De sombras e sementes




O campo colorido de pequenos arranjos e vasos floridos estende-se até o alto do morro, onde se encontra com a mata verde escura. A grama macia acolhe, além das flores cuidadosamente arrumadas, uma ou outra árvore que, em dias de sol, protege aqueles que buscam o silêncio dos bancos de ferro recostados em seus troncos. Mas não hoje. Hoje uma neblina fina caía umedecendo a grama, disfarçando olhos úmidos e envolvendo amigos de corações tristes.

Subi o morro até chegar à pequena capela erguida às margens do gramado, onde uma despedida tristonha se desenhava, traçada com a melancolia inevitável que nos visita toda vez que alguém se vai. À presença de alguns amigos, lamentei muito reencontrá-los em um cenário onde perda era a palavra mais óbvia.

Após poucos minutos, saí da capela e olhei o céu cinza, o triste dia molhado e me permiti sentir o pavor que sente quem ama. Em meio à minha solidariedade calada, fechei os olhos e abracei com meus pensamentos a família e os amigos órfãos e retornei, descendo a estradinha que margeava o campo colorido do cemitério, com suas flores cheias de saudade. Fui embora pensando que a vida é estranha, que tudo se quebra e que há dias em que nada se explica. Há dias em que só nos resta a consciência de que seguimos, seguimos, plantando nossas próprias sementes. É só o que podemos fazer.

Já no pé do pequeno morro, no entanto, um vento suave, soprado já de muito longe, secou meus olhos e me lembrou que, às vezes, o contínuo se disfarça de finito. O que parece acabado continua em outras formas e não entender não significa necessariamente que algo esteja errado.

Os bons mestres costumam mesmo ensinar que aquele que pensa tudo saber ainda não entendeu muita coisa. Então ainda que me sinta incapaz de muitas explicações, quero plantar nossas sementes e regar as que nos deixaram. Porque aquele campo pareceu-me mesmo infinito e, no fim, tudo o que verdadeiramente importa são as sombras que podemos oferecer e os sorrisos que podemos fazer abrir com nossas flores.

1 comentários:

Sinara disse...

Concordo contigo... Não há nada mais próximo do recomeço do que a morte... É difício para nós, simples mortais, falíveis, entendermos e aceitarmos isso... Mas, seguimos nosso caminho, rumo ao crescimento/aprendizado, na esperança de aceitarmos melhor essas separações...

 
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