Boneca de pano é gente


A Emília de Dirce (Foto aqui)

Durante alguns anos de minha infância, voltei correndo da escola para casa todas as tardes. Descia apressada as escadarias da velha Escola Paroquial, cruzava a pracinha indiferente ao tentador pega-pega, e corria em disparada pela comprida Rua Manoel Rodrigues. Com o cabelo cada vez mais arrepiado e a mochila surrando impiedosamente minhas costas magricelas, passava pela barraquinha que vendia doces e maçãs pensando “depois”, atravessava em segundos o largo da igreja – ainda bem que era o da igreja, certamente havia anjos por ali para me proteger dos carros que eu nem via – e finalmente chegava em casa, esbaforida e feliz. Era hora de assistir ao Sítio do Pica-Pau Amarelo. 
Pronto, o ciclo do meu dia se fechava ali. Diante da ainda gorda televisão, eu me transportava para aquele universo maravilhoso e me envolvia nas aventuras que moldavam os rumos da minha imaginação de menina. Sim, porque eu não sei se vocês sabem, mas a Emília era eu. Não se tratava de simplesmente gostar dela, de ser fã da boneca mais convencida do planeta. Isso era muito pouco. Quando eu assistia aos episódios da primeira versão do Sítio, eu era ela. Assim, toda vez que o tchu-ru-tchu-tchu de Gilberto Gil anunciava o fim do episódio, eu continuava a aventura da vez, andando empinada pela casa, chamando com voz esganiçada minha mãe de Dona Benta, meu irmão de Pedrinho, minha boneca de Narizinho, e de Viscooooooooooonde cada um dos meus amigos imaginários. O “espetáculo” teatral caseiro não raro se estendia até a hora de dormir, mas eu ainda levava para a cama as “lembranças” do dia e, às vezes, adormecia planejando a grande aventura do dia seguinte.
E aí quando minha mãe nos presenteou com a Obra Completa Infantil de Monteiro Lobato, fiquei um pouco decepcionada com as gravuras que exibiam uma Emília pequena, do tamanho de uma... boneca, com uma boca que parecia humana, normal. Porque a Emília que eu era tinha tamanho de gente e a boca sempre em bico, como a Emília da televisão. E eu lembro que quando o elenco do Sítio sofreu algumas mudanças e a Emília passou a ser representada por uma outra atriz, precisei de um tempinho para me acostumar com a novidade. Mas continuei, em minhas brincadeiras pela casa, imitando aquela primeira que, para mim, era a “original”.

Eu, imitando a Dirce.


Aquela primeira Emília que, de fato, eu nunca esqueci, era representada pela atriz Dirce Migliaccio. Dirce morreu ontem, aos 76 anos de idade, no Rio de Janeiro. Estava doente há algum tempo e seu irmão disse à imprensa que “ela descansou”. Ah, Dirce, mas a gente bem sabe que a boneca que você foi não descansa nunca – já dizia minha mãe lá na minha infância, quando eu era você naquela simbiose maluca que eu criei na minha cabeça. Seu lado boneca ainda vai saltitar por muito tempo na lembrança de quem teve a sorte de ter você esperando na sala todos os dias depois da escola. Muito obrigada, colega. Minha infância foi muito mais feliz por causa de você.

2 comentários:

larissa disse...

Mainha ficou super emocionada com esse post, ela diz que lembra desse dia, você com essa roupa.

Rita disse...

Oi, Larissa.

Acredito mesmo que sua mãe lembre dessa época. Outro dia estive pensando que nossas mães são grandes amigas há tanto tempo, que eu e você somos praticamente primas!

Abração!

 
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