Direita ou esquerda?





Se algum dia você estiver em um carro comigo e me fizer a pergunta acima, não hesite em seguir pelo caminho oposto ao que eu lhe der como resposta. Desconheço os fundamentos científicos por trás dos papos de que homens tendem a ter melhor senso de orientação, mas eu definitivamente estou entre os seres humanos que carecem do tal senso quase que por completo.


A desorientação já me rendeu muito stress, atrasos e desperdício de combustível, portanto eu gostaria muito de encontrar uma solução para o problema. É, eu sei, preciso de um GPS. É que força de vontade só não adianta, não é o caso de eu decidir ser mais atenta. Eu simplesmente não sei onde é o norte ou o leste. Até aprendi que, se apontarmos nosso braço direito para o leste, o norte estará à nossa frente - eu fui a essa aula. Mas isso não ajuda muito quando estou entre avenidas com trânsito maluco e mil retornos possíveis. Eu nunca vou saber se vim do leste ou do oeste e sempre (presta atenção, gente, sempre) vou seguir pela entrada errada.  E de nada adiantou me acostumar a usar o mar como referência porque vim morar em uma ilha...




Comigo a coisa só funciona bem depois da milésima ida ao lugar, quando decoro o caminho e me familiarizo com os possíveis atalhos. E agora, bem neste momento, acabou de passar pela minha cabeça como é irônico que o nome do meu blog tenha a palavra "estrada" - quem vê até pensa que sei para onde estou indo. Mas, geralmente, não sei. Então coleciono historinhas de "por onde é mesmo?". Selecionei algumas da minha vastíssima coleção para dividir com vocês. Sigam em frente (em frente é sempre mais fácil).

***


Certa vez passei três meses em Brasília. Quem conhece nossa capital sabe das tais tesourinhas, uns retornos enlouquecedores que permitem que mudemos de direção ou tomemos uma paralela (eu sei o que é paralela). Para mim, no entanto, elas só serviam para me deixar tonta. Se eu caísse numa daquelas sozinha, nunca mais conseguia sair. E ficava lá, rodando e gastando combustível, sem a menor noção de que saída escolher, até desistir e tomar qualquer direção que me tirasse dali.


*

Muitos anos atrás, durante o primeiro namoro como meu marido (história longa, longa, aguardem), em uma época em que ele morava em Belo Horizonte, decidi ir sozinha conhecer o campus da UFMG. Retornei quando vi uma placa que apontava o final do município de BH, nunca passei nem perto do campus e, na volta, vi-me seguindo por uma via exclusiva para ônibus e outros veículos imensos que faziam o uno que eu dirigia parecer um carrinho hot wheels. Quase chorei de alegria quando consegui chegar viva ao apartamento de Odisseus.

*

Uma das minhas favoritas: poucas semanas depois de me mudar para Florianópolis, há uma década, fui com uma amiga a uma noitada de shows que reuniu Titãs, Rita Lee, Não Lembro Quem e outras duas bandas locais (não lembro também). O local do show ficava muito próximo às pontes que separam a ilha (onde morávamos) dos bairros que ficam no lado continental da cidade. Saímos de casa bem cedo, porque já dávamos como certo que precisaríamos de um tempinho para chegar ao lugar do show. Mas o que aconteceu beira o ridículo. Por três vezes desembocamos na ponte e lá fomos rumo ao continente para desespero de nós duas, já que nenhuma tinha a menor idéia de como retomar o caminho de volta à ilha. Resumo da ópera: perdemos dois dos cinco shows e gastamos meio tanque de gasolina.

*

Você já foi convidada(o) para um almoço entre amigos e só chegou na hora da sobremesa porque seus amigos desistiram de esperar você chegar, de tanto que você rodou para encontrar o endereço, apesar do mapa? Eu já.

*

Duas encarnações atrás, viajei pela Escócia com um grupo de amigos. Em meio a milhões de castelos deslumbrantes e muita neve, queríamos porque queríamos ver o Lago Ness (e o monstro, claro). Munidos de um mapa e nenhum senso de orientação, dirigimos por vários quilômetros às margens do dito lago, tentando encontrar o caminho... para o lago; entenderam o tamanho do problema? Bom, em minha defesa, dessa vez eu não estava sozinha, quem dirigia era um homem e o mapa não estava comigo. O engraçado é que à medida que seguíamos em busca do que já estava ali, eu olhava aquela paisagem linda e falava: nooossa, imagine quando chegarmos ao Lago Ness! Isso aqui já é tão lindo...

*

Odisseus há muito aprendeu. Quando fomos juntos à Serra do Cipó, em Minas Gerais (três encarnações atrás), chegamos a um ponto da estrada (vá lá, vou chamar aquilo de estrada) em que havia uma bifurcação. Bem no início dela, havia uma placa indicando o caminho para a Serra. A tal placa pendia precariamente presa a um pedaço de pau, balançando ao sabor do vento. Como aquele trecho da "estrada" não aparecia no mapa, Odisseus perguntou:

E aí, Rita? Esquerda ou direita?
Direita, respondi.

