Questão de etiqueta


As bandejas de brócolis continham verduras até bem viçosas, sem qualquer sinal de deterioração ou estrago. Mas aquela pequena etiqueta fez meu sangue subir mesmo assim. O logro poderia ter passado despercebido se eu estivesse com um pouco mais de pressa ou se não tivesse o hábito de verificar a validade dos perecíveis com lupa de mãe. E, se tivesse passado, é bom que se diga, não seria por falta ou negligência de minha parte, já que parto aqui do pressuposto de que os proprietários de vendas, bodegas e supermercados têm o dever moral (e certamente legal) de garantir a oferta de produtos conservados de maneira adequada e de observar rigorosamente os prazos de validade previstos por produtores e fornecedores.

Pois bem, vamos às etiquetas. Havia duas: uma com a logomarca do fornecedor, informações nutricionais e calóricas (acho) e o aviso, em bom português, “válido por oito dias”, e outra, do próprio supermercado, bem pequena, idêntica às antigas etiquetas de preço, com a data a partir da qual os tais oito dias começam a correr. Acontece que hoje é dia 14 de agosto. Mas a etiqueta marcava 15/08/09. Ou seja... é mesmo um supermercado à frente do nosso tempo, é ou não é? Não, não é. É um supermercado que quer nos fazer de bobos.

Nós já tínhamos desconfiado dessas etiquetinhas porque mais de uma vez vimos queijo, bem acondicionado em nossa geladeira, virar o Incrível Hulk muito antes de esgotado o suposto prazo de validade. Várias vezes nos perguntamos se o mercado teria a desfaçatez de trocar as etiquetas para diminuir o prejuízo com os produtos encalhados. No fundo meio que já sabíamos que funciona assim. Ah, mas o flagrante traz o ultraje à tona e carimba nossa testa: LUDIBRIADO.

Mostrei o engodo ao repositor da seção; ele chamou uma colega que, sorridente e nada surpresa, disse “é, não era para estar aqui, né?”... Dirigi-me àquela que acreditei ser a chefe da seção e reportei o ocorrido mais uma vez. Choque? Surpresa? Surpresa fingida para convencer o cliente de que foi uma fatalidade? Nã. Que nada. Limitou-se a um “vou mandar tirar” e seguiu rebolando pelo corredor. Como meu estômago também estava rebolando de fome (era intervalo do almoço), fui para casa com meu carimbo na testa.

Registro aqui que o fato de eu não ter procurado o gerente e não ter ligado para a vigilância sanitária dão à senhora da seção dos vegetais com validade ad eternum a tranqüilidade para rebolar. Mas ainda posso fazê-lo, certo? Como fiz à época dos queijos verdes. Pois bem, essa será minha tarefa para a semana que vem. Fiquem de olho, prefiram produtos com a data de validade impressa pelo fornecedor. Assim, só o fornecedor nos ludibria. Oh, vida.

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