Déjà vu



Uma das primeiras resoluções internas que fiz quando me descobri grávida de uma menina foi: aconteça o que acontecer, jamais darei panelas para ela. Falo das panelas de brinquedo, obviamente, e de seus inevitáveis anexos: o fogãozinho, a geladeirazinha, a batedeirazinha, a minicozinha completa, nada, enfim, que remetesse ao "brincar de casinha".

Durante minha infância, vigorou na minha casa uma espécie de regra silenciosa em relação ao que era brincadeira de menino e o que convinha às meninas, e essa regra me incomodava imensamente. Os Natais e aniversários passavam e a coleção de jogos interessantíssimos de meu irmão só aumentava, enquanto que em igual proporção crescia minha coleção de bonecas. Minhas bonecas também se davam muito bem, já que, além das próprias, eu ganhava com frequência joguinhos de panelas e afins para bonecas. O fato de ganhar bonecas e seus acessórios em si, obviamente, não me incomodava. Incomodava o não ganhar os tais jogos interessantes.

Eu brinquei com todos eles, é verdade: banco imobiliário, caça à moeda, damas, ludo e outras febres dos deliciosos anos 80. Mas durante algum tempo cheguei a me sentir muito sortuda por ter um irmão em casa, já que parecia que só assim teria acesso às tais maravilhas. E, claro, tudo tinha um preço. Então brinquei, sim, mas sempre às custas de muitos "empresta, por favor", "deixa, vai" e "tá, eu não conto". Porque os jogos simplesmente não eram meus. Então não adiantava muito o tal "é para os dois brincarem juntos" que minha mãe recitava porque, na real, o poder de decisão parecia sempre caber ao todo-poderoso dono do jogo. Logo, uma vez grávida de menina, fui tratando de estabelecer que não seria assim com minha filha.

É claro que não chegou a passar pela minha cabeça proibi-la de brincar de casinha. Sempre soube que ela ganharia os inevitáveis kits de cozinha hora ou outra, já que nem toda tia ou amiga pensa como eu. Mas eu não, eu seria a fornecedora do War e do Imagem & Ação.

Pois bem. Minha filhota está com dois anos e nenhuma panela. Nenhuma. Ela adora brincar de cozinhar para o urso de pelúcia dela, o Urso Filhinho. Gosta muito, mas ela não tem panela. Então improvisa e anda pela sala com um espécie de prato verde que eu não sei onde arrumou, usando como colher uma pá amarela daquelas de cavar na areia da praia. Não dá muito certo, porque a pá é imensamente maior que a boca do urso, mas ela se vira. Eu? Finjo que é assim mesmo, tá bom, tá bom.

Então ontem fui à loja comprar os presentes do Dia da Criança. E eu juro que tentei. Procurei muito, em todas as seções, mas não vi na loja inteira nada que me deixasse tão certa de que seu rostinho se abriria em um imenso sorriso nervosinho de alegria ao abrir o presente; eu até tentei negar, mas soube assim que vi que nenhum outro brinquedo seria tão bem recebido por ela na fase em que está agora. Então guardei no bolso meus traumas de menina-sem-jogos e comprei. Comprei um lindo kit de panelinha e fogão que vai combinar muitíssimo com o faqueiro prateado que tem até escumadeira! E tenho certeza de que Urso Filhinho também vai curtir muito o joguinho de chá que vem com chaleirinha e lindas minixícaras fofas...





Meu marido está a dar risadas - ele que acha que o não dar panelas tem mais a ver com uma suposta veia feminista e que esse papo de trauma da infância é para inglês ver. Ah, mas hoje não vamos falar sobre isso porque hoje é dia de brincar. Nem que seja de casinha. Podem sentar que o chá vai ser servido.

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Para o nosso paleontólogo favorito foi mais fácil, nada mais natural do que um super tricerátops que, se quiser, pode tomar chá com Urso Filhinho. Ah, é verdade, ele também ganhou um joguinho bem legal. É dele, mas é para os dois brincarem juntos. ;-)

6 comentários:

Claudia Serey Guerrero disse...

Feliz Dia das Crianças à Amanda e Arthur!!! Rita quase morro de rir imaginando Amandinha com sua "pazinha" e "pratinho verde" dando comidinha ao urso hihihi!!! beijinhos a todos e curtam de montão os novos brinquedinhos, Claudia

Sinara disse...

Oi!!! Em primeiro luigar, FELIZ DIA DAS CRIANÇAS, para as crianças já crescidas e para as pequenas dessa casa nada sonolenta!!!! :-)

Menina, 'que coisa triste'... ;-) Fiquei com uma peninha imensa da Amandinha, sem panelinhas e dando comida ao urso com uma pá de ir à praia... Que 'horror'... :-) Mas, como conheço bem a mãe da Amandinha, sabia que ela iria 'superar' e, finalmente, comprar o joguinho mais lindo pra ela... Aposto, inclusive, que a mãezinha foi a PRIMEIRA a se servir com um chazinho e a compartilhar com o urso e o tricerátops (que nome, eu hein...).
E, nem te preocupa... O que não vai haver eh 'trauma': a Amandinha vai brincar com joguinhos, bola, boneca, fogão e vai convidar o irmão pra tomar chá, levar as filhas-bonecas na escola no super-carrão que aposto que ele já tem... Enfim, todos vão compartilhar e dividir as brincadeiras que só vão fazê-los crescer lindos, bem resolvidos e cheios de aventuras pra lembrar e dar risadas...
beijos e saudades... :-)

Nakereba disse...

