Next, please



Moi aussi j'ai une fée chez moi
Qui voudrait voler, mais ne le peut pas.


A era da Fada do Dente aqui em casa chegou ao fim. Bem no dia em que comentei no Facebook como Amanda andava entusiasmada com a visita que viria na noite do dia em que perdeu seu quarto dente de leite. Os filhos estão aí pra isso, né, a gente fala, eles fazem diferente. Pois bem, ontem à noite não pude mais.

Nas outras vezes em que a pergunta desconfiada me rondou, saí pela tangente. Para cada "eu acho que é você" ou "a Fada do Dente existe mesmo?", eu sacava um "o que você acha? dizem que as fadas existem para as crianças, ora". O mais direto "foi você quem colocou a moeda?", eu rebatia com "vocês têm cada ideia!". Qualquer coisa que escapasse à categoria "mentira deslavada" e ainda pudesse receber o selo-de-garantia-dos-mitos-da-primeira-infância. Com nove anos, o Arthur só não recebeu a revelação fatal para que a irmã, que só começou a perder os dentes este ano, pudesse usufruir um pouco da brincadeira que ela esperou pacientemente ao longo dos seus quatro e cinco anos. Uma vez sabedor da grande verdade, ele certamente quebraria o encanto dela pelo prazer da revelação desse segredo avassalador. 

Mas ontem não deu. Ela perguntou de tal maneira que o selo de mito se esfarelou, e insistir na magia seria uma mentira que mancharia nosso pacto de não enganar - pacto que eles quebrarão muitas vezes, certamente, mas que pretendo manter intacto do lado de cá. Tenho pra mim que ela jamais se esquecerá do momento. Eu vou me lembrar para sempre do olhar maravilhado e, principalmente, grato. E do abraço. 

- Mãe, eu vou te perguntar uma coisa, mas eu queria muito que você me dissesse a verdade de verdade.
- Ok. 
- É você que pega meu dente e bota a moeda? É você a fada do dente?
- O que você acha?
- Ah, mãe, eu acho que sim, mas eu queria que você me dissesse. Por favor, mãe, não mente. Me diz, por favor?
- [Silêncio...]
- É?
- Dizem que quando as crianças imaginam...
- Mãããããee, eu imagino! Mas elas moram nos campos, e eu já fui em vários campos, elas nunca aparecem! Eu acho que é só de mentira! E eu imagino um monte!
- [~coraçõezinhos quebradinhos~] Ah, meu amor, mas é um jeito de existir, né, na sua imaginação...
- Mãe, me diz, por favoooor.
- Sim.
- ???
- :-)
- É você?
- Sim. 
- Ah, mãe, obrigada! - E aqui eu ganhei um abraço forte, longo, de rostinho enfiado no meu peito, daqueles que a gente se afasta um pouco e logo se abraça outra vez, num mar de sorrisos de alegria, como num presente de aniversário.

E foi assim que minha fada cacheada soube das minhas visitas no meio da noite, do travesseiro revirado com cuidado, dos dentes lavados na pia do banheiro e guardados, das moedas com barulhinhos de susto de quase acordá-la. E o irmão recebeu a notícia com cara de "eu já sabia". E hoje os dentes dele e dela foram revelados, todos nos respectivos potinhos à espera desta data, a data da revelação. 

Combinamos que a brincadeira continua - sou agora uma Clark Kent com a identidade revelada, hohoho. Vou seguir com as visitas noturnas e as moedas a cada dente despencado. Aguardemos a próxima noite de Natal, quando será a vez de o Papai Noel, coitado, ganhar o carimbo no passaporte. Tudo passa.

Vai ter chuva de meteoros


Desde que a minha mãe morreu, em 2010, vira e mexe chegam aquelas notícias que trazem junto a vontade de ligar pra ela. Geralmente essa vontade me veste com um mantinho de melancolia. Em outras vezes, rabisca um sorriso em meus lábios enquanto a imagem fugaz de um papo imaginário com ela dança na minha cabeça.

