O que te fez um leitor?



Amanda, com cerca de 4 meses, lendo seu primeiro livrinho.

Vi no site do Ministério da Cultura (e vocês já devem ter visto também, em outros lugares) que o brasileiro lê, em média, 1,8 livros por ano. Os dados são do início de 2008, mas não creio que tenham mudado muito em menos de dois anos. Sem resistir a comparações, no mesmo período o leitor francês devora lá seus 7 livrinhos e um norte-americano consome uns 5 bons volumes. Honestamente, eu até gostaria de saber quantos livros os chineses, paquistaneses e jamaicanos leem por ano, em média, mas não consegui essas informações. Mas tudo bem, meu ponto é outro.

Ando me perguntando, afinal, o que nos torna bons leitores? Que experiências podem ser garantias de que uma criança será um devorador de livros ao longo da vida? Por "bom leitor", quero dizer alguém que se diverte com os livros, que gosta da companhia deles e que estuda sem sofrimento.

Eu poderia dizer que gosto dos livros desde que me conheço por gente, mas não seria verdade. Tenho lembranças de uma época em que via meu irmão devorar um volume atrás do outro enquanto eu mal conseguia passar da primeira página. Eu gostava do contato, de explorar os volumes, mas me entregar à leitura propriamente dita era outro papo. Não sei o que me fazia desistir, mas desconfio que era a boa e velha preguiça. O fato é que alguma coisa aconteceu, algum dia, que me fez seguir adiante e virar a primeira página, a segunda e seguir virando até hoje.

Se eu comparar os livros de minha infância com os que meus filhos "leem" hoje em dia (eles têm, atualmente, 2 e 4 anos de idade), penso ser inevitável que eles caiam de amores pela leitura. Muitos dos livros infantis disponíveis no mercado atualmente são absolutamente irresistíveis.

Não foi assim comigo. Acho que o primeiro livro que realmente me fisgou foi um de histórias, cujo nome não me recordo, com uma capa azul-sumido, onde um pato sem graça tentava convencer as crianças a se aventurarem naquelas páginas. Não sei o que vi de diferente naquele livro sem muitos apelos, com parcas gravuras em preto e branco, mas o li do começo ao fim, incluindo O Patinho Feio, que encerrava o volume.

Ou talvez, antes disso, eu tenha lido aquele do grilo que se escondia em um tronco de árvore para apavorar os outros bichos da floresta imitando um vozeirão de monstro... delícia! Esse sim, era lindo, cheio de gravuras que enriqueciam a história, mas, ainda assim, bem longe da abundância de estímulos que habitam os livros dos meus filhos - quando digo que era "lindo", quero dizer que era todinho roxo, com uma grande árvore, também roxa, repetida praticamente em todas as páginas, de onde um par de olhos esbugalhados espiava o leitor assustado. Um primor.

Mas tempos depois veio Lobato e aí ficou fácil, eu queria mergulhar no mundo do Sítio. Ainda assim, recordo que os volumes de nosso Obras Completas de Monteiro Lobato eram encadernados em capa dura azul escuro, sem nenhuma figurinha, e o texto era sempre dividido em duas colunas. Gravuras existiam, mas eram distribuídas em doses homeopáticas a cada dezena de páginas, pelo menos.


Arthur, com 4 meses, lendo seu primeiro livrinho.


Agora vejo meu filhote devorando seus livrinhos, "lendo" suas histórias e já contando para a pequena - que também "lê" com empolgação (ah, isso vocês precisam ver...) - e fico na torcida para que essa brincadeira siga pela vida afora. Eles - cujos livros bilíngues se abrem em castelos, apitam e brilham, revelam esconderijos e passagens secretas, trazem todos os personagens da TV e do cinema para a estante, e são lindos e coloridos como eu jamais poderia supor em minha infância - e que só vão para a cama depois de ouvir o papai contador de histórias, têm, e ainda nem sabem, o mundo inteiro ali entre os dedinhos, bem diante dos olhinhos curiosos. Tomara que eles o agarrem com vontade e não larguem nunca, nunca, e que 1,8 seja muito pouco para preencher cada um de seus muitos anos de imaginação faminta.

_________

No carro III - pequeno episódio em interlúdio:

- Mamãe e papai?
- Oi, filho.
- Quer ver como sei ler O Ursinho Apavorado todinho, sem o livro?
- Ah, é?! Queremos!!

E assim foi: "leu", ou melhor, recitou a história toda, com todas as entonações e barulhinhos devidos, sem o livro. Ah, os neurônios aos quatro anos....


Antes de dormir.
__________

E você, transeunte? Lembra do seu primeiro livro? Que livros marcaram sua infância?

11 comentários:

Márcia disse...

Se eu falar que foi o Pequeno Príncipe você fica brava???
:-)
Na verdade, não me lembro, talvez tenha sido um grande almanaque de férias da turma da Mônica por quem eu era simplesmente fascinada.
O fato é que sempre gostei de ler, os livros sempre me fizeram sonhar e viajar...

Angela disse...

