Cachorros e conflitos


Eu acredito no poder da terapia. Acredito que falar nos ajuda a rearranjar nossos pensamentos e sentimentos e reavaliar nossas condutas, trabalhar nossas culpas. Então hoje vou fazer de conta que este blog é um divã e vou enfrentar um conflito que tem me acompanhado nos últimos meses.

Fato: eu gosto de cachorro. Sempre quis ter um na minha infância, mas como quem dava as cartas lá em casa era a minha mãe, nunca tive a chance. Depois seguiram-se anos vivendo em apartamentos que não comportariam o grande cachorro que eu queria ter. Sim, porque ele seria grande.

Aí o Piteco entrou na minha vida. Era o cachorro do meu marido quando nos casamos e eu passei a conviver, em um apartamento, com o Basset Hound mais encantador e fedorento de todos os tempos. A convivência com o Piteco foi curta, mas suficiente para me introduzir às ambivalências de quem divide a casa e a vida com os caninos. Digo “de quem divide”, mas sei que não me refiro a todos os humanos que têm cachorros como animais de estimação, porque sei que há – e eu mesma conheço várias pessoas assim – aqueles que não enfrentam ambivalência alguma, convivendo com seus cães como se eles fossem humanos em forma canina. Mas eu não sou assim, não sou, não sou. Eu adoro cachorros, mas, para mim, eles são o que são, cachorros. Não dormem na minha cama, não comem na mesa comigo. Nunca é demais enfatizar: respeito até a morte meus amigos que dividem o travesseiro com seus amiguinhos.

Tapem o nariz: Piteco.

Bem, o fato é que bastava um olhar do Piteco, em meio a suas enooormes orelhas esparramadas pelo chão, para eu me sentir completamente feliz por tê-lo em nossas vidas. Mas também bastava um roçar do Piteco em minhas pernas três dias depois do seu banho para eu me perguntar como cargas d’água eu conseguia dividir o mesmo teto com aquele fedor ambulante. Conflito, conflito. A leishmaniose cortou nossos corações e levou o Piteco embora, deixando-me como uma boa carga de culpa por ser tão desalmada, mas logo nasceu meu primeiro filho (vejam só, no mesmo dia) e a avalanche de leite empedrado, noites insones e o maior amor do mundo não me deixaram muito espaço para o luto que o Piteco certamente merecia. Às vezes penso sobre isso e acho curioso como ele foi embora tão resignado como se agora fosse a vez do meu filho e ele, bem, não queria incomodar. Sei que sua ausência foi inevitavelmente mais marcante para o meu marido, que o viu nascer e cuidava do Piteco como fazem os verdadeiros donos, com amor incondicional em meio aos odores e muita teimosia.

Dois anos depois mudamos para uma casa. Chegara a vez do tão sonhado cachorro grande. No quintal, sim. Eu não me incomodaria com os cheiros. Ele seria inteligente, aprenderia rápido. Eu o levaria para passear e daria vazão a todas as fantasias da infância. Eu seria como o Cebolinha, o Franjinha, o Salsicha: todo mundo tem cachorro. Meus filhos cresceriam com um cachorro. Perfeito. Aí ganhamos – veja bem, gente, ganhamos – o Roque. Um presentão em forma de American Staffordshire, com boca de jacaré e olhar de Piteco. Lindo, lindo e, com um pouco de boa vontade, até bem cheiroso. Nem latia. Um amor.

Nos finais de tarde, tapem os ouvidos: Roque.

Mas as coisas não têm saído exatamente como eu sonhei, não, não, não. Roque agora é um garoto crescido que late bem e tem cheiro, sim. Claro, é um cachorro, certo? Então, até aqui, tudo bem. Reclamo, mas suporto os latidos, fecho a janela e o cheiro se foi. Mas os abraços rolando no chão, que nunca dou? E os passeios pelo bairro, que nunca faço (até porque eu fatalmente seria arrastada rua abaixo ao seu bel prazer)? E os muitos carinhos que ele precisa, mas, mergulhada em minha rotina, deixo sempre para amanhã? Ah, não, não tá certo. Eu sei que preciso ser menos egoísta e dedicar mais algum tempo dos meus dias ao Roque, afinal o acolhi em nossa casa e me afeiçoei a ele como nosso cão, o cachorro das crianças, a cereja do bolo. Então estou aqui me cobrando, publicamente, um pouco mais de atenção ao meu cachorro, porque ele precisa e porque vê-lo tão solitário está me deixando muito incomodada. E porque eu gosto do nosso jacaré. Já perdoei as almofadas, sandálias, os tapetes, a quina do móvel da churrasqueira, a grama que nunca consegue crescer.


Então, finda esta sessão, prometo solenemente tentar ser mais companheira do meu cachorro. Pronto.
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Conforme observou a Claudinha no post anterior, estamos com problemas na visualização dos comentários. Estou vasculhando a rede e estudando HTML para tentar tapar mais esse buraco nesta estrada e espero solucionar o perrengue em breve. Enquanto isso, vocês comentam e eu brinco de adivinhar o final de cada linha. :-) Vamos em frente, mesmo que aos trancos e barrancos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi, Querida,
Como havia comentado, eu e o Lú também passamos por essa preocupação com o Stimpy, que é da mesma raça do Roque. Quanto a tratar cães como humanos, também penso como vc, pois os meus dois cães fofos e amados moram fora de casa, são independentes - rsss. Em casa só a nossa filha, a Dollynha - hehehe
Bjss

Rita disse...

HAHAHAHA!! Morri de rir com seu comentário, Rê. Bjs na família toda!

 
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