Na primeira vez que vi Sociedade dos Poetas Mortos em casa (já havia visto no cinema), permaneci sentada no sofá, abraçada às minhas pernas encolhidas, soluçando de tanto chorar enquanto os créditos subiam pela tela. Minha mãe veio me acudir, perguntando se tudo aquilo era por causa do filme ou se havia um motivo maior que justificasse tanto drama. Não havia, e no dia seguinte ela viu o filme comigo, chorei tudo outra vez; no final de semana seguinte a cena se repetiu, e essa virou uma espécie de piada nossa. O tanto que eu chorava com aquele filme, toda vez, ela nem aguentava mais. Os anos se passaram e a cada novo filme com Robin Williams ela comentava, aff, esse homem é a tua cara, só me lembro do chororô. 

Hoje eu ligaria pra ela. E ela diria algo assim:

- Nossa, só imagino como tu num tá triste!

Talvez eu dissesse:

- Ah, eu senti, né. Nem gostava de todo filme dele, mas, pô, que dureza.

O papo seguiria, a gente lembraria dos filmes, ela diria seu favorito, eu falaria qualquer coisa, ela voltaria a falar do Captain, my Captain comigo aos prantos no sofá tubular da sala.

Há um conto do Joyce chamado The Dead. Nele, a lembrança de alguém querido que já morreu tem tal poder sobre a protagonista que no final da história a gente se pergunta a quem o título se refere, afinal. Porque o ente que já se foi segue tocando e mudando a vida da pessoa que ficou aqui. Em certa parte do conto o cenário é lindo, a neve branquinha cobrindo o mundo. Não há neve aqui, mas li que haverá chuva de meteoros logo mais. E os mortos continuam por aqui.

Captain, my Captain. Olha, mãe, quem foi embora hoje. 

O limoeiro


(...) em 1949, uma ONU enfraquecida, reconhecendo a realidade, criou a UNRWA, a United Nations Relief and Works Agency, para gerar empregos e moradias às centenas de milhares de refugiados palestinos (...) rústicas construções de blocos de cimento foram levantadas nas areias de Gaza, entre as barracas e as fossas de latrinas. (...) As "ruas" dos campos de refugiados - vielas estreitas e sujas separando longas fileiras de casas de bloco de cimento - recebiam os nomes das ruas das antigas cidades dos refugiados, como Yaffa, Acca, Haifa, Majdal, Lydda e al-Ramla. Os refugiados mais pobres de Gaza sobreviviam com a dieta de 1.600 calorias diárias oferecidas pela UNRWA, incluindo uma ração mensal de dez quilos de farinha; um quilo de açúcar, arroz e lentilhas e leite para as crianças e mulheres grávidas. Sem carnes ou legumes, a dieta continha apenas os nutrientes e calorias necessários para manter a inanição afastada. (...) Para os refugiados - os destituídos do campo, ou os que estavam em melhor situação, (...) o trauma principal não era causado pela venda do ouro ou pela incerteza de terem alimento suficiente. O trauma era, sim, decorrente da saudade que sentiam de casa e, consequentemente, da desonra de terem perdido suas propriedades. Em todos os níveis econômicos, a interrupção da rotina na vida familiar causva marcas profundas nas crianças."

***

Na página de agradecimentos de The Lemon Tree, seu autor, o jornalista Sandy Tolan, afirma que para escrever o livro revirou arquivos de meia dúzia de cidades ao longo de sete anos, fez centenas de entrevistas e contou com a colaboração de testemunhas, acadêmicos, jornalistas e editores nos Estados Unidos, Bulgária, Cisjordânia, Jordânia, Líbano. Na introdução do livro, Tolan afirma que não fez "nenhum tipo de interferência na história", construindo sua narrativa a partir das entrevistas com familiares dos protagonistas, recortes de jornais búlgaros, relatos traduzidos do árabe, relatórios militares de Israel, além de várias outras fontes em bibliotecas e arquivos históricos. Li uma edição traduzida para o português por Rosana Teles, publicada pela Ed. Landscape, e gostei. Aqui o livro foi publicado como Uma Esperança de Paz. Li sem esperar encontrar uma fonte "neutra", porque, a rigor, nem acredito que isso exista; esperava ao menos um relato não inflamado, razoavelmente equilibrado, sobre o longo conflito entre árabes e judeus na Palestina ocupada, e fiquei satisfeita. Talvez não acrescente muita informação a quem vem lendo sobre o tema há tempos; ainda que esse seja o caso, contudo, The Lemon Tree oferece uma história tocante que se escreveu junto com a história da fundação de Israel e das consequências que o evento trouxe para o povo palestino. Ler essa história neste momento, quando Gaza computa mais de 1800 mortos em um mês, me deixou com vontade de espalhar exemplares do livro por aí.