Coincidencia pouca eh coisa de pobre... O ursinho apavorado eh de karma wilson e jane chapman? Se for, olha so, comprei ele hoje na hora do almoco. Fui pegar Max na escolinha e opa, tinha esquecido, era a feirinha literaria. Peguei os livrinhos da wishlist que ele tinha preenchido durante a manha, comprei um livrinho sobre as pegadas dos animais para doar para a sala dele, e escolhi mais tres, um deles "Bear Feels Scared"! Ia ler hoje a noite mas voltou do Zoo Boo super cansados e cama... nesses ultimos dias ele tem contado "stories with his mouth" na hora de dormir, ao inves de ler, mas adora os livros.
Quanto ao meu primeiro livro, nao lembro, mas acho que o que me prendeu a leitura foram os gibis. Meu pai comprava muitos, no sebo, com a intencao de nos prender a leitura, eu acho. Se foi, funcionou! Li moderadamente ate a quarta serie, quando ele comprou uma serie de vinte e poucos classicos adaptados para criancas (Moby Dick, Vinte mil leguas submarinas, Viagens de Gulliver, Robson Crusoe...). Da quinta serie ao terceiro ano cientifico devorei todos os livros infanto juvenis e depois os de pra la de adultos da biblioteca do meu pai. (O Velho e o Mar na oitava serie foi lido em um sabado e quase comprometeu minha nota na prova de geometria. De Jose Lins do Rego, Jorge Amado, Erico Verissimo ao Tolstoi, Dostoievski, passando por Jane Austen, GAbriel Garcia Marquez, Malba Tahan, uma variedade sem fim. Romances, ficcao, politica, filosofia, besteirol, tinha de tudo la. Mas uns do que nunca me esqueci foram quatro russos azuis muito antigos, dos quais so lembro do nome de um (O novelo e a La). Eram estorias antigas de esquimos, exoticas e fascinantes. Aos dezesseis anos uma sequencia de acontecimentos me separarou da leitura, e nunca mais consegui voltar a ela full throttle. Nao por falta de vontade... a separacao eh temporaria!!!

Claudia Serey Guerrero disse...

Eu tambem acho que foram os gibis... Luluzinha :) meu pai comprava numas barraquinhas de frente às DAMAS, eles vinham com a capa rasgada na metade.. eram mais baratos :). Depois me lembro que Dalton me apresentou à Mina de Ouro, que eu adorei! Aquela aventuras das crianças perdidas na Mina, e ai fiquei fã da coleção do Cachorrinho Samba.. :-)

Angela disse...

Ok, tentei nao incluir isso em meu comentario ao teu post tao leve e gostoso, mas nao deu. Dormi, acordei e voltei. Pra te contar um pouco da estorinha dos livros que li do meu pai. Eles passaram muitos anos em um quartinho subterraneo que ele construiu a partir de um quarto anexo da sua entao casa para esconde-los e tambem poder le-los. Eh que ele foi perseguido durante a ditadura militar, quando era ilegal ter tais livros. Teriam sido queimado. Ironicamente, quando ele fez a planta da nova casa na qual cresci (ja depois da fase mais dura da ditadura, quando os livros ja tinham sido liberados) os quartos eram todos juntos, isolados e levemente protejidos. E em seu closet ele introduziu uma porta secreta que dava acesso ao escritorio/biblioteca que por sua vez ficava ao lado da porta da frente, e que dependendo da situacao nos conduziria para fora da casa nos dando acesso aos passaportes ja pre arranjados para o asilo na Franca. Essa porta secreta era disfarcada, ironicamente, como parte da sua estante. E coberta de livros. :)

Anônimo disse...

Não lembro meu primeiro livro... Lembro dos gibis, e de uma coleção que minha Tia que já morava em JPA na época deu de presente para eu e minha irmã, fiquei encantada pois a capa era daquele tipo que vira e muda a imagem e da a impressão de movimento, gente foi o máximo pois lá no meu interior nunca tinha visto coisa igual, aquilo ainda era coisa de capital. Aí, lembro de uma fase que meu irmão tinha a coleção de Zagor (já ouviram falar?? um guerreiro...), ele já estudava em Campina, então lia todos, escondido claro hehe. E depois, esse meu irmão comprou uma coleção completa, capa vermelha, de José Lins do Rêgo, Jorge Amado, ... e li tudinho, já não era mais escondido, essa coleção estava liberada. E aí foi o grande início.
Agora uma coisa para vocês que tem filhos maiores que a minha, Rita, Ângela,... Raquel rasga tudo que é livro, poucos estão escapando, é assim mesmo???
E Ângela, essa histórias do seu pai, da sua família dar um bom livro. Pense nisso!
beijos,
Ju

Cecilia disse...

