Além do fundo do baú




Ponto facultativo. Ah, eu estava precisando, viu? Não que estivesse cansada demais, não - nem faz tanto tempo assim que estivemos de férias. Mas um semiferiado em dia de comércio aberto e babá em casa pode fazer maravilhas.

Eu aproveitei como pude meu dia de vida mansa e fiz coisas que há séculos vinha adiando. Nada grandioso, mas quem disse que precisa ser grande para ser importante, certo? Arrumar o armário, por exemplo, não tem status de manchete de jornal, mas tem lá seu lugarzinho no mundo rotineiro onde vivemos boa parte do tempo. Então.

Hoje pude ver que me recuperei bem de um velho mal, aquele que nos leva, por razões que não compreendo muito bem, a guardar coisas inúteis, velharias que juramos que um dia servirão para alguma coisa, ainda que sejamos incapazes de explicar para o quê, exatamente. Mesmo que eu não me considere muito apegada a roupas velhas e sapatos de estimação, já experimentei diversas vezes aquela sensação de "e se eu precisar?" enquanto seguro à boca da sacola de lixo, ou de doação, aquela peça que não tem me servido de absolutamente nada nos últimos sete ou oito anos.

Mas sinto com alegria que estou me tornando cada vez mais uma abnegada. É bem verdade que nada é absoluto e hoje dei de cara com um relógio que parou há pelo menos dez anos... Mas também pude perceber evidentes sinais de desapego ao me ver descartando sem dó todas as peças de inverno que não usei este ano, ou nos últimos dois invernos, sem a menor sombra de dúvida de que nunca mais as usaria. Chama-se libertação.

Revirar o armário é um pouco como viajar no tempo (mesmo quando se encontra um relógio parado) e é também uma espécie de autorretrato. Diante de bordados abandonados, jóias nunca consertadas e fotos não enviadas, fica difícil negar que não sou a mais metódica das criaturas. Ao mesmo tempo, tênis e saltos revelam versatilidade, o que é bom. Milhões de malas são otimismo e família longe. Mofo, sinal de que a limpeza precisa ser mais constante (ou de que moramos em Florianópolis). Fotos 3x4 do marido, até no meio da maquiagem, é amor mesmo. Já uma calça vermelha em tecido esvoaçante é a prova incontestável de que às vezes sou mesmo uma pessoa completamente sem noção - sacola nela.

Mas ainda que eu tenha descido as escadas com três enormes sacolas de doações e outras tantas de material para reciclagem (não vamos falar a palavra lixo para não me ofender, tá?), preciso confessar que algumas inutilidades permanecem. Ah, eu não consigo, não ainda, me desfazer de velhas camisetas de banda - apoiem-me fãs do U2 e do Pixies, por favor. Talvez vocês me entendam se um dia eu contar a história por trás de cada uma dessas relíquias de pano, mas isso precisa de outro post.

Outras teimosias são mais fáceis e óbvias, no entanto. Um dia "ganhei" de minha mãe (peguei para mim, simplesmente) um velho crucifixo com pedras azuis que, segundo me disseram, são conhecidas como água marinha. Minha mãe guarda com ela uma fotografia de sua juventude em que aparece linda, com o tal crucifixo enfeitando seu colo. Hoje limpei a peça, que atualmente tem uma pedra a menos, e renovei meu compromisso de consertá-la e tirar uma foto semelhante à da minha mãe. Acho que ela gostaria do presente e pretendo fazê-lo antes de seu aniversário de 70 anos, no ano que vem. Não vou aqui falar dos simbolismos confusos do crucifixo, porque acho que está claro que esse, em particular, é simbólico de uma forma bem específica.



Tomara que o velho crucifixo quebrado não tenha o destino daquele bordado que já nem sei mais se vou terminar. Porque algumas velharias são o que de fato arrumam o armário de nossa alma. E é bom, sim, guardar para sempre.

9 comentários:

Marcia disse...

Adorei a imagem da moça com seus vestidos. Me lembra você, só faltou ter cabelos mais escuros, ou você virou loira de farmácia???
:-)

Márcia disse...