Gostei do texto. Na verdade, não fiquei com pena da Amanda dando comida ao urso com uma pá de praia. As crianças têm imaginação super fértil e não importa muito o objeto que utilizam para brincar, desde que seja seguro e que não se sintam inferiores às outras crianças (não devemos projetar nossas inseguranças sobre nossos filhos). Crianças que não têm brinquedos e que os substituem por outros objetos desenvolvem/podem desenvolver sua criatividade tanto ou até mais do que as outras crianças que têm os brinquedos "ideais". Eu não tive carrinhos na infância, mas isso nunca me impediu de brincar de carrinho com os sapatos da minha irmã (éramos privilegiados: ela tinha sapatos!!!). Meu problema não é com as meninas brincando de casinha, mas sim com as meninas que brincam apenas de casinha!! Gostaria de ver as meninas, além de brincar de casinha, brincando de "cavar um tunel para chegar à China; abrir estradas com vassouras no quintal e fazer trabalhos de paisagismo ao longo das vias imaginárias com plantinhas; visitar a lua, marte, etc...". I think you can get the picture. Eu quero ver as mulheres tendo a possibilidade de desenvolver todo o seu potencial, e se, mesmo assim decidirem "brincar de D. Amélia", que o façam por escolha própria e não por terem sido "brainwashed". Aí, eu diria: seja feliz minha filha!
Contudo, pra você, eu diria: relaxa! Seus filhos têm modelos excelentes. No final das contas, o que vale mesmo são os nossos modelos. Aperte os cintos e curta a viagem que essa estrada é das boas!!

Keep up the good work!

Assinado: um homem meio feminista e com o limite de álcool no sangue ligeiramente elevado!!

Angela disse...

Eu tambem entrei para a lista dos que nao tiveram nenhuma pena da Amandinha, e concordo que a imaginacao das criancas contornam tudo. Mas que o conjuntinho vai causar muitas alegrias isso vai! Eu tambem tinha umas coisas que nao queria comprar para Max, mas logo cedinho comprei, pela mesma razao, a alegria do lindinho. O exemplo mor eh o tenis de Lightining McQueen que tem rodas e chassis no solado e muitas luzes (hoje em dia nem acho mais ruim...). Para a fofinha, a Aversao com A maiusculo eh a princesas. Mas ja sei como isso vai terminar... Concordo com o "Nakereba" :), que o importante eh que eles tenham diversidade, para poderem descobrir seus gostos e fazer suas escolhas. Mas isso sei tambem que voce sabe tanto quanto nos, mas trauma eh trauma, e nao tem logica... Quando cresci tive sorte de ter os joguinhos, carros, bonecas e casinhas. Fiz tuneis para chegar na China sim! E descia as ladeiras enormes da minha vizinhanca na minha bicicleta de terceira mao (sempre), sem freio. Desenfreada, literalmente. Aqui em casa temos dado continuacao a diversidade. Max tem centenas de carros e dinos e bichos mas adora o carrinho de supermercado, sua cozinha, as panelas e ate que gosta do carseat da sua boneca (mas nao para a pobre boneca em si :/). Julia vive atras dos hot wheels de Max, choking hazards, aiaiai... A minha cor favorita na Jujuba eh azul, e Max tem camisa rosa, mas nao fica bem na cor. Misturamos tudo, no final, vamos ver no que isso vai dar!!!
FELIZ DIA DAS CRIANCAS para voces todos ai!!! Beijao!!!!

Rita disse...

Claudia: ela adorou os novos talheres. A pá e o prato verde estão aposentados!

Si: posso ver a tua expressão de "horror"... hehehe Não se preocupe, ela está feliz da vida agora.. ;-)Saudades aqui também.

Nakereba: certamente a imaginação dos pequenos compensa as "ausências" de certos brinquedos. Nós é que não resistimos e vamos logo tratando de "fill in the gaps for them"... E certamente cavaremos passagens e visitaremos planetas em nossas naves imaginárias... Obrigada pela visita, por dividir suas impressões, pelo incentivo. Apenas um lembrete: voce esá em uma estrada: se beber, não dirija! ;-) Será um prazer tê-lo por aqui em nossas caminhadas.

Anginha: você acredita que eu nunca ganhei uma bicicleta? Meu irmão, sim... Tudo bem: você já viu que estou tirando o atraso, né?
Ah, o Arthur também adorou a loucinha da Amanda e hoje os dois tomaram muito chá juntos!

Bjs!!

Marina disse...

Amiga, vc fez o que devia.
Acho que a Amandinha deve ter a oportunidade de escolher entre brincar com panelinhas ou com jogos. Eu, por exemplo, recordo-me de ter feito os dois.
O importante é proporcionar a ela a opção.
Ah, e não é tão ruim assim brincar de casinha. Você mesma já demonstrou que está curtindo muito cozinhar, não é?

 
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