Crianças presenteadas são crianças estragadas?


  



Uma coisa leva à outra e por causa do post de ontem me vi pensando na questão da frequência com que presenteamos nossas crianças.

Quando engravidei do meu primeiro filho, lembro que eu e meu marido concordamos sem muitas delongas sobre um ponto (concordamos sobre muitos, mas vamos falar de um deles): nossos filhos só ganhariam presentes em ocasiões "próprias", ou seja, aniversário, Natal (ver conflito no post anterior) e Dia da Criança (é preciso manter os comerciantes de brinquedos felizes). Nossa decisão comedida tinha, naturalmente, a melhor das intenções. Partíamos do pressuposto de que criança que ganha presente à toa deixa de dar valor ao que tem e corre sérios riscos de se transformar em alguém excessivamente materialista e descontroladamente consumista (além de egoísta, pidão, birrento, essas coisas). Não abandonei de todo essas crenças, mas confesso aqui que não tenho sido uma boa aluna da minha própria pregação.




As "razões" por trás de cada compra de brinquedo (ou roupa, livro, revistinha) para nossos filhos são várias. Basicamente (excluindo as tais datas comemorativas citadas acima):

- Nossa, ele(a) vai adorar!
- Meu, é a cara dele(a)!
- Ah, viu na loja, agarrou e não largou mais!
- Livro nunca é demais.
- Revistinha nunca é demais.
- As camisetas estão todas apertadas (com as variações "as meias estão pequenas", "os sapatos estão apertados", "os casacos estão curtos", etc.).
- É só um carrinho.
- Nunca mais eles ganharam nada.
- Outros.

Acho urgente esclarecer uma coisinha quanto ao terceiro item da lista acima. Meus filhos não costumam dar piti em loja (na verdade, nunca deram). Quando escrevo "agarrou e não largou mais", refiro-me a duas situações em que Amanda caiu de amores por um urso e uma onça e nós deixamos que o amor se fortalecesse. Já houve outras inúmeras situações em que ela e o irmão entraram em lojas de brinquedos (para comprar presentes para outra criança, geralmente) e saíram de mãos abanando e sorriso no rosto. Como o passatempo preferido dos pequenos parece ser contradizer os pais, aguardem notícias do primeiro piti em loja.




Meu ponto aqui é o seguinte: já não sei mais quão nociva é a prática de dar presentes (posso ouvir a risadinha maligna de algumas amigas...). Porque, para ser bem franca, conheço muita gente que (suponho) deve ter tido acesso a tudo quanto é brinquedo na infância e nem por isso se transformou em materialistas desprezíveis. Longe disso. Por outro lado, não acho impossível que o consumismo exagerado aflore em uma fase posterior da vida de alguém que teve muita privação na infância, como uma forma inconsciente de compensação, sabe? Na boa, não sei. Seria bom se o mundo fosse simples e as equações infalíveis, mas nem sempre é assim.

Não quero passar a ideia de que estou tentando fugir da raia e varrer para debaixo do tapete minha responsabilidade por, teoricamente, "estragar" meus filhos com brinquedos. É que até agora, honestamente, não vi muito estrago. Tudo bem, ainda é cedo. Mas ando me perguntando se o problema não está em como se lida com o fato de se ter muito brinquedo. Porque, no fim das contas, não importa quantos brinquedos meus filhos tenham, tentamos ensiná-los a zelar por todos eles. Sem neuras, porque infância é infância e ninguém quer transformar um filho em um robô que não brinca para não quebrar o brinquedo. Mas aqui em casa o fato de ter muitas opções na hora da bagunça não significa poder destruir por destruir, quebrar por quebrar. Nem é permitido rasgar a revistinha (é claro que acontece, mas uma rasgação deliberada certamente será severamente repreendida). E brinquedo que não se divide é coisa que não existe.




Eu ainda tento pisar no freio porque algumas coisas realmente me incomodam, como abrir uma caixa de lápis nova (que veio de brinde em alguma outra compra), mesmo tendo um milhão de lápis já à disposição. Ou brinquedos esquecidos no fundo do baú. Mas admito que as tais datas especiais têm se multiplicado um pouquinho. Quanto aos brinquedos esquecidos, meu filho mais velho me ajuda a selecionar aqueles que eventualmente seguem para outras crianças. Percebo que é um momento difícil para ele, mas gosto de ver sua generosidade. Porque se fosse fácil, seria fácil, certo? Mas o fato de que é difícil se desfazer de um brinquedo, mas, mesmo assim, ele o faz, demonstra sua generosidade. Às vezes se arrepende, lamenta a doação e pede para eu comprar o mesmo brinquedo de novo. Explico que ele deve ter feito alguma criança muito feliz e que o brinquedo foi doado porque estava abandonado há muito tempo. Às vezes ele reluta um pouco, mas sempre acaba aceitando. Assim aprende que é preciso pesar bem suas decisões no futuro e a ficar feliz pela felicidade de alguém que ele nem conhece, o que é muito bom.




Mas voltemos ao dilema. Passei muita vontade (de brinquedos) na infância. Lá em casa o regime aniversário/natal/dia da criança funcionava para valer. Então eu babava quando visitava meus amigos ou primos mais abastados e, principalmente, babava muito na loja de brinquedos. Mas eu não estava nem perto de ser infeliz por isso, é bom que se diga. Minha imaginação tinha fôlego para muitas manhãs de monólogos no quintal e quem tem mil amigos invisíveis nem precisa de boneca. Mas não posso mentir e dizer que meus amigos-cheios-de-brinquedos brincavam menos. Então acabo achando que criança brinca de qualquer jeito e que o desenvolvimento social de uma criança passa muito mais pela orientação que ela recebe acerca de como lidar com seu mundo (seja ele como for) do que pela quantidade de brinquedos que ela tem no baú (na estante, no armário, na gaveta). Será que estou tapando o sol com a peneira? E aí, querido leitor? Você ganhou muito brinquedo na infância? Você virou um monstro? (eheheh) Mas, enfim, criança que ganha muito presente é, necessariamente, uma criança estragada?




2 comentários:

Rachel disse...

A Amanda caindo de amores por um urso e uma onça, me fizeram lembrar de um episódio da Hellen, com pouco mais de um ano.
Fomos para a Belgica e em nossas andanças por Bruxelas, entramos em uma loja de brinquedos maravilhosa! Hellen agarrou um brinquedo colorido de madeira e não soltou mais, foi tão lindo ver como ela se identificou com aquele brinquedo, que compramos. Ela andou o resto dos dias que tinhamos por la, empurrando aquele brinquedo.
Ela não deu nem um piti por ele, aliás nunca deu por nada e nem em lugar algum.
O brinquedo ainda está aqui com a gente e assim que sair das caixas da mudança, tenho certeza que Victor vai amar brincar com ele.
Aqui tb tinhamos a regra de não dar presentes a toa, mas eu não consigo levar isso muito a sério.
Ah! Aqui em casa livro nunca foi presente, então eu to perdoada muitas vezes...kkkk
beijos

Renata disse...

Eu acho que muito presente estraga sim, mas a carinha de alegria dele quando vê a embalagem bonitinha é viciante! e um hot wheels custa 5 reais... É muito difícil. E o danadinho, depois que ganha, passa a vida toda dizendo assim: "Quinhão gasolina, mamãe deu presente Pê" Todos os planos de contenção vão por água abaixo...
Beijos

 
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