É possível que este post contenha spoilers. É possível que os spoilers em nada interfiram na experiência de ler o livro, dado o contexto histórico. Tentarei evitá-los, mas posso me equivocar em meu julgamento sobre o que vale ou não manter em silêncio para a descoberta de cada leitor. Fica o aviso.

The Lemon Tree é a história de Dalia, judia de origem búlgara, que ainda bebê migrou com a família para a Palestina, em 1948. Era o ano da formação de Israel após o plano de partição da ONU que dividia a Palestina entre árabes e judeus. A família de Dalia era uma entre muitas das milhares que migraram para a região após a Segunda Guerra, entre sobreviventes dos horrores do Holocausto e famílias desoladas com a situação da Europa. Muitos búlgaros deixaram para trás um país devastado pela guerra e seguiam celebrando a criação de um Estado judeu na chamada Terra Santa.


É também a história de Bashir, árabe nascido na Palestina em 1942, morador da cidade de Ramla, hoje oficialmente pertencente a Israel. Quando Bashir nasceu, a Palestina ainda  se encontrava sob o domínio britânico que vigorava desde o final da Primeira Guerra. Há tempos o crescimento da imigração de judeus era centro de acirradas discussões e conflitos, além de conversas internacionais sobre a criação de um lar nacional para os judeus em terras palestinas, o que alarmava os árabes que há séculos eram maioria na região. Quando em 1948 os árabes rejeitaram a proposta da ONU e Israel se declarou independente, a população árabe viu cerca de 55% de seu território passar ao domínio judeu, incluindo aí a maior parte das terras férteis da região. A primeira guerra árabe-israelense começou. Israel avançou sobre territórios além das fronteiras estabelecidas pela ONU, e a família de Bashir teve de deixar a casa que seu pai, Ahmad, havia construído em 1936. Estima-se que mais de 700 mil palestinos deixaram seus lares, expulsos pelo novo estado israelense que rapidamente se esparramou por cerca de 78% da Palestina. Por outro lado, milhares de judeus hostilizados em diversos países migraram para Israel, aumentando a população judaica na região para a casa dos milhões.

O livro de Tolan contém detalhes sobre os dois quadros antes de 1948: o dos judeus búlgaros durante e após a Segunda Guerra, e dos árabes de Ramla durante o domínio britânico. Com a guerra de 1948 - que judeus chamam de Guerra da Independência, e árabes palestinos chamam de Catástrofe - conhecemos a história da fuga da família de Bashir e da chegada da família de Dalia à cidade de Ramla. Dalia aprenderia depois que a família daquela casa fugira covardemente, sem qualquer desejo de manter seu lar, quando Israel anunciou a independência. Somente depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Bashir conseguiu driblar fronteiras vigiadas pelo exército israelense e visitar sua antiga casa, Dalia começou a enxergar o outro lado da história. 

The Lemon Tree contém informações documentadas sobre o quadro político que levou à Guerra dos Seis Dias em 1967, o surgimento da OLP, da FPLP, Fatah e Hamas, o inacreditável massacre de Sabra e Chatila por milícias libanesas e forças israelenses na década de 80, as repetidas negociações falidas, o contínuo avanço de Israel com assentamentos judeus em áreas ocupadas, a quase utópica esperança dos palestinos em retornar a suas casas e retomar as fronteiras pré-1967 (Israel se expandiu ainda mais em 1967, praticamente controlando militarmente o que sobrara de território dos palestinos), os levantes e intifadas, os homens-bomba, os terríveis atentados vitimando civis israelenses; o papel de Clinton, Bush, Rabin, Sharon, Arafat nas negociações (este último passando do posto de líder adorado a traidor da causa palestina), que pareciam (e ainda parecem) nunca realmente colocar na mesa as requisições do povo refugiado.

