Chorando as goiabas - um pouco de nostalgia em memória de uma árvore




Na minha casa (não a atual, a da infância) tinha um pé de goiaba. Não era uma árvore bonitona, mas era o meu pé de goiaba. Ficava no jardim da frente da casa ("jardim" é uma generosidade minha; tratava-se, na verdade, de um pedaço de chão com algumas plantinhas e a dita goiabeira), sua copa se espalhava pelo telhado do vizinho e o chão vivia coberto de folhas secas. Seus frutos eram um deslumbre: grandes, doces, suculentos, livres de pragas. Goiabas vermelhas, minhas favoritas, que rendiam geléias, sucos, compotas e o que mais pudéssemos inventar. Os parentes eram frequentemente presenteados com generosas porções da fruta, já que nem o apetite voraz de meu irmão conseguia dar conta de tanta goiaba. Não raro ouvíamos nosso primo gritar "traz o balde!" lá de cima do pé, quando não conseguia mais segurar tanta goiaba em sua camiseta esticada como uma rede em frente à barriga. Geralmente nem sabíamos que ele estava lá em cima, pois suas visitas começavam pela copa da árvore: chegava, subia, colhia e só depois se anunciava. O pé de goiaba era tudo de bom.

Mas nem as goiabeiras são unanimidades e a nossa causava lá seus dissabores, especialmente para minha mãe. A janela de seu quarto abria para o "jardim" da goiabeira, o que significava que sua sagrada soneca após o almoço (com sobremesa de goiaba) era invariavelmente perturbada pelas pedrinhas atiradas por crianças que passavam pela frente da nossa casa e que tentavam a todo custo "pescar" uma goiabosa. Hoje me pergunto por que eu simplesmente não reservava um cota para essas crianças; uma solução simples, um ato generoso, que poderia ter salvado a vida daquela árvore. Porque minha mãe, um dia, ficou de saco cheio. Houve outros argumentos - a copa suja o terreno do vizinho (putz, eu poderia ter separado a cota do vizinho também), as raízes vão começar a quebrar o chão (será?) e outras falácias de menor importância. Lembro que protestei um pouco, só um pouco. No fundo eu não levava muito a sério aquele papo de derrubarem nosso pé de goiaba - ninguém derrubava pés de goiaba, ora. Então nem cheguei exatamente a me preocupar com uma possibilidade que a mim parecia tão remota.


Sendo assim, simplesmente não pude acreditar quando voltei do colégio e me deparei com aqueles galhos enormes deitados na entrada lateral da casa onde ficava o tal "jardim". E foi engraçado porque lembro que olhei para os galhos no chão, vi o pequeno toco onde antes se erguia o tronco da nossa goiabeira, caminhei com dificuldade por entre os muitos galhos finos que se emaranhavam no caminho para a porta da sala, mas não conseguia acreditar. Eu nem percebi em que momento comecei a chorar e alguns momentos depois nem sabia mais por qual motivo chorava exatamente: se pela árvore derrubada, ou por ter sido tão ingênua a ponto de acreditar piamente que aquilo nunca aconteceria.

E nada mais aconteceu. Continuamos morando na mesma casa (minha mãe mora lá até hoje), o jardim foi aos poucos ganhando outras plantas de menor porte, a entrada da casa foi reformada e o antigo recanto da goiabeira foi convertido em jardim de inverno ("jardim de inverno" é um conceito engraçado para uma casa localizada no interior da Paraíba, mas tudo bem). Ninguém deu a mínima para minha choradeira, criança chora assim mesmo e olha que silêncio bom depois do almoço. Meu primo passou a entrar lá em casa sem precisar do balde e nós todos reduzimos drasticamente a quantidade de goiaba na dieta. Pronto, pra que drama, certo? :-/

***

Tanto tempo depois, não há rancores pela derrubada da nossa goiabeira. Apenas lamento que ela tenha despencado com a sensação de que ninguém fez nada para defendê-la. Se eu pudesse falar com ela, diria que as goiabas que às vezes compro por aqui não chegam aos pés das que nasciam em seus galhos. E que eu não ligava para as folhas secas no chão, nunca liguei. Diria que aqui em casa temos um ipê e que às vezes olho para ele e me lembro dela porque ele é a árvore da casa, como ela foi a nossa um dia. E diria que torço para que a passarinhada tenha se encarregado de espalhar seus filhotes e que eles ainda estendam por aí suas copas carregadinhas de delícias vermelhas. Ah, e pediria desculpas também.

1 comentários:

David disse...

Entendo seu sentimento. Eu fui podar minha goiabeira de 7 anos na época de goiaba. Acabei cortando tudo, nao deixei nenhuma folha. Só ficou os tronco. Ja faz 24 horas e nao para de sair agua das feridad.
Nossa. Me arrependi. Parece que posso sentir as dor dela.

 
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