Como você sabe, eu já me mudei muitas vezes, só nos últimos 6 anos foram 3 diferentes regiões do Brasil. Depois de tantas mudanças, eu tive que me desapegar. Hoje tenho a seguinte teoria: se não usei no último ano, com quatro estações, não vou usar mais e tchau, adeus.
Vai para a sacola sem dó nem piedade.
Quando a gente resolve encostar uma roupa novinha esperando a ocasião certa para usá-la, pode ter certeza, a data nunca vai chegar.
Porque a roupa que nos faz bem usamos sem motivo, até mesmo para assistir tv no domingo, não é?
Acho que o melhor para a gente se sentir livre é não carregar muita bagagem e esse exercício periódico de se livrar das inutilidades lava a alma.
Como estou falante hoje...
Beijo

Trocando experiências Pedagogia disse...

Jogue fora tudo que te prende ao passado, ao mundinho de coisas tristes. Fotos, peças de roupa, papel de bala, ingressos de cinema, bilhetes de viagens e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados.
Adoro este poema de Drummond!Tenho um super defeito adoro jogar tudo fora fiquei um pouco sem usar já quero dar destino! Minha mãe briga horrores comigo porcausa disto e confesso as vezes me passo e a culpa é dela que guarda tudo, me traumatizou.
beijo grande kaka

Trocando experiências Pedagogia disse...

Estava precisando fazer uma faxina em mim, jogar alguns pensamentos fora, lavar alguns tesouros que andavam meio enferrujados...


Tirei do fundo das gavetas lembranças que não uso mais.

Joguei fora alguns sonhos, algumas ilusões...

Papéis de presente que nunca usei, sorrisos que nunca darei.

Joguei fora a raiva e o rancor das flores murchas que estavam dentro de um livro.
Olhei para meus sorrisos futuros, minhas alegrias pretendidas e os coloquei num cantinho, bem arrumadinhos... Fiquei sem paciência!

Tirei tudo de dentro do armário e fui jogando no chão: paixões escondidas, desejos reprimidos, palavras horríveis que nunca queria ter dito.

Mas, lá havia também outras coisas... e belas!

Um passarinho cantando na minha janela, aquela lua cor de prata, o pôr-do-sol...

Fui me encantando enquanto olhava para cada uma daquelas lembranças.

Sentei no chão para fazer minhas escolhas.

Joguei direto no saco de lixo os restos de um amor que me feriram e palavras de raiva e de dor que estavam na prateleira de cima.

Ah, fui também visitar aquele cantinho da gaveta que a gente guarda tudo o que é mais importante: o amor, a alegria, os sorrisos...

Ah! Como foi bom relembrar!

Recolhi com carinho o amor encontrado, dobrei direitinho os desejos, coloquei perfume na esperança, passei um paninho na prateleira das metas e as deixei bem à mostra, para não perder nenhuma de vista.

Coloquei nas prateleiras de baixo algumas lembranças da infância, na gaveta de cima, as da minha juventude e, pendurado bem à minha frente, a capacidade de amar e de recomeçar um lindo dia de paz e amor.

adoro este tb!

Angela disse...

Pete tem duas camisas brancas desde antes de termos nos conhecido. 1989 precisamente. Sei por que uma tem a data do evento nas costas. Elas sao quase transparentes e tem alguns furos. Ele nao consegue se desfazer delas. A roupa mais formal dele eu jogo de qualquer jeito na maquina, junto com a minha. As duas Camisas Brancas do Snoopy e do Pied Piper lavo no ciclo delicado, agua fria e sabao de roupa de bebe. Dobro com as pontinhas dos dedos. Ele as usa em casa, praticamente todos os dias quando vai para a praia ai no Brasil e em outras ocasioes, como no Champs d'Elysees. Foi em Paris que minha irma pediu uma camisa emprestada para dormir e ele em um ato extremamente carinhoso, deu a Melhor camisa que ele possuia: Pied Piper. Na manha seguinte, ela estava prestes a fazer o check out no hotel. Devolvemos tudo uma da outra, faltou a camisa. Ela estava no lixo. Expliquei para Si que iriamos ter que pega-la de volta. Pesquei com a pontinha dos dedos e a trouxemos de volta para a seguranca de nossa casa. Ciclo delicado, sabao mais delicado ainda, agua fria e pronto: Ja rendeu quase outra decada desde entao!!!

Claudia Serey Guerrero disse...