Emaranhadas na narrativa histórica, estão as vidas de Dalia e Bashir. O encontro em 1967 se repetirá em vários momentos. Como judia que migrou ainda bebê para Israel, Dalia muitas vezes experimentará o medo de ver seu país atacado, sentirá revolta diante dos ataques terroristas. Bashir se envolverá com movimentos de resistência, será acusado, preso e torturado mais de uma vez, cumprirá pena. Dalia se esforçará para entender as decisões de Bashir que jamais abandonará sua convicção de que a criação de Israel tal como seu deu não pode ser aceita pelo povo palestino. Bashir conhecerá novos exílios, Dalia se espantará com o grau de violência a que podem chegar as ações militares de seu país e se sensibilizará, graças ao seu olhar à família de Bashir, com o sofrimento dos palestinos refugiados.

Num dos momentos mais tocantes da história de Bashir, entendemos a origem de seu hábito de manter a mão esquerda sempre no bolso da calça - certamente um dos momentos-chave na visão que Dalia viria a ter da ocupação israelense em territórios palestinos. Mas não foi aí que chorei. Na verdade, não chorei por um momento específico do livro - e bem poderia ter sido, talvez no episódio da mão, talvez na tristeza do pai de Bashir ao receber os limões frutos do pé que ele plantara no quintal de sua casa. Talvez pelo judeus massacrados no holocausto. Ou pela garota judia, colega de Dalia, que rejeitou outras garotas judias na escola israelense por serem judias africanas e negras. Ou pelos brinquedos explosivos espalhados pelos soldados israelenses como iscas para mutilar crianças palestinas logo após a criação de Israel. Ou pelo horror do massacre de Sabra e Chatila. Ou pelos estudantes do ônibus israelense que explodiu pelos ares. Mas quando chorei, foi por ter lido, fora do livro, sobre Gaza agora, em 2014, e imaginar com mais clareza os rostos assustados das famílias refugiadas, filhos de refugiados, num ciclo horroroso que parece caminhar para uma palestina cada vez mais encolhida.

Quando os pais de Dalia morreram, ela herdou a casa que fora da família de Bashir. Ela o procurou para decidirem juntos o que fazer com ela, num gesto enorme que mostrou o quanto ela havia aceitado ouvir da narrativa do Outro. Optaram por fundar um centro de estudos para crianças palestinas. A Open House está ativa até hoje e no site da casa é possível ler um pouco dessa história. Também existem informações sobre Dalia e Bashir pela internet. Ainda não fucei o suficiente para saber por onde andam, mas certamente o farei.

The Lemon Tree começa com Bashir tocando a campainha de sua antiga casa, residência de Dalia, em 1967. Depois de dar voltas no tempo, termina com um segundo limoeiro, em 2005. Eu gostaria de escrever que esse segundo limoeiro simbolizava a esperança e tal, algo perto do título dado ao livro em português. Mas, né, os últimos anos estão aí, 2014 está aí. Infelizmente, ainda não dá.

As mãos do fim de semana


Tenho precisado controlar um pouco a ansiedade diante das listas de coisas que eu gostaria de fazer durante os finais de semana - eu, você, todo mundo, né? Dois dias não são suficientes para ler tudo, escrever tudo, ligar para todo mundo, visitar ou convidar, levar as crianças ao parque, ao cinema, ficar de pernas pro ar, dormir tudo que quero, experimentar aquelas cinco receitas que paquero há meses, ver aquele filme e os episódios daqueles seriados que todo mundo já viu, menos eu. Sem falar em tentar me inteirar da dúzia de assuntos imperdíveis que bombam nas minhas TLs a toda hora, acompanhar de perto aquele perfil de links relevantes, pitacar, debater, jogar conversa fora, compartilhar o último vídeo de gatinhos fofos. Como sempre foi, vou levando na toada que dá, hoje um pouco disso, amanhã um pouco daquilo, largando o livro porque as crianças querem um parceiro pro joguinho.

Uma consequência desse abandono constante de planos incríveis é valorizar o que dá pra fazer; e no domingo à noite olhar para o último par de dias e ver que, mais do que pelo sol firme no céu ou pelas unhas que finalmente consegui pintar, o final de semana valeu muito por aquele vinho tomado com o marido enquanto ele fazia a melhor lasanha do mundo, pelo beijo na mão que ganhei do filho na fila do mercado e pela gelatina de laranja que fiz com a filha. E sentir, assim, sem qualquer pressa ou angústia, que, afinal de contas, o final de semana foi repleto de coisas que eu gostaria de fazer e que fiz, cercada do conforto bom que vem das mãos que posso segurar.

