Corpinho de boneca


 

 
Há dois dias levamos nossos filhotes a uma festinha de criança, aniversário de uma coleguinha do Arthur. Eles adoram a bagunça toda de brinquedos e comilança, correria e cantoria. Para nós, marmanjos de companhia, vale por ver a alegria deles, mas também por papear com os outros marmanjos babões e parceiros daquele que é, de longe, o programa social mais frequentado pelo grupo.
 
E aí olha o pula-pula aqui, come uma coxinha ali, acompanhei a Amanda a uma casinha de boneca montada no meio do salão da festa. "Casinha" é modo de dizer, porque o casarão da Barbie só não tem sauna, mas logo, logo, eles instalam uma. Mas não foi bem o luxo das carruagens e penteadeiras da boneca que prendeu minha atenção por alguns minutos. Foi o corpinho da boneca e a crueldade que ele representa.
 
Digam-me se exagero, mas o padrão corpo-de-barbie é pressão demais na vida de qualquer futura adolescente. E antes de chegar à vida adulta (quando, espera-se, boa parte consegue se despir de tamanha ditadura), aquela garotada vai necessariamente atravessar o furacão das confusões adolescentes. E adolescência inclui inevitavelmente crises, como quase toda grande mudança traz. E aí a gente "ajuda" bombardeando as coitadas com um padrão de beleza tão raro no mundo real quanto um canguru falante. Sim, porque não bastam os olhos lindos. É preciso ser magra e beeeem alta. E ter cinturinha. E cabelão. E mãos perfeitas, afiladas, lindas. É preciso ser assim, uma brastemp.
 
E antes que vocês digam "é só uma boneca", eis que volto para a mesa onde uma animada linha se organiza para uma foto e vejo uma mãe preocupada em não mostrar o braço "gordo" para a câmera. Já é um bom exemplo de como nos policiamos para caber nos rígidos padrões que nos empurram goela abaixo desde a infância, mas a frase que se seguiu ilustra ainda melhor o que escrevo aqui: ela olhou para sua linda filha de quatro anos e disse, enquanto ensinava ao grupo um novo truque para disfarçar gordurinhas em fotos, "viu, filha, vai aprendendo essas coisas".
 
Não quero que entendam que estou criticando a amiga que se preocupou com o braço supostamente gordo na foto (e eu juro que não é gordo, mas também se o fosse não faria a menor diferença). Se eu fizer um mea culpa, vou elencar mil rituais de vaidade a que eu mesma me submeto para "me sentir bem". Então se eu quiser falar mal de quem tem vaidades com seu próprio corpo, começarei por mim mesma. Estou, sim, convidando-nos a pensar no que nos torna tão obcecadas com os tais padrões de beleza e tão rígidas com nosso corpo e, pior, no porquê de não hesitarmos em transmitir essa obsessão às nossas filhas. 
 
Em um outro post, já falei que gosto de fazer as unhas, por exemplo, e continuo achando natural e saudável cuidar bem de nosso corpo. O que questiono aqui, contudo, vai um pouco além. Falo de quando abdicamos do direito de não seguir qualquer padrão, porque é isso que muitas de nós fazemos. Parece que esquecemos que é perfeitamente possível ser vaidosa sem ser cruel, ou seja, cuidar-se aceitando as diferenças genéticas como o que elas são: diferenças genéticas, não mais. E aí é claro que o conceito de crueldade varia imensamente e o que é absurdo para mim pode ser natural para você, mas bem que a gente podia dar uma folga para as nossas crianças porque, vamos combinar, infância não é tempo de se preocupar com o braço na foto.



3 comentários:

Angela disse...

Concordo, menina, por isso essa semana que Max resolveu escolher as proprias roupas, nem liguei que ele saiu de calca coronha tamanho 2. Depois eu dou uma geral no guarda roupa dele pois quando o frio chegar de verdade nao vai poder ter pele de fora! :)
Nisso tive um pouco de sorte pois r Barbie nao. Minha mae sempre me falou que mulher pequena faz tudo o que mulher grande faz, e eu sempre me contentei com o fato de eu ter nascido com todos os orgaos e membros, funcionando e ainda por cima (que luxo!) simetricos. E por cima do cima, ainda saudavel? Beleza de sorte! Eh isso que pretendo ensinar a meus bombons.

Claudia Serey Guerrero disse...

é isso ai Rita!!! e que foto maravilhosa é essa hein???? Claudia

Rita disse...

Oi, meninas.

Ah, Anginha, nem me fale das calças curtas. E o que dizer da minha menina que (ironia, ironia) só quer usar rosa... tanto que tentei resistir, mas como não comprar roupas rosas se 90% das roupas de meninas nas loja são rosas??! E ai ela tomou gosto, pronto. :-/

Claudinha, de qual das duas fotos que ilustram este post vc está falando? ehehhehe brincadeirinha.... linda a fotinha, ne? Mas não é minha não. É uma foto roialty free "para usos diversos". Eu achei bem simbólico do que quis expressar neste post: liberdade, a beleza da simplicidade da infância.

Beijos e obrigada pelos comentários.

Rita

 
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