Tio passarinho




Quando Ulisses era criança, o Tio João era o maioral. Que criança não gostaria de ter um tio que adorava levar os sobrinhos para passear, presenteando os pequenos com picolés e brinquedos?  O Tio João o fazia não porque estivesse comprometido com uma tarde de babysitting pré-agendada; não, ia pelo prazer de estar na companhia das crianças.

Além de picolé e brinquedos, um passeio com o Tio João poderia incluir um inusitado banho de fonte, bem ali no meio da praça. Ulisses pode não lembrar de detalhes de sua última ida à praia em nosso último verão, mas nunca esqueceu dos banhos de chafariz liberados pelo Tio João. Meu marido guarda em um lugarzinho privilegiado de suas memórias de infância os passeios feitos na companhia do tio bonachão - e, de verdade, desconfio que as sementinhas plantadas nesses banhos de fonte e chupe-chupes devorados com alegria contribuíram para o adulto brincalhão que meus filhos têm a sorte de ter como pai.

E o Tio João podia ir mais longe. Uma das bonecas ganhadas por minha cunhada, irmã do Ulisses, veio como uma espécie de "calmante" para que ela relaxasse e encarasse um certo passeio a bordo de um teco-teco da vida. Com o Tio João era assim. Boneca era agradinho. Presente era banho de fonte e passeio de avião.

Essa semana, com 86 anos, Tio João partiu. Eu não o conheci, vejo apenas reflexos de sua presença no paizão que se tornou o meu marido. Mas se me perguntarem que palavra eu associo ao Tio João, respondo sem titubear "queridíssimo".

D. Tereza, sogra querida, eu entendo suas lágrimas de saudade e sua dor de boa irmã. Mas tente pensar que passarinho adora voar e que talvez o corpo cansado de Tio João o tivesse impedindo de bater as asas como gostaria. Agarre-se às boas lembranças, aquiete seu coração e saiba que hoje estamos juntos em pensamento e coração. Receba nosso abraço cheio de carinho e não se esqueça que estamos esperando sua chegada, que sempre alegra tanto nosso lar.

Beijo grande,
Ulisses, Rita, Arthur e Amanda.

5 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei fã do Tio João do Ulisses também (tenho Tio João, o chamo Tijoão, sorriso largo, que eu adoro, amo...). Com certeza agora liberto do corpo, ele continuará, não apenas nos corações e pensamentos dos que o amam aqui embaixo, mas lá em cima ele continuará sua caminhada de luz, pois todos nós estamos em constante evolução, e a passagem aqui na Terra faz parte do nosso crescimento e adiantamento. E, pelo visto, Tio João cumpriu direitinho, deixando muitas sementes do bem, não foi Ulisses!? Abraços a todos,
Ju

IsabelaRosa disse...

Que lindo Rita...esse texto faz a gente refletir sobre a beleza que existe além da morte. Espíritos são eternos, e aqui estamos apenas de passagem. Uma vida repleta de lembranças e boas memórias faz amenizar os efeitos da saudade.
Meus sentimentos à família.
Beijos,
Isabela

Rita disse...

Obrigada, meninas. O carinho de vocês é um presente. :-)

Anônimo disse...

Oi, Pessoas!...

Só hoje li este texto. Já fazia um tempinho que não andava por aqui e, quando entro, acabo nem lendo de tudo. Daí, como fui mesmo uma das protagonistas desta história linda, resolvi deixar também aqui meu recadinho...

O tio João tinha uma voz engraçada. Diferente. Divertida. Falava assim, com aquele jeito manso de quem viveu na "roça' a vida toda (mesmo com boa vida na cidade há muito tempo), e tinha no olhar a sinceridade de quem diz o que realmente está pensando. Coisa linda de se ver, de se sentir e de se aprender.

Sabe, o Tio João também amava os animais (como naquela canção, que ouvi dia desses na voz do Renato Braz - "para que a patir de hoje, a partir de hoje, a família se transforme... e o pai... seja pelo menos um universo... e a mãe... seja no mínimo a terra, a terra"...).

Entre outros bichinhos, lembro-me perfeitamente da arara que tornava nosso mundo bem mais colorido que as cores de suas penas. E quando ela nos dava o luxo de nos chamar pelo nome? Puxa, era outra coisa linda de se ver (e de se ouvir, lógico...).

É, pensando bem, acho que o tio João foi um tipo de universo. Suas risadas, sua meiguice, seu amor pelas crianças. E, sabe o que é mais curioso? Ele partiu bem pertinho do dia do médico: como se o universo dissesse: esse sabia dar bálsamo para medos e tristezas. Sabia fazer sorrir e emocionava a gente. Era ou não era um tipo de doutor? Diploma dado de maneira muuuuito especial...

Lembro também de a gente dizendo: a bênção, tio! E Ele, com aquela voz engraçada e terna: Deus te abençoe...

BEIJOS, regados com um pouquinho de lágrimas. É, não tá dando prá segurar. Saudades.

Anônimo disse...

Oi, Pessoas!...

Só hoje li este texto. Já fazia um tempinho que não andava por aqui e, quando entro, acabo nem lendo de tudo. Daí, como fui mesmo uma das protagonistas desta história linda, resolvi deixar também aqui meu recadinho...

O tio João tinha uma voz engraçada. Diferente. Divertida. Falava assim, com aquele jeito manso de quem viveu na "roça' a vida toda (mesmo com boa vida na cidade há muito tempo), e tinha no olhar a sinceridade de quem diz o que realmente está pensando. Coisa linda de se ver, de se sentir e de se aprender.

Sabe, o Tio João também amava os animais (como naquela canção, que ouvi dia desses na voz do Renato Braz - "para que a patir de hoje, a partir de hoje, a família se transforme... e o pai... seja pelo menos um universo... e a mãe... seja no mínimo a terra, a terra"...).

Entre outros bichinhos, lembro-me perfeitamente da arara que tornava nosso mundo bem mais colorido que as cores de suas penas. E quando ela nos dava o luxo de nos chamar pelo nome? Puxa, era outra coisa linda de se ver (e de se ouvir, lógico...).

É, pensando bem, acho que o tio João foi um tipo de universo. Suas risadas, sua meiguice, seu amor pelas crianças. E, sabe o que é mais curioso? Ele partiu bem pertinho do dia do médico: como se o universo dissesse: esse sabia dar bálsamo para medos e tristezas. Sabia fazer sorrir e emocionava a gente. Era ou não era um tipo de doutor? Diploma dado de maneira muuuuito especial...

Lembro também de a gente dizendo: a bênção, tio! E Ele, com aquela voz engraçada e terna: Deus te abençoe...

BEIJOS, regados com um pouquinho de lágrimas. É, não tá dando prá segurar. Saudades.

 
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