***


Minha geladeira estava cheia de laranjas descascadas por causa da overdose de biscoitos com cascas de laranja caramelizadas que assolou a minha vida nas últimas semanas. Procurei no blog da Patricia uma receita com laranjas e escolhi a gelatina de laranja e limão. Amanda mal conseguiu esperar o final de semana chegar para fazer. Como a receita é simples, deixei que ela comandasse o passo-a-passo, com exceção da hora em que é preciso levar a mistura ao fogo. Ela se empolgou, sentiu-se o último biscoito do pote e quando dei por mim ela já estava me dando ordens.

- Vira um pouco mais o pote.
[virei]
- Isso, assim tá bom.

Foi nosso jeitinho de espichar o final de semana. No almoço da segunda, a sobremesa terá sabor de pôr de sol de domingo.

***


Um livro de sol e sombras


"Later, the boy offered Ugwu a tiny bit of his stringy share. Ugwu thanked him and shook his head and realized that he would never be able to capture that child on paper, never be able to describe well enough the fear that dulled the eyes of mothers in the refugee camp when bomber planes charged out of the sky. He would never be able to depict the very bleakness of bombing hungry people. But he tried, and the more he wrote the less he dreamed."

***

Estima-se que um milhão de pessoas morreram durante os quase três anos de guerra civil na Nigéria no final dos anos sessenta, quando parte do país lutou pela separação e criação da República do Biafra. Um milhão, entre mortos nos conflitos armados e os muitos mortos pela fome que assolou o então recém-criado país. A Nigéria venceu a guerra, se é que se pode usar a palavra "vencer" num contexto desses, e a República do Biafra foi dissolvida. Os personagens de Half of a Yellow Sun (Anchor Books) transitam pela Nigéria, nos meses que antecederam a secessão, e por Biafra nos três anos do conflito armado. É um livro sobre a guerra, mas também sobre as relações interpessoais das irmãs Olanna e Kainene, e sobre a maneira como a guerra definiu o rumo delas e de seus amores e amigos, num pequeno retrato do quão definitivo o conflito foi para a vida de milhares e milhares de nigerianos e biafras. Achei admirável como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie construiu seu romance evidenciando a trajetória que vai do pessoal ao coletivo à medida que a guerra se instala e domina o país. Os conflitos diários, o tecido de tramas que depois parecerão vividas em outro mundo - casar agora?, assumir aquele emprego?, visitar o tio?, buscar a reaproximação com a irmã? - tudo dá lugar à busca pela sobrevivência, aos cuidados com os famintos e doentes, à esperança de que a guerra enfim se acabe. 

Ler Half of a Yellow Sun é um pouco como olhar a guerra de dentro e ver onde ela toma sua forma mais concreta e cruel. Não mais o discurso meio esvaziado do noticiário genérico -tantas e tantas crianças mortas, um centro de refugiados, conflito armado, grupo rebelde, os separatistas. No lugar dessas expressões quase opacas, temos Olanna, Kainene, o garoto Ugwu e sua irmã, Anulika, a garota do bar, a moça do piano, os planos de Ugwu, a construção da identidade de Richard, a cozinha cada vez mais vazia de Olanna, a Nigéria, Biafra, a fila por comida, os alarmes, o abandono da casa, as malas feitas às pressas, os sequestros dos amigos, os livros queimados, o desaparecimento do colega de trabalho, o jantar que não virá, o corpo que muda com a fome, o medo. Matar pela fome, pelo isolamento. Comemorar a vitória em forma de massacre. Esconder comida, separar os cadáveres, juntar-se aos refugiados na estrada. Chimamanda consegue desenhar um retrato tão nítido da experiência crua de quem recebe a guerra em seu quintal que por vezes é preciso parar de ler e respirar. Voltamos em seguida, ainda que apreensivos e um pouco mais tristes, atraídos que somos por personagens que parecem nos contar uma biografia, não um romance. 

