A dois


Em uma madrugada insone, você pode: ler um livro, ver um filme, discutir a relação, assaltar a geladeira ou, deus nos livre, curtir uma dor de cabeça. E pode também fazer um empadão de frango, olha que idéia boa.

É quase imperdoável que eu nunca tenha tentado fazer um dos pratos favoritos do meu digníssimo marido, que pessoa cruel eu sou. Mas os boatos em torno do tal ponto da massa podre bastavam para me desanimar. E, além disso, temperar carnes ainda tem para mim aura de mistério sobrenatural, algo para iniciados - não é pro meu bico. Maaas eis que Odisseus cansou de esperar e resolveu ele mesmo enfrentar o fogão. O mínimo que eu podia fazer era ficar acordada também, arregaçar as mangas e pegar junto.

O plano era começar a muvuca tão logo as pálpebras dos pequenos permitissem. Mas aí ainda tinha lixo para jogar fora, cachorro para alimentar, blog para atualizar, essas coisas. Assim, as dez badaladas já tinham soado quando, finalmente, rumamos para a cozinha. Selecionamos algumas das muitas receitas disponíveis na rede, acrescentamos algumas dicas sugeridas por amigos e jogamos os dados.

O que mais gostei foi de ver meu respectivo pôr em prática seus dotes de bruxo, mandando para o caldeirão suas ervas e temperos que renderam um recheio delicioso - ele, modesto, nega: ficou bom, mas normal. Mas quem manda aqui sou eu: ficou óóóótimo. Gostei também da hora do abraço: a massa podre (que bem poderira ter outro nome, vamos combinar) se abre para receber o recheio e então o cobre, como se quisesse protegê-lo do frio da geladeira, do calor do forno, de nossos olhos gulosos e pidões, de garfos ladrões. E como não pretendíamos dormir estufados de carne de frango ou tampouco experimentar nosso primeiro empadão sem a companhia de nossos pequenos, guardamos resignados a iguaria na geladeira, saciamos a fome com fatias de bolo de leite condensado quentinho (esse aqui)  e fomos dormir, à uma da manhã.

No dia seguinte, trabalhei impaciente, sonhando com o jantar em família, bem barulhento, com a pequena escalando a mesa, o pequeno clamando por atenção, todos falando ao mesmo tempo, o Roque latindo lá fora e, claro, a chuva caindo no telhado (já falei quem em Floripa chove para sempre?). 

Errei quase todas as previsões porque o pequeno já tinha jantado na escola ("comi tudinho, sem nenhuma baguncinha" - muito bem), a pequena não quis nada com a cozinha, o Roque ficou quieto e a chuva deu uma trégua (impressionante!). Mas acertei no resto:  Nham! Chomp, chomp, chomp! Huuuummmmm.... Quero mais!

Recomendo, obviamente. Não só o empadão, mas o ritual inteiro. Cozinhar a dois é tudo de bom e, enquanto a massa descansa, vocês sempre podem fazer um bolo, um pudim ou discutir a relação (bolo, bolo! façam bolo!).


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Acredito haver tantas receitas de empadão de frango quantos empadões já tiverem sido feitos mundo afora. Segue a nossa. Vamos chamá-la de Empadão Corujão. Divirtam-se.

Ingredientes

Para a massa podre

400 gramas de farinha de trigo
1 ovo inteiro + 1 gema
200 gramas de manteiga gelada

1 colher (sopa) de creme de leite
2 colheres (sopa) de leite
1/2 colher (chá) de sal

Para o recheio

1 kg de filé de peito de frango (usamos um pouco menos)
alho e sal para temperar o frango
1/2 cebola picada (ou ralada)

1 1/2 tablete de caldo de galinha
1 tomate, sem pele e sem sementes, picado
2 dentes de alho picados
2 colheres de extrato de tomate
1 pitada de páprica

1 pitada de sálvia
tempero verde a gosto
2 colheres de requeijão
2 colheres de sopa de maizena (dissolvida em um dedinho de leite)


 



Quatro mãos à obra

Primeiro cônjuge:

Coloque a farinha de trigo em um recipiente grande e raso de plástico e acrescente o sal e a manteiga cortada em pequenos cubos. Misture bem com as mãos até que toda a manteiga esteja completamente incorporada à farinha, formando uma massa uniforme. Não sove, dizem os entendidos. À parte, misture levemente o ovo inteiro, a gema, o leite e o creme de leite e despeje a mistura sobre a massa. Misture tudo, ainda com as mãos. Trabalhe a massa até que ela solte de suas mãos sem dificuldade. Eu acrescentei um pouco mais de farinha nessa hora porque a minha ainda estava bem grudenta. Cubra com um pano de prato e deixe descansar na geladeira por cerca de 30 minutos. (Faça um bolo agora, se quiser. Não se esqueça de elogiar o recheio que seu parceiro ou parceira está preparando.)

Enquanto isso, segundo cônjuge:

Tempere o frango com alho, sal, páprica e sálvia. Coloque-o em uma panela com água suficiente para cobri-lo, acrescente um tablete de caldo de galinha e cozinhe em fogo baixo por cerca de 15 minutos (contados a partir da fervura). Após cozido, retire uma xícara da água do cozimento e reserve.


Desfie o frango (peça ajuda ao outro cônjuge).

Prepare o molho para o recheio: doure o alho no azeite; acrescente a cebola e refogue; acrescente o tomate, o peito de frango desfiado, o extrato de tomate, a água do cozimento do frango, o requeijão, 1/2 tablete de caldo de galinha, sal a gosto e, finalmente, tempero verde. No final do cozimento (após cerca de dez minutos), acrescente a maizena para conferir uma textura mais cremosa ao molho. Deixe esfriar antes de rechear. Eu sei, eu sei, onde estão as azeitonas? Não gosto delas, sorry... E meu amor esqueceu de comprá-las (ufa!).



Primeiro cônjuge, você novamente:

Abra dois terços da massa sobre uma superfície enfarinhada até que ela atinja tamanho suficiente para forrar o fundo e a lateral da forma (eu usei um rolo de massas, obviamente, jamais abriria a massa com uma garrafa de vinho... a-han...). Forre a forma e distribua o recheio sobre a massa.  





Abra o restante da massa e cubra o empadão, unindo as bordas. Pincele com um gema de ovo e leve ao forno (180C) por cerca de 35 minutos ou até que o empadão esteja dourado. Chamem o restante da família e bom apetite.




Ressalva: optamos por uma forma de aro removível, mas considerem a possibilidade de vazamentos. Em nosso caso, um pinga-pinga dentro do forno (não sabemos se algo da massa ou do recheio) gerou uma indesejável fumaça. Usaremos forma refratária na próxima vez. E, além do mais, a de aro não fica muito bem na foto.

3 comentários:

Rachel disse...

Putz que delicia!!!!!!! A ideia de cozinhar a dois e a receita de empadão, que eu amo de paixão!
Vida longa para este casamento.
beijos famintos

IsabelaRosa disse...

Adorei a idéia, vou tentar tb... bjs!

Angela disse...

Ai Rita nao se preocupe, se tivermos insonia aqui iremos rumo a cozinha, mas discutir a relacao, jamais! Se fizermos isso, ela acaba!!! Ahahah! Beijao.

 
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