Tá na mesa


Quando meu filho mais velho largou as mamadeiras e iniciou suas aventuras gastronômicas mais elaboradas foi uma festa. Delícia ver feijões e carninhas, legumes e massinhas devorados com igual prazer. Não nego que algumas manobras eram necessárias: a salada com tomates permanecia estrategicamente escondida na geladeira até que metade do prato principal tivesse seguido seu destino, sob pena de todos os tomates serem devorados no primeiro minuto da refeição. Ele não tinha dois anos ainda, mas eu não precisava esconder os biscoitos. Escondia os tomates. Os elogios na agenda da escola abundam desde essa época e seguem ainda hoje: "adorou agrião!", "comeu todas as folhas da sopa", "pediu mais brócolis!". E a gente sempre comenta: a gente sabe, em casa é assim também.

Inflada de orgulho com meu pequeno comilão adepto do melhor estilo dieta-saúde, dividia satisfeita seus feitos com outras mamães. A resposta quase unânime vinha instantânea: "espera só até ele completar dois anos! Tudo muda aos dois anos!" Mas não mudou, não com ele. Sim, de tempos em tempos enfrentamos alguns percalços à mesa, mas geralmente motivados por comportamento rebelde típico dos adolescentes (sabe como são esses adolescentes de três/quatro anos), ou por períodos em que a rotina é radicalmente quebrada, como quando viajamos de férias, do que propriamente por preferências birrentas. Felizmente, o humor sempre volta e é uma questão de (pouco) tempo para que nosso Peter Pan volte a devorar suas refeições com apetite renovado. Guardo para futuras comprovações uma foto que registra o momento em que um talinho de rúcula foi saboreado como se fosse um sorvete de creme. E eu sempre penso "que dois anos, o quê. Esse é bom de garfo!".
 



Aí veio Cachinhos Dourados. Oh, well. Como definir Cachinhos à época do leite materno: glutona? gulosa? exagerada? As mamadas de 300 ml me enchiam de espanto e as dobrinhas irresistíveis foram devidamente apertadas, beliscadas, admiradas e até exaltadas. Findas as mamadas, vieram os pratos ainda maiores que os do irmão. E repetidos. Pronto, um problema a menos, meus filhos comem bem. Aí Cachinhos Dourados se aproximou dos dois anos. E agora entendo do que falavam aquelas mães. Tudo mudou.

Cata a cenoura, não gosta de peixe, manga não pode, leite nem pensar, não quero comer, quero suco, quero gute (iogurte), sai pra lá carninha, mastiga-mastiga-cospe... suspiros...

A guerra está declarada e suponho que ela não faz idéia do que a espera. Porque estamos dispostos a enfrentar a batalha com mãos de ferro e uns pares de tampões de ouvido porque a choradeira não é pouca. Mas a regra é: come o que tem. Na hora certa. Não quer? Come na hora da próxima refeição, o mesmo prato.
 

Quero isso de volta.

Não pretendo me entregar à culpa que ronda cada fracasso, porque não é fácil. Existe algum mecanismo esquisito nos corações dos pais que só funciona bem quando o filho come e às vezes não é assim tão simples dar de ombros diante de um prato de boa comida rejeitado. Mas estamos acumulando algumas vitórias. Nos momentos mais difíceis, resgatamos as lembranças da primeira amigdalite do irmão que o castigou por 6 dias com um forçado jejum quase absoluto. Não houve anemia ou qualquer sequela. Ela, logo, ficará bem se perder três ou quatro refeições seguidas. Mas não amenizaremos sua fome com iogurtes ou biscoitos.

Eu, mamãe de sorte, conto com o apoio e o comando do papai que tem sido mais firme que eu. Porque eu até já admiti a possibilidade de ela simplesmente não gostar de peixe, por que não? Mas para o papai não existe isso de criança de dois anos não gostar de peixe. Então, tá. Aprovado.

Desejem-nos sorte, a batalha parece longa. Escondam os biscoitos.

_ _  _ _ _ _ _
 
Atualização1:  
Quem disse certa vez que os filhos vêm ao mundo para contrariar e contradizer os pais deve ter lá suas razões. Este post foi escrito no último domingo e dormiu o sono dos "amanhã eu publico" até hoje, segunda-feira. Pois bem, o almoço desta segunda-feira foi marcado pela comilança desenfreada da minha menina que, não contente em devorar seu prato, comeu metade do meu, sentada em meu colo e catando todo o feijão que eu tentava, mas não conseguia, levar à minha boca. Eu não poderia deixar de fazer este registro, fazendo justiça à minha pequenina-hoje-come-amanhã-não-come.
 
Aguardemos os próximos capítulos.
 
Atualização2:
Aos amigos queridos que nos contactaram para saber se estávamos bem (em função dos temporais que insistem em lavar e enxaguar Santa Catarina), muito obrigada pelo carinho. Estamos bem, seguros e enxutos.
 

3 comentários:

IsabelaRosa disse...

Uma delícia o texto, Rita, como sempre!!!
Beijão!
Isabela

PS: Já tô no orkut e agora no twitter...o facebook deve esperar...

Anônimo disse...

Rita, estou vivendo situação semelhante a sua. Não tenho nem o que escrever, é isso aí mesmo com Raquel, cata enora (cenoura), ejão,... cospe. Inclusive peixe também nao quer. Engraçado que eu também tinha (digo tinha até ler seu post, pois vou refletir sobre o que Ulisses falou) já concluído que ela não gosta de peixe.
Adotei estratégia também semelhante a sua, e suas palavras vieram me encorajar. Em frente com a batalha!
Detalhe, ela adora tomates, pelo menos até ontem era assim.
Beijos,
Ju

Ana disse...

Rita Parabens!! Clap, clap, clap!!
Fiquei super feliz ao ler seu post pois eu divido a mesmissima opniao sua: tem q comer de tudo, na hora certa, se nao quer comer o prato estara ali para quando a fome bater, nada de comer danone/bolacha/porcaria pq nao quer a comida q a mae fez.
E seu marido eh super em te apoiar! Concordo com ele, crianca pequena tem q experimentar de tudo, como eh q eles sabem q nao gostam de algo sem provar pelo menos umas duas vezes, nao eh mesmo?
Que bom q nao sou so eu, eh tao legal achar maes q sao maes de verdade!
Aqui nos EUA eh uma desgraca pois os pais fazem refeicoes separadas p/ as criancas e geralmente o q constituem as comidas q esses coitadinhos comem eh de dar vontade de chorar (nuggets, salsicha, etc...).
Eu sou super dedicada, amo minha familia e meu filho eh tudo de mais importante na minha vida e eu me esforco o maximo p/ dar e ensinar a ele uma alimentacao saudavel.
Gracas a Deus nao posso reclamar pois nunca tive problemas com o Matheus ele sempre comeu e adorou tudo (brocoli and all!) e espero q se tivermos outro bebe q esse puxe o irmaozinho no quesito comida!
Beijao!
Ana

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }