Aqueles seres que não servem para nada




Você não verá fotos de outros bichos neste post.


Hoje, parados no sinal no caminho para a escola do nosso filho, ficamos alguns minutos admirando uma garça que voava sobre a baía. Comentei como é raro (para mim) assistir a um vôo tão longo como aquele. Nem sei se era longo para os padrões da garça, mas para mim que, no máximo, vejo os võos rápidos dos passarinhos que invadem as palmeiras do nosso quintal, ou as gaivotas que mais pastam do que voam na praia, ver aquela garça branquinha batendo suas grandes asas com a maior cara de quem se acha dona do espaço, seguindo a linha da margem da baía rumo ao seu destino que parecia muito longe dali, foi o máximo. E aí o Odisseus comentou que longo mesmo é o vôo do albatroz, que chega a passar meses ou até anos cruzando o planeta. Foi quando pensei: é isso! Já sei como vou começar meu post sobre as baratas!

Há dias venho pensando em registrar aqui a maior das minhas fobias, mas não sabia exatamente como tratar de assunto tão nojento. Mas agora sei. Começo com a seguinte pergunta: por que cargas d’água, em um planeta habitado por espécies tão graciosas e imponentes como as garças e os albatrozes, existem aqueles serzinhos desprezíveis e absolutamente detestáveis, as cascudas imundas e aterradoras? Hein? Sim, porque não venham vocês me dizerem que elas fazem parte da cadeia alimentar (uuuuugggghhhhhhhhh!!!) das espécies, que elas são necessárias para o equilíbrio da biodiversidade, porque elas não são: existem trocentas espécies de insetos que poderiam muitíssimo bem substituí-las na cadeia alimentar e elas não equilibram a biodiversidade de planeta nenhum, nem aqui, nem na China. Elas só desequilibram, invadem, sujam, contaminam e apavoram. Elas traumatizam. Elas são desnecessárias. Elas não servem para nada. Nada. Deveriam ser exterminadas. Agora.

Eu não sei quando a minha fobia começou, mas isso não tem muita importância. Eu não acho mais que ela tenha raízes em algum trauma da infância ou em um episódio particularmente desagradável envolvendo uma horrorosa daquelas (e como um episódio com um monstrengo seboso poderia ser agradável, não é mesmo?). Hoje em dia ando mais convencida de que faço parte de uma vasta comunidade de seres humanos absolutamente normais e bem resolvidos, que têm perspicácia suficiente para perceber o absurdo que é a existência de uma barata. Vejam bem, eu sei que elas traumatizam (eu sou um exemplo vivo disso), mas não acho que o medo comece aí, entenderam? É normal sentir medo de uma coisa cascuda e nojenta, que se movimenta com impressionante rapidez, que ainda por cima voa (voa!! Uuuiiii!!) e tem antenas enormes, mesmo que ela nunca tenha feito nada contra você. O trauma pode vir em um ou outro episódio com um grau maior de aproximação ou ameaça. E eu, infelizmente, já vivenciei vários deles.

Eu morro de medo de barata. Passo mal, suo frio, meu coração acelera, respirar fica difícil. Eu não consigo matar uma. Para matar uma aberração daquelas é preciso chegar muito perto, a pelo menos um cabo de vassoura de distância. E isso é muito perto. E se você me sugerir um chinelo vou falar que você tá de brincadeira comigo. E sempre existe a possibilidade aterradora do vôo contra o qual um cabo de vassoura nada pode – a não ser que eu me transforme em uma bruxa de verdade. Não mato, não consigo. Eu peço ajuda. Se precisar, eu clamo por ajuda, imploro mesmo. Chamo vizinhos que nem conheço, já fiz isso. Ligo para amigos que estão a quilômetros de distância, tiro o namorado do trabalho, já fiz tudo isso também (lembra, Odisseus?). Não tenho vergonhas quando me vejo diante de uma barata. Eu saio correndo com os cabelos em pé e o coração a mil, perguntando-me se ela está sozinha. Ah, sim, porque uma barata nunca está sozinha. Desgraça pouca é bobagem, o ditado vem daí. Elas sempre se acumulam e se organizam pelo ambiente de modo a garantir o terror. Elas são o terror. E não se engane com as pequeninas: as mães, avós, bisavós, tataravós delas estão todas a espreita, em alguma brecha. Elas não morrem nunca, sabia?

Eu não vou ficar aqui relatando para vocês alguns dos infelizes momentos em que minha vida cruzou com um desses serzinhos QUE NÃO SERVEM PARA NADA, porque seria masoquismo demais. Minha face se contorce quando começo a relembrar algum... não, não. Já está registrado, vocês já entenderam.

