A arte de falar sobre nada

As guloseimas do dia

Isso vai soar meio irônico, porque vou fazer aquilo que pretendo criticar, mas, ah, as fraquezas humanas, não resisto.

Hoje precisei pedir ajuda a um otorrinolaringologista, coisa que deveria ter feito na semana passada, ao invés de tentar tapear minha faringite com remedinhos meia-boca e pastilhas gostosinhas. Se o tivesse feito, talvez não tivesse tido o dia de molho que tive hoje, movido a atestado e uma dor de cabeça que me nocauteou. Como conseguir uma consulta de última hora é o mesmo que ligar a TV e não ouvir nada sobre o Michael Jackson, ou seja, quase impossível, tive de apelar para uma consulta emergencial com um médico plantonista. Isso significou mais de uma hora e quarenta minutos de espera que o latejar das minhas têmporas fez parecer uma semana e quatro dias.

Não bastasse o desconforto de esperar longamente para ser atendida, tentando não tossir para não sentir as marteladas no centro do cérebro, não havia na sala de espera do consultório uma única revista, de modo que olhar o que se passava na TV era inevitável. Pois bem, durante todo o tempo que esperei, quase duas horas, incrivelmente, vejam só, nenhuma palavra foi dita sobre o astro pop recém-falecido. O papo era outro. No canal especializado em coberturas esportivas, dois comentaristas e uma apresentadora travavam uma longa e minuciosa discussão sobre um único lance confuso que teria acontecido em uma das partidas do Campeonato Brasileiro de Futebol, no último domingo.

Como eu estava mergulhada numa espécie de torpor causado pelas badaladas da minha cabeça, cheguei a cogitar que o problema era comigo e que eu não estava entendendo muito bem a conversa. Mas a imagem infinitamente repetida do jogador despencando dentro da área não deixava dúvida. O assunto era aquele mesmo, e era único. Durante sei lá quanto tempo (fui finalmente atendida, e o papo continuou), aquelas três criaturas conseguiram prender (será?) a atenção da audiência país afora falando de um único pênalti duvidoso, com avaliações mega-detalhadas sobre o ângulo de visão do árbitro, a suposta malandragem do jogador despencado, a inexperiência do zagueiro, o oportunismo desse, a indignação daquele, as razões dos xingamentos da torcida, a camiseta puxada, a chuteira levantada, o árbitro confuso... O que mais me chamava a atenção era a empolgação da apresentadora (muito eficiente em sua função, diga-se de passagem) que parecia intermediar a mais eletrizante e relevante discussão do século.

Essa é uma questão que sempre chama minha atenção em algumas coberturas da imprensa, pelo menos aqui no Brasil, mas certamente não só por aqui: já repararam (aposto que sim) como o mesmo assuntinho às vezes ganha status de coisa importantíssima na imprensa, como se daquela discussão exaustiva dependesse o andamento da nossa rotina¿? E quem é você se não tiver uma opinião sobre aquele pênalti, ou, pecado!, se não souber que o chuveiro de Neverland ainda funciona?!! Hein, hein,criaturas desinformadas! Tsc, tsc.

Eu certamente teria pedido à moça da recepção para trocar o canal, se, naqueles momentos, cada passo não representasse um pouquinho de tortura para mim, mas foi bom não tê-lo feito. Olha eu aqui, fazendo experimentos na mesma arte daquela apresentadora. O tal pênalti rendeu até um post neste blog. Eheheh.

Ah, e importantíssimo: eu também achei que não foi pênalti coisa nenhuma! Pura malandragem, certamente.
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Em tempo: valeu a espera; após toneladas de azitromicina e paracetamol, ainda não estou nova, mas já não ouço mais os sinos na cabeça.

2 comentários:

Anônimo disse...

Lamentável, mas é verdade, os pênaltis e os chuveiros de Neverland parecem mais importantes do que as crianças que morrem de fome, por exemplo. Enfim, acho que nasci no planeta errado.
Beijos, querida.

Anônimo disse...

Pois num eh que eh mesmo, Rê? com tanta desgraça no mundo, tanta tristeza... peraí, "tristeeeeza, por favor vá embooooooraaaaaa, minha alma que choooooooooooraaaaa...".
Ritinha, fazia tempo que eu não via uma descrição tão exata e tão engraçada da perda de tempo que eh discutir futebol, hehehehe.
Bjos, adoro esse blog!!!

Ulisses.

 
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