Não espere maniqueísmos fáceis, vilões e mocinhos, um lado óbvio pelo qual "torcer". A guerra transforma as pessoas, e na fome não somos muito mais do que isso, famintos. Lendo Half of Yellow Sun, é bom se desapegar das previsões à mão, pois elas escorrerão de seus dedos à medida que o alimento desaparece e a esfera pessoal se dissolve em meio à miséria de um povo inteiro. E aí está um dos pontos mais fortes do livro, personagens humanizados a ponto de nos causar profundo incômodo, mas igualmente capazes de nos encantar pelo amor e pela força quando mais se precisa deles. Uma história, eu diria, imperdível, um desfecho que me deixou em silêncio, com o coração dentro das páginas. Um livro que vou colocar nas mãos de meus filhos um dia, uma escritora a mais para eu admirar e sair por aí farejando sua obra. Chimamanda é uma linda. O mundo, um lugar louquíssimo.

***

Mais da Chimamanda aqui, sobre feminismo.  

Das bocas


Chegou a era do sorriso metálico dele. Que seja breve, sem muitas aftas, com desconforto mínimo e boas escovações; que doa pouco nos dentes e no bolso (olha o otimismo aí).

Chegou também a era da banguelice escancarada dela, quando de repente a menininha vira uma meninona, com toda uma nova gama de perguntas inesperadas, socorro.

Assim estão as bocas por aqui. Quem é de comer bem continua comendo bem, mesmo com o aparelho incomodando nesta fase de adaptação. Quem é ~seletiva~ justifica o prato abandonado por causa do dente mole, do dente que ainda não nasceu, do dente que já caiu, vão vendo. No mais, conversê, birras e gargalhadas continuam em animados decibéis.

Tratando a melancolia na cozinha


O domingo manteve os mesmos tons do sábado lá fora, mas hoje eu quis minha cozinha. Acordei com preguiça, devagar, ainda na ressaca do livro de cujas páginas me despedi ontem à noite e que me deixou com uma tristezinha prolongada. Depois do café da manhã tardio, passei o que sobrou da manhã ajudando as crianças a encontrar concentração para as tarefas da escola. Depois que elas abandonaram os livros e se jogaram nos colchões espalhados pela sala (minha sala poderia ser fotografada para uma revista de decoração, só que não, só que de jeito nenhum), mergulhei na cozinha de onde praticamente só saí quando já era noite. Amanda se juntou a mim na maior parte do tempo e inventou receitinhas dela. Juntas, fizemos biscoitos deliciosos que decoramos com casca de laranja caramelada - meudeusdocéu que coisa tão gostosa - e trocamos muitas ideias sobre os tamanhos das formas e a importância de se melecar tudo com açúcar. A certa altura o Ulisses chegou na área e adaptou uma receita do Jaime Oliver (aquele que não gosta de brigadeiro - que bom, sobra mais pra mim!) e fez um almoço delicioso. Enquanto almoçávamos, os biscoitos assavam, alguns queimavam e eu xingava. De barriga cheia, voltei pra massa, fiz barrinhas de centeio e um bolo para o café que ainda vou tomar nessa noite gelada. Encarei com valentia o monstro da pia e agora minha cozinha está limpa e meus potes têm gostosuras. 

É verdade que a ressaca do livro ainda está aqui, talvez eu escreva um pouco sobre ele em breve. Nem toda a comilança do mundo conseguiu afastar o destino de alguns personagens da minha cabeça. Acho que nem vou ler nada por uns dias,  não quero me despedir dele assim, como se nem estivesse mais pensando na história. Vou deixar que a experiência que foi essa leitura se prolongue um pouco mais - como o docinho da casca da laranja que fica em nossa boca depois que o biscoito se desmancha. Hum, vocês precisam provar. Peguei tudo no blog da Patrícia, corram lá: hoje fiz a barrinha de centeio, o biscoito com casca de laranja e o bolo de laranja. São receitas ótimas. Não curam nossas melancolias literárias, mas deixam um cheiro delicioso na cozinha. E sabe quando a gente lê um livro e fica com vontade de convidar a autora pra tomar um café? Pois bem, eu serviria esses biscoitinhos. :-)


Biscoitinhos com casca de laranja em calda.

Barrinhas de centeio, nham!


 
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