Quando morava no Brasil, nao conseguia jogar fora roupas, :(, tinha um vestidinho que eu adorava usar, obviamente nao entro mais nele! deve ser de uns 15 anos atras... mas sempre pensava, quem sabe um dia. Minha mãe (acho que como varias mes) sempre querendo que eu me desfaça desse mundo de coisas e eu naquele apego... bem, como obviamente nao ia viajar Brasil - França - Japão - França com minha mala de roupas inuteis :) deixei tudo na minha casa no Brasil... agora qdo estive la em agosto, minha mae mais uma vez disse, vamos separar algumas coisas para dar, tem coisa demais la!! eu disse: nao quero nem ver, doe logo por favor! se eu for separar vai acontecer o de sempre, vou separar 1 ou 2 peças e o resto volta ao armario :).. Enfim, espero que minha mãe tenha feito o que deveria ter sido feito ha muito tempo :). Bem, mas meus vinis do Balao Magico, da coleção Disquinho e do Queen, assim como as blusas das Damas assinadas por todos!!! nao pretendo me desfazer ainda :) em breve virao para a França. Beijos, Claudia

Sinara disse...

Depois de 08 anos morando em apartamentos alugados em Florianópolis, com aquelas 'belas mobílias' de 30 anos atrás, guarda-roupas minúsculos, sem espaço para quase nada, alimentei o desejo material de ter um guarda-roupa enorme... Realizei o desejo... Entretanto, acho que, devido à falta de espaço com a qual me habituei, não costumo guardar coisas por muito tempo... Não me considero apegada MESMO a coisas materiais, a não ser que, como seu crucifixo, tenham um valor sentimental impagável...
Meu guarda-roupa 'gigante' funciona assim: 1. tudo tem seu devido lugar e as peças são mantidas organizadas (na medida do possível, pelo menos); 2. tento separar por cores e categorias para facilitar encontrar o que quero (pareço a Monica de 'Friends' falando, ui!); 3. quando compro algo novo, uma camiseta, por exemplo, tento me livrar de uma peça semelhante que já está surrada ou que não uso há algum tempo... Acho esse sistema simples e me ajuda a manter o desapego (bons hábitos aprendidos no Yoga)...
Também fiz 'faxina nostálgica' e me desfiz de fotos, objetos, móveis (menos meu sofá de Floripa - esse é um da categoria 'valor sentimental impagável') e mais uma porção de tralhas que guardavam recordações perfeitamente 'esquecíveis'.
Hoje, moradia nova, quase tudo novo, sigo em frente e procuro recordar apenas o que vale a pena... :-)
Faço 'faxina nostálgica' até no computador! :-) Mas, devo confessar que o que dá mais trabalho de desfazer são os materiais de trabalho - xerox, cópias de provas, exercícios de alunos... Como eh difícil... E, quando consigo, logo vem a sensação de que vou precisar amanhã... :-)

Rita disse...

:-p

Marcinha, é isso mesmo: roupa que ficamos de usar na próxima vez, já era. Nunquinha. Passa pra frente.

Kaka, obrigada pelos poemas! Delícia, adorei!

Anginha, fala pro Pete colocar as camisas na bagagem de nossa próxima viagem de férias em bando. Prometo não pedir emprestada nem jogar no lixo, mas pre-ci-so fotografar essas relíquias.

Claudinha, sei de cor a sequência das músicas do Plunct Plact Zum, lado A e lado B. Eu dançava muuuuuito ao som do Eduardo Dusek (“um sorvete mais um sorvete, na verdade é igual a um sundae”...) e do Jô Soares (“doce, doce, viver no Planeta Doce...”). Mas eu não gostava da Aretha cantando “ele tomava sopa de jiló...” E agora estou toda encucada porque não faço ideia por onde anda o meu vinil... vou investigar e darei notícias em breve. Mas guarda bem o teu; se eu não achar o meu, é ele que a gente vai usar um dia numa festa das antigas em algum lugar do planeta.

Sinara, guardo ainda hoje nossa intensa correspondência dos tempos de Londres, quando ignorávamos os e-mails que já bombavam mundo afora... qualquer dia leremos juntas, acompanhadas de um bom vinho e ao som de Morrissey, okay? Daremos boas gargalhadas, that's for sure...

Bjs!

Marina disse...

Como eu queria ser desapegada assim amiga. Bem que eu tento me desfazer das coisas que não uso há algum tempo, mas nós mulheres (principalmente) sempre temos a esperança de que aquela peça volte a servir ou aqueles acessórios virem moda novamente.
Vou tentar me inspirar na sua atitude.

 
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