Do cabelo do milho ao biscoito queimado


Todos esses papos em torno das panelas me levaram a pensar sobre minha relação com a cozinha. Nesses últimos dois dias, algumas lembranças da minha infância têm me visitado com acentuada nitidez e todas têm a ver com o preparo de comidas.




Eu nunca aprendi a cozinhar (tudo bem, sem rancores). Aprendi a ler e a dirigir, já tá bom. Não havia em minha casa uma cultura culinária muito forte, todos tinham outras prioridades e hobbies e sempre tivemos uma cozinheira que nos servia o bom feijão de cada dia. Minhas incursões ao fogão eram limitadas aos finais de semana, quando, aí sim, minha mãe coordenava os trabalhos da cozinheira e, munida das boas intenções de uma educadora que se preza, "convidava-me" a colaborar. Eu sempre ia de mal grado porque daria qualquer coisa para permanecer no refúgio do meu quarto, mas escolher não era algo que me era facultado. Então rumava para a cozinha como quem ruma para o castigo e seguia as instruções. Normalmente, seguir as instruções significava debulhar feijão, cortar bifes e preparar sucos. Nenhuma antipatia para com os bifes e sucos, mas debulhar feijão era o diabo.

Todos os sábados, meu pai trazia da feira livre generosos molhos de feijão de corda (o bom e velho feijão verde), comum em algumas regiões do interior do Nordeste brasileiro. O prato era parceiro certo da deliciosa galinha caipira dos domingos, sempre acompanhado pelo irresistível arroz de festa ("arroz de graxa", como chamávamos - desfaçam as caretas, é uma delícia!) e tudo era preparado na véspera para que ninguém precisasse olhar para a cozinha aos domingos. E era o primeiro passo do preparo do feijão que acabava com minhas manhãs de sábado: debulhar, ou seja, retirar os grãos, um a um, das vagens esguias e verdinhas. Ó deus... em primeiro lugar, eu morria de medo e nojo das eventuais lagartinhas verdes que se espichavam e se torciam cada vez que eu cravava a unha na extremidade da vagem... em segundo lugar, depois do primeiro molho, minhas unhas doíam e eu iniciava uma interminável contagem regressiva que tornava a tarefa ainda mais penosa. E, finalmente, eu tinha de fazer aquilo todos os sábados. A morte, propriamente.

Eu não sei o que levava minha mãe a reservar as tarefas mais enfadonhas para mim. Suspeito que ela estava apenas sendo prática, delegando-me funções que sabia que eu poderia desempenhar sem grande dificuldade. Do ponto de vista dela, claro. Porque, do meu ponto de vista, eu ficava encarregada do que havia de pior dentre todas as tarefas domésticas. O mesmo se dava nos meses de junho e julho, quando quase todos os sábados giravam em torno do preparo das delícias de milho típicas das festas de São João. Eu adorava o rebuliço todo. Fazer comida de milho já era uma festa em si e no fim do dia ainda nos esbaldávamos na deliciosa canjica amarelinha, temperada com canela em pó... O paraíso. Mas o paraíso depois de pronta a canjica, na hora do jantar. Porque as minhas manhãs desses sábados inesquecíveis eram dedicadas a retirar o cabelo das espigas de milho. A morte, propriamente.


A foto não é minha (está aqui), mas poderia ser, não fosse o detalhe da fitinha que amarra a pamonha: minha mãe sempre amarrava as dela com fitilhos feitos da própria palha do milho.

Vocês já retiraram cabelo de uma espiga de milho? Sabem que a base dos longos fios do cabelo do milho ficam encravadas entre os grãos hermeticamente unidos e que é im-pos-sí-vel retirá-los de uma só vez porque eles sem-pre se quebram? Sabiam vocês, queridos leitores, que eu ficava horas sentada em um banquinho, cabisbaixa, com uma faquinha cega (para minha segurança) na mão, abrindo caminho entre os grãos miúdos em busca do cabelo perdido, tentando entender porque tinha que viver aquela sina tão ingrata? Não, não denunciem minha família ao conselho tutelar; era, sim, um trabalhao tecnicamente leve, equiparado a secar a louça ou arrumar a cama. Mas eu detestava com todas as forças de cada célula do meu ser emburrado.