Ele tomou o caminho da esquerda. E logo chegamos à Serra.

7 comentários:

Rachel disse...

Eu Tb sou totalmente desorientada e Hugues sabe disso.
Quando dirigia na Inglaterra, o que mais me irritava eram as rotulas enormes, com 5,6,7,8,9 saidas. Aquilo me confundia muito e eu sempre pegava a saída errada.
Não ria...quando estou em Floripa e venho de São José para Coqueiros, nunca consigo fazer o trajeto passando pela Ivo Silveira, já fui pela expressa, pelo parque de Coqueiros, mas nunca pela Ivo Silveira. Simplismente não consigo. Hellen morre de rir enquanto pergunta -"de novo, mamãe?"
Beijos

Angela disse...

Eu tambem nao sei pra que lado ir. "A gente ta aonde???" eh uma pergunta que Pete esta bem acostumado a ouvir... Me perco constantemente no trabalho, a procura das salas de reuniao que vejo no mapa mas nao tenho ideia de como chegar la (eh um campus grande, mas mesmo assim as outras pessoas nao tem o meu problema). Os rodeios na Europa foram tantos que nao era mas nem engracado, o de Verona durou horas e no final desistimos de ver "o lado de la" da cidade e fomos embora de la. Tenho muitas estorias, porem as mais engracadas por coincidencia foram acompanhadas de Ju. Uma vez estavamos visitando Si em Recife, e iamos do apartamento dela para o shopping pertissimo. Aparentemente entramos em uma rua errada, e enquanto estavamos tentando nos achar, notamos que tinhamos acabado de passar pelo apartamento dela... de onde tinhamos saido ha uns 5-10 minutos atras! Ja outra fez durante o carnaval, voltando de Olinda para o mesmo apartamento da minha irma, nos perdemos (como acontecia TODOS os dias, no mesmo percursso) no meio da noite, e avistamos um casal. Pedimos ajuda a eles, que nos falaram exatamente por onde ir, para a nossa salvacao. Ah, e os dois eram deficientes visuais.

Claudia Serey Guerrero disse...

Tô tão feliz em ler esse post e os depoimentos :)... vou pedir a Mathieu para ler hihiih e vai entender que é um problema bastante comum entre nos mulheres, pelo menos brasileiras (ou criadas no Brasil hihi) pois a mãe e irmã dele sao orientaderrimas, ai fico eu me sentindo tão inutil em certos momentos :) Pois é, sou totalmente desorientada, em Tokyo, no inicio saia para caminhar em linha reta... nao dobrava em nenhuma esquina, assim nao tinha perigo de nao encontrar o caminho de volta, e ainda mais la, mesmo as plaquinhas mostrando direcao nao me serviam de nada hihi, aqui em Marseille contornos com inumeras saidas,eu fujo deles, mas Mathieu me conhecendo, me presenteou com um GPS no ultimo aniversario... to melhorando :) com aquela mulher no meu ouvido dizendo para onde devo ir, e mesmo se eu errar, ela procura uma forma de consertar meu erro hihi ;) beijos, Claudia

Anônimo disse...