Como eu sobrevivo? Eu dedetizo a casa duas vezes por ano. E não sei do impacto disso para o clima do planeta, mas não pensem que não ligo para isso, eu me preocupo, sim. Mas, queridos leitores, eu juro que não tenho alternativa. Eu não posso conviver com a possibilidade diária de cruzar com uma delas. Eu tenho filhos para educar e, honestamente, não quero que eles cresçam com a ideia de que a mãe deles é uma desequilibrada – porque eu sou normal, já falei. O fato de que uma lambisgoia agonizante apareceu na nossa escada há alguns dias é o sinal inegável de que está na hora de reforçar a dedetização. Vou agendar já.


Se alguém tiver alguma ideia menos nociva para mantê-las para sempre longe de mim – ou, tanto melhor, para exterminá-las sumariamente - fique à vontade para registrar aqui. Mas não me julguem por dedetizar a casa, por favor. A culpa não é minha. Se dependesse de mim, era tudo cachorro, gato, joaninha, garça e albatroz.

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Até hoje não consigo entender como consegui ler Metamorfose, do Kafka. Mas eu li, sentada no sofá, com cara de tranquila. É a prova incontestável de que o ser humano é capaz de superações maravilhosas, somos uma espécie e tanto. Não deveríamos ser forçados a conviver com seres nojentinhos dispensáveis, concordam?



5 comentários:

IsabelaRosa disse...

Rita qeurida, não te culpes pelo medo de barata...ter medo de barata pra mim até parece normal...diante do meu medo absoluto de....peixe...isso mesmo, peixe vivo, se debatendo na tua frente...enquanto eles estão no aquário (fechado, sem possibilidade de pular), tudo bem....até q são bonitinhos....mas pulando na minha frente, nem pensar!!!! Aquelas escamas nojentas, aquele olho molhado e sempre aberto...aquela boca que cabe um dedo inteiro, credo!!! Também fiz escândalos por causa de peixe (minha mãe tinha um mega aquário em casa), escândalos talvez bem mais vergonhosos que os teus, mas não tenho vergonha dos meus medos não...hj já superei essas vergonhas facilmente (os medos ainda não huahauhauha). Antes, somente os muito próximos sabiam disso, hj eu até já coloco na internet, hehe), sem dramas.
Então, por isso, até que o medo de barata é normal.
E respondendo à tua pergunta, aqui em casa, fazemos uma aplicação de K-Otherine (a pronúncia fica mais ou menos Cotrin). Basta misturar com água e borrifar (é bom ter um aplicador daqueles grandes) pela casa (frestas, soleiras, janelas, canto de lixo, enfim, por tudo...não tem problemas para plantas, nem animais domésticos. Odisseus mesmo poderia aplicar, pois aqui o Richard faz isso em poucos minutos, sem problemas, apenas com luvas de proteção e aquelas máscaras de gripe A. Não tem cheiro e em pouco tempo ele seca...Aplicamos agora uma vez por ano...no começo, aplicávamos de seis em seis meses. Ele acaba com todo tipo de animal rasteiro...é muito bom. Não temos esse problema por aqui. Eventualmente quando aparece algum bicho, ele tá morto e sequinho, geralmente pelo lado de fora da casa, nem chega a entrar, por isso a importância de passar por fora de casa.
Grande bj e boa sorte com seus medos.

lola aronovich disse...

Barata é algo tão, mas tão nojento, que nem sei o que dizer. Só que tenho fobia igual a vc. E acho que mantenho o maridão principalmente pra ele matar barata no caso de aparecer alguma. Só que ele viaja, como agora, e eu fico aflita. Eu penso sobre o que farei se aparecer uma. Eu tb já chamei vizinho, mas eu já consegui matar uma com vassoura uma vez.
Uma amiga uma vez me explicou uma lenda (daquelas bem da psicologia evolutiva, sabe?) sobre por que mulher tem tanto medo de barata. Não sei se vc quer saber, porque é muito nojento. Dizem que, no tempo das cavernas, ninguém tomava muito banho, e isso atraía baratas. Sim, mas por que só as mulheres teriam medo mortal desses seres malignos? Eu gostaria muito de viver num mundo sem barata.
Os ambientalistas juram que barata é necessário pro equilíbrio ambiental, mas eu não acredito neles.

Marina disse...

Amiga, vc é hilária.
Também tenho nojo de baratas e fico trêmula ao ter que matar uma, mas nada comparável a sua fobia.
Será que terapia ajudaria? rsrsrsrs

Rita disse...

Isabela,
muito obrigada pela superdica! Morri de rir do seu medo de peixe... mas eu não vi esse medo no dia da tainha... hahahaha

Lola,
pois é, via de regra presto a maior atenção nos ambientalistas, mas defender as baratas é um pouco demais pra mim.

Marina,
que ótima ideia! Quem sabe o divã me tira dessa... mas acho difícil.

Beijos, meninas.
Rita

IsabelaRosa disse...

uhauhuha, meu medo é de peixe vivo...peixe assado não representa nenhum perigo, muito pelo contrário!!!!

 
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