O ritual de preparo da canjica e das pamonhas tomava o dia inteiro e, geralmente, quando a noite anunciava a proximidade da comilança, vocês poderiam me encontrar sentada em um outro banquinho, bem alto, próxima ao fogão, fazendo a segunda pior tarefa do preparo da canjica: mexendo o tacho. Volto a perguntar a vocês, queridos leitores: vocês sabem quanto tempo é necessário para cozinhar um enorme tacho com canjica preparada a partir de cerca de 100 (cem!) espigas de milho cabeludas? Duas horas. Eu mexia o tacho de canjica por duas horas. Tá bom, existia um revezamento, mas eu nunca escapava dele. E eu não queria mexer a canjica. Eu de-tes-ta-va mexer a canjica. Era chato, enfadonho, cansativo, calorento e meu braço pesava uma tonelada. E uma canjica, queridos leitores, nunca fica pronta. Duas horas é um tempo longo demais, não passa nunca. Experimentem. Coloquem qualquer coisa no fogo que precise de duas horas de mexidas ininterrruptas (piscou, grudou!)  e vocês vão ver que não minto. O tempo não passa. A morte, propriamente.

Então eu cresci detestando cozinhar.

Mas, felizmente, nessa vida tudo se supera e vim a me casar com um amante do bom fogão, alguém que me mostrou como pode ser prazeroso passar horas na cozinha. Hoje em dia me aventuro no mundo das receitas, vocês bem sabem. O preço de ter me mantido afastada tanto tempo do fogão é que careço de intuições culinárias e sou totalmente dependente das boas receitas. Mas já perdi a aversão ao forno, o que é algo gigantesco e praticamente inimaginável no tempo das vagens de feijão verde. Acho natural que eu mais erre do que acerte e que para cada bolo fofo eu colecione várias fornadas de biscoitos queimados. Ah, mas tomei gosto, não pretendo desistir.

Meu filho adora ajudar na cozinha. Por via das dúvidas, reservo para ele as tarefas mais gostosas, como despejar os ingredientes na tigela ou pincelar as forminhas de muffins. Ele adora e faz com o maior sorrisão.
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Mãe, não se preocupe. O papo aqui é o cabelo do milho, mas eu lembro sim que você me deixava desenhar carinhas de canela nos pratos de canjica. Eu adorava aquilo e imediatamente esquecia as espigas cabeludas. Obrigada. E não se culpe pelo debulhar do feijão; tê-la em casa aos sábados era o que mais importava. Te amo muito e estou morta de saudades.

5 comentários:

Angela disse...

Tambem debulhei o feijao! Nao achava tao ruim a atividade ja que geralmente estava acompanhada e haviam interacoes paralelas. Mas as lagartas eram um horror. Cortar bife nem pensar, ate porque nao consegui comer carne na minha vida ate cerca dos treze anos, e ate hoje NUNCA tratei nem cozinhei carne vermelha. Se o fizer, nao comerei carne ate o fim da vida. Nao tirei os cabelos do milho nem mexi a canjica. Sortuda eu, heim??? Pense novamente... NAO. Em ocasionais fins de semanas, meu pai que vivia concertando e construindo coisas, me recrutava para ser a ajudante. Isso significa que eu passava uma manha ou tarde de fim de semana em pe ao lado dele, segurando e entregando ferramentas a la auxiliar de dentista, aprendendo a trocar luzes, consertar o ferro de engomar (das antigas), consertar a descarga, o chuveiro, o portao suspenso, etc... Ou em cima do telhado aprendendo nao-sei-o-que-era-aquela-licao pois nessas toda a minha concentracao era desviada para a luta contra minha fobia a alturas. No final da adolescencia as aulas ja tinham evolvido a consertar meu carro. A tempo, caso meu falecido pai estiver lendo blogs seja la aonde ele estiver: obrigada a me ensinar licoes essenciais de paciencia, tolerancia, e "to suck it up", alem eh claro por me capacitar e ensinar as coisas do universo masculino, no qual acabei inteiramente emergida, hoje em dia por nove horas diarias, como parte da minha carreira!

Marina disse...

