A estante



Hoje, finalmente, arrumei o escritório.

Ficou bom, gostei. Gostei da parede colorida, dos poucos acessórios que já providenciamos, da velha cortina, acho que caiu bem, e também dos novos móveis. Gostei ainda da iluminação que, mesmo não estando totalmente pronta, já transformou o ambiente em um cantinho bem aconchegante. Mas, principalmente, gostei das prateleiras destinadas aos livros.

É impossível olhar os volumes enfileirados, cada um acenando com seus apelos, e não lembrar do antigo escritório da casa da minha mãe, aquele que acolheu muitas e muitas horas, manhãs e tardes inteiras, da minha infância. Sempre vou lembrar da grande estante horrorosa de madeira escura, onde, além dos seus muitos livros de Direito, ela tentava em vão organizar seus pesados volumes de enciclopédias – compostas por volumes colecionados um a um, e depois encadernados com vaidosas capas duras. Era o mesmo móvel horrendo que também abrigava delícias como a obra de Monteiro Lobato, divisor de águas dos meus gostos de infância.

O escritório da minha mãe não era um lugarzinho reservado ou silencioso. Ficava bem no centro da casa, entre salas movimentadas e uma cozinha barulhenta, mas nem por isso deixava de ter seu status de refúgio. Porque eu o fazia ser assim: lá eu fechava os ouvidos ao resto do mundo e me aventurava naqueles labirintos irresistíveis, descobrindo aos poucos a alegria de virar páginas e soltar de vez as rédeas da imaginação.

Sempre serei grata a minha mãe por aquele canto da casa, quase sempre fora de ordem, porque acredito que o contato visual diário com seus imensos livros teve papel definitivo no gosto pela leitura, um prazer que carregarei comigo para o resto da vida. Era impossível resistir às muitas chamadas e, cedo ou tarde, eu acabava abrindo cada uma daquelas capas.

Então nossos livros assim estão. Expostos, mostrando-se despudoradamente, e eu não vejo a hora de espiar por trás da porta e ver alguns dos momentos em que eles seduzirão para sempre meus dois filhos. Que venha a poeira.

3 comentários:

Angela disse...

O escritorio do meu pai ficava bem isolado, mas acho que a convivencia com o proprio, lendo o tempo inteiro, na sala bem no meio da casa, me fez achar que ler fazia parte, que nem comer e respirar. Ha uns cinco ou mais anos atras, o tempo se esvaiu e descobri que esse nao era o caso. Infelizmente.

larissa disse...

Ampliei a foto pra ver esse cantinho da estante e conferir quais eram os livros, adoro A filha da fortuna, mas só li esse mesmo da Isabel Allende, depois vou me aventurar mais na obra dela.

Andreia disse...

Esses cantos mágicos... Quantas viagens, descobertas, surpresas. Amo bibliotecas, estantes, visual e cheiro de livros e como voce aguardo ansiosa e esperançosa para ver nos olhos do Enzo aquele rápido e fulgurante momento de deslumbramento que nos captura para sempre. Amém

 
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