Continue vivo




Se para nascermos faz-se necessária combinação precisa de fatores tão aparentemente aleatórios, como descreve Bill Bryson em Uma Breve História de Quase Tudo (já falei desse livro aqui), então somos todos preciosidades insubstituíveis, ao mesmo tempo em que resultamos de golpes de sorte impressionantes. Bryson diz:

"Além da sorte de ater-se, desde tempos imemoriais, a uma linha evolucionária privilegiada, você foi extremamente - ou melhor, milagrosamente - afortunado em sua ancestralidade pessoal. Considere o fato de que (...) cada um dos seus ancestrais por parte de pai e mãe foi suficientemente atraente para encontrar um parceiro, suficientemente saudável para se reproduzir e suficientemente abençoado pelo destino e pelas circunstâncias para viver o tempo necessário para isso. Nenhum de seus ancestrais foi esmagado, devorado, morto de fome, encalhado, aprisionado, ferido ou desviado de qualquer outra maneira da missão de fornecer uma carga minúscula de material genético ao parceiro certo, no momento certo, a fim de perpetuar a única sequência possível de combinações hereditárias capaz de resultar - enfim, espantosamente e por um breve tempo - em você".

Lendo o texto de Bryson é inevitável me sentir o último biscoito do pacotinho. Eu nasci, caramba, olha só.

Mas as coisas, claro, não são simples e nascer pode ser um façanha, mas não é o bastante. Podem haver tantos sentidos para a vida quanto há pessoas; podemos mesmo multiplicar isso ad infinitum, já que não raro alteramos e alteramos o entendimento que temos acerca de nossa passagem ao longo da vida. E, claro, como em qualquer outro assunto, unanimidade aqui é um conceito quase absurdo, mas vou abstrair um pouco e brincar de "é preciso".

Não importa que sentido você veja em sua vida, é preciso ser generoso, por exemplo. Os meios podem ser os mais diversos, podemos ensinar, orientar, repassar, doar, convidar, amar. Mas é preciso dividir.

É preciso receber também. Podemos ler, ouvir, aceitar, prestar atenção, tentar entender. O contrário seria estagnação, uma espécie de não-vida. É preciso abrir as portas.

Aí um dia todos morremos e o preciosismo descrito por Bryson aparentemente se esvai em vazios e ausências. E se pudéssemos mais? Se pudéssemos prolongar a magia que resultou em mim e em você, em cada um de nós? Se pudéssemos perpetuar nossa generosidade para além de nossa caminhada por aqui e estender ao outro um pouco de todo o poder que nos constitui? Muitos o fazem, é claro, deixando legados que justificam cada batida do coração que se calou. Muito outros simplesmente permanecem porque foram amados.

Mas falo de mais, falo de continuar vivo, ainda que nada tenhamos criado que seja evidentemente grandioso; falo da doação de órgãos. Doar órgãos pode fazer valer de forma incontestável a grande sorte de sermos os premiados com o nascimento, não importa que passos tenhamos dado por aí. Nós podemos prolongar o milagre. 

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Informe-se sobre transplante de órgãos aqui ou aqui. O dia nacional da campanha pela doação de órgãos e tecidos já passou. Mas não importa. Pensemos nisso e sigamos em frente.

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