Amiga que infância difícil...rsrsrs
Não tenho a mínima idéia do seja desempenhar essas tarefas. Lá em casa, ao que me recordo, o feijão sempre vinha no saquinho.
Ah, fiquei com vontade de comer a canjica...dizem que é bom para amamentação, não é?
beijos.

Angela disse...

Ai Rita, meu portugues ta cada vez melhor. Muita ousadia a minha escrever em meio publico. Depois que escrevi isso me veio a mente, mas ja tava no quarto e deixei para corrigir hoje: Emergida na realidade eh Imersa... (ei, lembras do suco sem preservativos???). Espero que ainda esteja dando para entender... Pelo menos tou melhor do que a Kiyora, minha amiga japonesa que aparentemente esqueceu de como falar Ingles, que era a lingua que tinhamos em comum, mas nao perdeu o rebolado e me escreve em italiano. Eu que me vire!

Rita disse...

:-)
Esquenta não, Anginha. Seu português tá ótimo e eu nem preciso morar fora do Brasil para tropeçar nele de vez em quando. Eu adoro seus comentários e, se precisar, eu pelo esclarecimentos extras... Ah, e, claro, se você perceber algum tropeço nos posts, pretty please, let me know.
Em tempo: tenho tentado contato contigo por e-mail, mas parece que tua e-mail box tá lotada. Tentei Facebook tbm, mas nada. Então vai blog mesmo: dá um toque por e-mail, ok?
Bjs!

Anônimo disse...

Menina, muito engraçado seu post, eu lendo aqui no trabalho e sem parar de rir... risos. Agora deixa eu falar da minha experiência com isso tudo... Vocês acreditam que tem não posso debulhar feijao!? Pois é, tem alguma coisinha ali na vagem que sou alérgica. Então muitas das vezes estávamos no sítio do meu pai, e quando era a noite na época do feijão verde todo mundo ficava na calçada na maior animação a contar história e debulhar feijão (muuuuito feijão) e eu queria pq queria também fazê-lo, não me bastava ficar apenas ouvindo as histórias, "deixa mãe!? deixa!? dessa vez não vai ter nada não..." pois de teimosa lá ia eu debulhar e em 5 min estava toda me coçando, minha mãe reclamava e lá ia me dar banho... Carne vermelha, ui, não fazia, não tocava, hoje em dia já precisei fazer, mas daí não como, não gosto de vê-la crua. (Coincidemente neste momento meu marido foi comprar as carnes da semana, pois eu posso fazer todas as compras sozinha, mas a carne é ele que compra...). Ângela, lembra q passei um ano sem comer carne porque assisti ao filme de um acidente aéreo q depois os vivos comem... melhor não continuar... Quanto ao milho, era muito milho, dois sacos enormes cheios que eram trazidos do sitio, oba pamonha (não gostava de canjica na época, passei a comer canjica nos últimos anos), mas quando chamava para tirar cabelo, uma tarde inteira também, começava a reclamar que adorava pamonha, e bem q podia ter pés-de-pamonha, para colhermos a pamonha já pronta. Rolava sempre essas idéias na minha cabeça. Até hoje continuo achando que seria ótimo um pe-de- pamonha, pe-de-canjica...Ah, a canjica eu nao mexia, e sabe porque!? Falava que já que eu nao gostava não era justo mexer, e não mexia, era liberada. Rita, outra coisa q tambem sao mais de 2 horas mexendo sem parar é doce de leite, e sabe quantas vezes mexi!? nenhuma, nao gosto de doce de leite, para revolta da minha irma, pois era e é o doce preferido dela, dai ela q revesasse a mexida do doce com outras pessoas... Huum, agora q percebi isso, sera q eu nao gosto das coisas que demoram no fogo so para nao ter q ajudar!? acho que nao, simples coincidencia. Agora, lendo o que Angela escreveu, me fez lembrar que adorava ficar ajudando meu pai nas coisas dele, mas não essa de montar, concertar, como seu Walter, pois não é a praia do meu pai, mas ficar fazendo as anotações dele, as contas (ele ficava todo orgulhoso que eu já sabia somar, multiplicar, etc), ir ao banco... E hoje sou engenheira, uma profissão ainda tipicamente masculina.
Beijos,
Ju

 
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