fiquei tão profundamente impressionada com o valor do trabalho daquelas pessoas envolvidas na cirurgia, com a magnitude da coragem de alguém que retira um órgão de uma pessoa doente e o substitui por outro, que rege uma equipe que precisa ser ótima em todos os aspectos, que se entrega a uma situação onde erros não serão revisados, que falei mesmo: meu, esse médico pode se permitir ser a pessoa mais arrogante e insuportável do mundo; ele pode.

Mas na verdade, descontando momentos em que a emoção camufla nossas ideias, continuo defendendo o argumento de que arrogância não combina muito com sabedoria. Talvez uma coisa não tenha absolutamente nada a ver com a outra e ser gênio ou legal sejam assuntos pertencentes a esferas totalmente distintas. Talvez o que eu digo aqui equivala à pergunta "você gosta mais de matemática ou de viajar de carro?", sabe? Mas não consigo me libertar da sensação de que a verdadeira sabedoria caminha de mãos dadas com a gentileza.

Um bom professor me fez ver certa vez que aquele que acha que já sabe tudo não aprendeu muita coisa, apenas vislumbrou o conhecimento, mas não mergulhou nele. Por outro lado, aquele que se reconhece como eterno aprendiz parece já ter percebido onde nasce todo o conhecimento, na humildade necessária para aceitar que sempre sabemos menos do que há para se saber.

Então quando vejo algo como o pedido de desculpas bonitinho da minha competente colega blogueira não consigo evitar algumas comparações e imediatamente sou bombardeada por lembranças de episódios quase diários nos quais a arrogância impera sobre parcas centelhas de conhecimento. Como é triste ver que o mundo ainda está cheio de falsos cultos, de preconceitos emburrecedores travestidos de senso comum. Por outro lado, como é bom saber que sempre se pode aprender e que, bem, a esperança é a última que morre.

Viajei, eu sei. Deve ser o calor.

2 comentários:

Patricia Scarpin disse...

Rita, você é muito doce - obrigada pelo carinho. Quando vejo coisas como o seu post sinto uma alegria enorme por ter o blog e por conhecer tanta gente bacana, como você.

Realmente acho que quem separa uns minutinhos do dia para me ler merece um conteúdo feito com amor e capricho, daí a minha preocupação.

Um beijão e obrigada!

Rita disse...

Oi, Patricia!

Menina, seu blog é uma graça, você sabe disso; tenho o maior prazer em apresentá-lo aos meus leitores e amigos. Mas a cereja do bolo do seu blog é a sua simpatia!

Muito obrigada pela visita e volte sempre!

bjs,

Rita

 
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