Cacaca, estou aqui me acabando de rir...
Gente, eu sou totalmente desorientada, costumo falar que as pessoas nascem com bussola, umas mais precisas outras nem tanto, mas eu nasci SEM bussola, eu não tenho senso de orientacao nenhum, se eu for contar algumas aqui o comentario sera maior que o post, mas vamos a algumas.
Já tem essas que Angela escreveu, gente quando nos percebemos que o casal era cego cacaca...
Vamos la, não sei nada de direita e esquerda, tenho que parar mesmo e pensar. Certa feita, quando morava no Japao, um colega foi me dar uma carona ate em casa, e eu ensinando o caminho MIGI (direita), HIDARI (esquerda), e apontava com a mao, e ele percebendo que eu estava tendo a maior dificuldade, achando que era não sabendo falar em Japones, ele disse “pode falar em ingles Juriana” e respondi “posso ate falar em portugues que vou erra do mesmo jeito...”
Quando morava em Brasilia, ai meu Deus, essa eu tava la a pouco tempo, depois melhorei, pois mudei minha tatica por la, estava eu voltando do trabalho para o Hotel, e me perdi, claro, e nada se um semaforo naquela cidade para eu pedir informacao (eu não tenho nenhuma vergonha em pedir ajuda, falo mesmo que estou perdida, acho que os homens que não gostao muito de pedir ajuda...) voltando, finalmente um semaforo, baixo o vidro e pergunto ao homem do carro ao lado “Por favor, para que lado fica o setor hoteleiro sul?” o homem, num sotaque carregado de espanhol fala “Pode nos seguir, pois estamos indo para la...”. Sigo o carro, sabem qual era a placa??? da Embaixada Argentina. Um argentino me ensinando o caminho em BSB.
Me perdia em Natal, em Fortaleza, no Japao, de bicicleta claro... O mar tambem não funciona para mim Rita, pois vou la saber para que lado fica o mar quando estou perdida.
Me perco no shopping, la não me perco tanto pois logo acho aquele povo da informacao/seguranca e pergunto onde ta a loja tal. Por isso adoro shoppings pequenos. Mas as vezes me perco nesses se não forem bem pequenininhos. Alguem conhece o Praia Shopping em Ponta Negra/Natal??? Me perdia la tambem.
Claudia, e a gente na fila errada na praia de Boa Viagem no campeonato de volei de praia!? Era p estarmos na fila p entrada da arena, e as duas desorientadas na fila de uns brinquedos p criancas. Tambem, quem manda colocar a fila proxima da outra, não eh Claudia??
Angela, e a gente indo para JPA (para um show de Paralamas do Sucesso, diga-se de passagem) e sem conseguir chegar ao ap de voces em Tambau, perdidas mesmo ainda na BR, daí Angela falou “vamos seguir esse carro que a placa eh de Joao Pesssoa” e eu “Angela, esse teu a placa eh de Recife (o famoso Gol azul) e a gente vive perdida em Recife....”
Menina são muitos, tenho que parar Rita... Gente, mais uma coisinha, agora venho eu morar em Salvador, alguem ai já tentou dirigir aqui!?? Não existe uma rua reta, so tem curva e ladeiras. Mapa, esqueca. Pois o mapa daqui mais parece um prato de spaghetti visto de cima. Entao eh melhor não comecar a contar as daqui, tem lugares, muitos lugares, que já sei que vou me perder, tem que meu marido me socorrer.
Tambem vou mostrar esse post ao meu dignissimo marido. Gracas a Deus ele eh super paciente, um amor, e me ajuda com o maior sorrisao, acho que eh de não acreditar como alguem pode ser tao desorientada.
Beijos,
Ju

Sinara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sinara disse...

Gente... O blog devia mudar de nome: 'Clube das Desorientadas' :-) Tenho certeza que terei meu lugar reservado... Rita, pode dizer que a amiga a se desesperar cada vez que acabávamos na ponte indo pro show na ilha sou eu... :-) E o Big?! Você esqueceu de contar que tentávamos fazer compras no Big, no Continente, pra economizar, e gastávamos toda a gasolina do carro tentando voltar pra ilha, sem falar que APAVORADAS na Br, entre os caminhões que nem ligavam para o nosso desespero... Ainda em Floripa, onde morei 08 anos, NUNCA aprendi a andar no Continente - o que guardava em segredo... Confesso que, quando me perdia até na ilha, usava a desculpa pra lá de esfarrapada: "Desculpe o atraso, mas não sou daqui..." A desculpa rendeu até eu vir embora... Ah! E quem me salvou um pouco foi o Arthur... Sim, o Arthur... Quando ele nasceu, queria obviamente visitá-lo e TIVE que aprender a ir pra Coqueiros... :-)
Por aqui, continuo desorientada... Pago mico direto, fazendo caminhos muito mais longos do que todo mundo... Mas, a motivação para visitar lugares lindos e praias maravilhosas me fizeram aprender rapidinho o caminho pra Pipa, por exemplo. Ou seja, será que somos mesmo desorientadas ou precisamos imaginar algo que nos motive a chegar onde estamos indo??? ;-) Talvez eu esteja apenas querendo amenizar a situação, não é mesmo? Anyway, as histórias servem para darmos boas risadas... Bjs!

Rita disse...

Ah, meninas, vocês me matam de rir.

Rachel, já percebo que meu filhote é mais orientado que eu (o que, convenhamos, não é muito difícil) e não demora muito ele já já começa com os "de novo, mãe?" também...

Cláudia, adorei a imagem de você dirigindo com a mulher do GPS falando ao teu ouvido. Qualquer hora dessas ela diz: "não! por aí não! é a outra direita!" ehhehe

Anginha, Ulisses quase morreu de rir com o papo do casal de deficientes visuais (que, por sinal, é um pessoal superorientado mesmo!) ajudando vocês em Recife.

Ju, desorientada em qualquer idioma é aqui mesmo. Não importa o lugar, a cultura ou a língua: nós não sabemos por onde ir. Muito boas tuas histórias...

Si, eu não esqueci da história do Big; é que tive de selecionar, sabe? Há muitos outros episódios ridículos... eu e minha mãe já nos perdemos em Lagoa de Roça... Consegue imaginar? Em qual das duas ruas? Não sei, não faço idéia... ahahhahaah

Beijos, queridas, thanks for sharing!!

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }