"Ouve, Paula"




Desde o dia em que iniciei este blog sabia que dedicaria um post ao livro Paula, da escritora chilena Isabel Allende. Não o fiz até agora por não saber como. Mas hoje desisti de procurar a forma ideal de compartilhar com vocês experiência tão valiosa e resolvi escrever somente com o coração porque acho que vem bem a calhar.
Ler Paula foi uma viagem marcante por vários motivos. Foi profundamente emocionante e arrebatadora pela força da história propriamente dita; gratificante e inspiradora pela escrita precisa de Allende; e absolutamente perturbadora por ser impossível não imaginar como enfrentaríamos algo com a dimensão do que nos é narrado no livro.
Paula é uma daquelas leituras que nos conquistam sem muito esforço já nas primeiras palavras.  Não é preciso virar a primeira página para saber que estamos diante de algo no mínimo muito interessante. Depois de duas ou três linhas, eu simplesmente estendi minha mão, segurei a de Allende e me deixei conduzir por sua narrativa apaixonante que me rendeu momentos de profunda emoção e reflexão sobre nossa presença no mundo.
Paula foi escrito em forma de carta de Allende para sua filha em coma. Isabel nos diz, no início do livro, que escrevia para que sua Paula, ao acordar, não se sentisse perdida. O que se vê é um relato feito por uma mãe angustiada, mas lúcida, que faz da escrita a única saída possível para manter-se em contato com sua menina, uma espécie de monólogo da esperança.  
A biografia contida em Paula percorre da infância ao presente de Allende (o livro foi lançado em 1994), com a narrativa oscilando entre o desenvolvimento da doença de Paula e a releitura que Isabel faz de seu próprio passado, de sua carreira como escritora (incluindo a concepção de seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos) e da história de sua família. Allende também nos conduz por um trecho da história do Chile pré e pós-golpe militar e pode-se até dizer que seu ponto de vista é suspeito por causa de suas ligações familiares (Isabel é sobrinha do ex-presidente Salvador Allende, assassinado durante o golpe militar de Pinochet), mas isso nem de longe compromete o valor de sua narrativa. Paula, afinal, não é um livro de história, mas um registro feito com palavras de amor (e, além do mais, todo livro "de história" também tem lá o seu ponto de vista, mas isso é outro papo).
Paula não é sobre dor, perda e sofrimento. Embora essas sensações permeiem a história em vários momentos, o livro é na verdade uma linda homenagem ao poder da linguagem, à escrita como forma de vida.




A edição que tenho foi presente de uma amiga muito querida (oi, Lúcia) e eu queria que este post fosse um presentinho para quem passar por aqui, um presente em forma de sugestão de leitura. Durante os dias em que li Paula, permaneci com o coração apertado e é verdade que foram muitos os lenços de papel. Mas também senti uma alegria calma, aquela serenidade que experimentamos quando descobrimos algo precioso. Paula é um livro vitorioso, um feito admirável de alguém que transformou a pior de suas experiências em uma linda homenagem à vida.
Espero que vocês também se deixem levar nessa viagem. É inesquecível.

1 comentários:

Anônimo disse...

Anotada a dica! Assim que terminar o livro que estou lendo (Paulo e Estevão, obra psicografada por Francisco Cândido Xavier) posso ler Paula (só agora que fui escrever percebi o Paulo e Paula dos títulos).
"Paulo e Estevão" está maravilhoso, porém como o blog não é meu não posso me estender. Brincadeirinha Rita, é tempo mesmo, estou com pressa.
Beijos,
Ju

 
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