14 de agosto de 2009

Questão de etiqueta


As bandejas de brócolis continham verduras até bem viçosas, sem qualquer sinal de deterioração ou estrago. Mas aquela pequena etiqueta fez meu sangue subir mesmo assim. O logro poderia ter passado despercebido se eu estivesse com um pouco mais de pressa ou se não tivesse o hábito de verificar a validade dos perecíveis com lupa de mãe. E, se tivesse passado, é bom que se diga, não seria por falta ou negligência de minha parte, já que parto aqui do pressuposto de que os proprietários de vendas, bodegas e supermercados têm o dever moral (e certamente legal) de garantir a oferta de produtos conservados de maneira adequada e de observar rigorosamente os prazos de validade previstos por produtores e fornecedores.

Pois bem, vamos às etiquetas. Havia duas: uma com a logomarca do fornecedor, informações nutricionais e calóricas (acho) e o aviso, em bom português, “válido por oito dias”, e outra, do próprio supermercado, bem pequena, idêntica às antigas etiquetas de preço, com a data a partir da qual os tais oito dias começam a correr. Acontece que hoje é dia 14 de agosto. Mas a etiqueta marcava 15/08/09. Ou seja... é mesmo um supermercado à frente do nosso tempo, é ou não é? Não, não é. É um supermercado que quer nos fazer de bobos.

Nós já tínhamos desconfiado dessas etiquetinhas porque mais de uma vez vimos queijo, bem acondicionado em nossa geladeira, virar o Incrível Hulk muito antes de esgotado o suposto prazo de validade. Várias vezes nos perguntamos se o mercado teria a desfaçatez de trocar as etiquetas para diminuir o prejuízo com os produtos encalhados. No fundo meio que já sabíamos que funciona assim. Ah, mas o flagrante traz o ultraje à tona e carimba nossa testa: LUDIBRIADO.

Mostrei o engodo ao repositor da seção; ele chamou uma colega que, sorridente e nada surpresa, disse “é, não era para estar aqui, né?”... Dirigi-me àquela que acreditei ser a chefe da seção e reportei o ocorrido mais uma vez. Choque? Surpresa? Surpresa fingida para convencer o cliente de que foi uma fatalidade? Nã. Que nada. Limitou-se a um “vou mandar tirar” e seguiu rebolando pelo corredor. Como meu estômago também estava rebolando de fome (era intervalo do almoço), fui para casa com meu carimbo na testa.

Registro aqui que o fato de eu não ter procurado o gerente e não ter ligado para a vigilância sanitária dão à senhora da seção dos vegetais com validade ad eternum a tranqüilidade para rebolar. Mas ainda posso fazê-lo, certo? Como fiz à época dos queijos verdes. Pois bem, essa será minha tarefa para a semana que vem. Fiquem de olho, prefiram produtos com a data de validade impressa pelo fornecedor. Assim, só o fornecedor nos ludibria. Oh, vida.

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