Oii, estou de passagem por essa estrada e adorei o tema :)
Com certeza tem livros que ficam marcados na nossa memória. Não me lembro do que li quando era beeem pequenininha, nem se lia tanto, mas acho que devia ter uns 9 anos quando ganhei um livro sobre as crianças do mundo. Era um livro que tinha em cada página a história e as fotos da criança de um país diferente, as suas brincadeiras, a sua família.. Lindo até para adultos!
Outros que marcaram foram: Serafina sem Rotina, a coleção "Quem tem Medo", a coleção dos Pingos..
E ainda quero ver essa cena dos dois "lendo", que fofos!
Bjinho

Renata disse...

Eu acho que foi Poliana :o/ Na verdade, acho que como todo mundo, comecei lendo gibi. Aí teve uma fase que minha avó me emprestava uns livros da Biblioteca das Moças, com uns romances bem adocicados sobre mocinhas humildes e príncipes de olhos profundos... Eram a maioria de M. Delly e eu adorava. Mas o meu primeiro livro, meu mesmo, foi meu querido irmão Emerson que me deu, com direito a posterior continuação Poliana Moça. Ele continua abastecendo minha biblioteca até hoje e, não posso enganar ninguém, gostei do jogo do contente logo de cara.

Nakereba disse...

Sempre fui curioso e logo descobri que tudo que eu queria saber estava nos livros. Comecei lendo os gibis da Marvel e Disney do meu irmão mais velho. Tinha 7 ou 8 anos. Não me lembro exatamente do meu primeiro, mas deve ter sido um daqueles chatinhos que a escola nos dava. Imagina, eu querendo entender o paradoxo temporal causado pelas viagens do tempo do Dr. Dudley em a “Máquina do Tempo” e a professora tentando me convencer a ler “Ivo viu a uva”. Não dava, né? Sem a menor chance. Mais tarde, aos 9 anos li muito Jules Vernes. Para dizer a verdade, o livro que mais me marcou nessa fase foi “Viagem ao Centro da Terra” do Vernes. Devo ter lido umas 3 vezes. Consideraria este meu primeiro livro. Os outros foram apenas aperitivos. Lembro-me que lia de tudo (gibi, bolsilivro, faroeste, fotonovela, bíblia, etc.) dos 10 aos 15. Depois comecei a ficar mais seletivo. Aos 16 anos, mudamos para uma cidade lá no sertão da Bahia e consegui um verdadeiro feito: reabri, sozinho, a pequena biblioteca da cidade que estava fechada há quase 20 anos. Não tinha ninguém pra abrir, tomar conta, etc. Ofereci-me para abrir e tomar conta em troca de uma sala onde poderia dar minhas aulas de reforço (inglês, matemática e português). Lembro-me que fiquei dias limpando o lugar. Não aparecia ninguém para pegar os livros e eu passava horas me deliciando. Nessa fase, não lia muito romance. Sentia-me o dono do mundo. Continuo lendo muito.
Nakereba

IsabelaRosa disse...

Um livro que me marcou muito durante a minha infância e que consegui guardar até hoje para ler para a minha filha, tem o título de "A Minha Casa Mental", com pequenas histórias de personagens variados, cujo fim era passar às crianças temas relacionados à logosofia, esta ciência maravilhosa que te faz limpar os pensamentos, doutrinando-o e dominando-o ao bem.
Rita, adorei a idéia...faça mais desses pequenos desafios.
Grande bj,
Isabela

Sinara disse...

:-) Lembrar de um... Não sei... Tinha um, muito, muito velho, acabado mesmo... Esse, eu colei as folhas soltas, arrumei a capa velha, encapei e li inteiro...
Parece mentira, mas está aqui no meu colo - "Primaveras Perdidas", de Kathleen Harris - escrito com a minha letras na capa reconstruída... :-) Ele fica ali, na minha estante, junto de todos os livros queridos que já li... Era (olha só... 'era'...) da minha mãe - na contra-capa tem assinado: "Eunice Oliveira, Garanhuns, janeiro de 1955". Não sei porque razão li e guardei até hoje... Não sei se foi o primeiro livro... Provavelmente não... Mas, marcou o fato de eu ter 'reavivado' o livro da "Coleção Rosa - Uma coleção para as moças do Brasil". Precisa contar o enredo?? ;-)
Depois, veio 'O Pequeno Príncipe', óbvio, e então 'O Meu Pé de Laranja Lima', 'O Menino do Dedo Verde', 'Pollyana' - menina e moça! Daí, chegou o que balançou mesmo: 'As Brumas de Avalon'... Amei... A lista é muito longa até o presente... Mas, outro que marcou foi um que 'lemos' em conjunto, lembra, Rita? Eu chegava em casa, super cansada do trabalho aí em Floripa, deitava no sofá e você fazia o resumo do livro que estava lendo: 'The Pillars of the Earth'... Maravilhoso... :-) Ouvi a história inteira, do início ao fim... Foi uma boa leitura... :-)
Bjs!

Mel disse...

Bem..... O Pequeno Príncipe não conta né? rsrs O primeiro livro que eu lembro da história e que me marcou muito foi Brida do Paulo Coelho. Hoje nem sou mais fã, mas na época eu adorava. Lembro que depois de ler Brida, ficava procurando uma luz atrás da cabeça das pessoas para achar minha alma gêmea! :o))

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }