31 de janeiro de 2012

Words & scenes



Sempre piso em ovos ao comparar livros com as respectivas adaptações para o cinema. Na medida em que são linguagens e formatos bem diferentes, acho que a comparação sempre corre sérios riscos de perder o sentido. Dizer que o livro é melhor que o filme pode dar a impressão de que eu esperaria ver no filme cada detalhe explorado ao longo de uma história bem escrita, o que, obviamente, é praticamente impossível dentro do tempo de um longa. Quando um roteirista seleciona os elementos de um romance para a montagem de um roteiro cinematográfico, faz o recorte necessário para viabilizar a adaptação, naturalmente. O sucesso da montagem depende não só da coerência nessa seleção, mas também de vários fatores relacionados à produção do filme que pouco ou nada tem a ver com o diálogo livro-roteiro. E não raro a adição de elementos que nem fazem parte do texto escrito originalmente geram no cinema um efeito muito eficiente. É claro que a gente compara, tudo bem. Eu comparo, tu comparas, todos comparamos. Se um livro que amo ganha adaptação para o cinema, corro pra ver. Mas tenho em mente que se digo "prefiro o livro", quero dizer que a história tal me agradou mais em seu formato literário e menos no formato que ganhou no cinema nas mãos desse ou daquele diretor. Não quero dizer que o filme falhou em sua adaptação, mas simplesmente que o filme em si não me agradou, como vários outros filmes de roteiro original também não me agradam. O contrário, claro, também pode acontecer. Posso curtir muito um filme sem que tenha sequer me empolgado com a obra na qual foi inspirado. É o caso de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres. 

Ontem fui ao cinema ver a adaptação do primeiro volume da Trilogia Millenium, do falecido escritor sueco Stieg Larsson, dirigida por David Fincher (que fez Seven, então tem meu respeito eterno). E, olha, não pisquei. Tudo bem, fechei os olhos numas cenas mais violentas porque não dou conta. No mais, achei o thriller bem saboroso. Todos os elementos que me deixaram com sono ao ler o livro (eu sei, eu sei) sumiram. Nas mãos de um elenco bem afiadinho (uau, Lisbeth-Rooney Mara-Salander!) e de um diretor que sabe das coisas, pude curtir o que, na minha  opinião, a história tem de melhor, sem ficar rezando para que outra repetição enfadonha terminasse. Curti inclusive a sequência final. Lembro-me que, lendo o livro, passada a resolução do mistério central da história, eu praticamente não tinha mais paciência. No filme, no entanto, nem me dei conta que já estava sentada ali há quase três horas. 

Uma das coisas que mais curti no filme foi ver o cenário da ilha onde se passa parte da história. Eles arrancaram as imagens de dentro das páginas do livro. Nota um milhão para a ambientação. Foi como reler as descrições na parte inicial do livro. Show de bola. Num cinema perto de você. 

***

Se as imagens do filme de David Fincher me empolgaram mais que o livro de Larsson, o mesmo não posso dizer do post sobre a Escócia (adorei escrever, um jeitinho bom de reviver um pouco daqueles dias folgados). Atendendo aos milhares (cof cof) de pedidos dos leitores deste bloguito, desenterrei meu álbum de 1998 (gente...) e descobri algumas coisas: as 30 fotos da Escócia, são, na verdade, 90. Dessas, talvez 9 tenham uma qualidade razoável. Minha velha Kodak, falecida no alto da Serra do Rio do Rastro, no interior de Santa Catarina, no ano seguinte, deu tudo de si, acredito. Mas nada do que ela pudesse fazer chegava perto da qualidade das fotos digitais de hoje em dia. Então, uma foto "linda" em 1998 hoje é "oi?". (Tão bom colocar a culpa na máquina, não me julguem.) Além disso, em várias das fotos que eu consideraria publicáveis aqui, apareço ao lado de meus companheiros de viagem. Como não faço a mínima ideia de como se sentiriam vendo seus rostos desfilando na internet sem autorização, deixemos essas de lado. Mas de tudo, a maior descoberta (na verdade, uma lembrança renovada) foi: quinze anos atrás, eu tinha muito, muito, muito cabelo. Muito. Seja como for, para não dizer que não atendo pedidos insistentes dos meus queridos e pacientes leitores, aí está.  

 Eu e o Lago Ness (corto relações com quem disser "olha aí, o monstro").

 A brincadeira é dizer onde termina o chão e começa a montanha e onde esta termina e começa o céu. Lhamas? Renas? Whatever.

Eu e meu cabelo aos pés do Castelo de Edimburgo.

 On the road.


Ovelhinhas fofas.

 Ruínas de um castelo qualquer, ex-casa de um pessoal que tinha uma bela vista.

O pessoal que viajou comigo. Tudo bem, o baixinho de branco não viajou.

***

O cinema é nosso caminho da roça e nada nos faltará. Daí fui ver Os Descendentes. Ah, a expectativa, essa pregadora de peças. Gostei não. Mas vale pela corridinha desengonçada do Clooney, vejam lá.

Na tarde de domingo levamos as crianças para ver Tintin. Olha. No site que consultei tá lá: censura livre. Eu tinha visto o trailler com perseguições malucas a la Alladin no mercado e um cachorrinho fofo que deixou Amanda toda assanhada. O que vimos no filme? Armas em punho, um personagem que morre METRALHADO e cai sangrando, lutas de piratas assustadores e um tanto bom de cenas violentas. Censura 10 anos, tá lá no panfleto. Verifiquem a classificação indicativa do filme. Verifiquem bem verificadinho. Na dúvida, não levem as crianças. Ódio. 

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28 de janeiro de 2012

Velhas memórias da velha Escócia


É um post longo. E a história é velha. Mas é final de semana, então senta aí e relaxa. 

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Foto que tirei do Monstro do Lago Ness (mentira).

A decisão de visitar a Escócia veio de repente, procurando o que fazer no final de semana prolongado. Eu teria cinco dias para fazer o que quisesse e não demorou muito até encontrar outros quatro desocupados. Eram três brasileiros (um casal de irmãos do interior de São Paulo e um guri de Minas) e uma garota de República Tcheca, todos alunos da mesma escola em que eu estudava. Com cinco pessoas, o aluguel do carro e a hospedagem ficariam mais baratos. Decidimos tudo rapidamente, apesar de ninguém se conhecer direito (com exceção dos irmãos, logicamente). 

Faz tanto tempo que não me lembro mais como foi a compra das passagens de trem para ir de Londres a Edimburgo. Só sei que na véspera da viagem fui dançar num barzinho australiano em Shepherd's Bush e, consequentemente, perdi a hora no dia seguinte. Quase fiz todo mundo perder o trem, mas felizmente conseguimos chegar em cima da hora e embarcar. A caminho da estação de trem, no metrô, conversei com meus companheiros de viagem (morta de vergonha por causa do atraso) e percebi que a viagem seria, hum, divertida. Já no trem, exausta, adormeci nas primeiras milhas da viagem. Quando acordei, o mundo estava branco. Era a primeira vez que via neve na vida e nunca vou me esquecer das imagens que passavam pela janela do trem: plantações cobertas com lonas imensas cercadas por quilômetros a perder de vista do branco mais branco. Ainda era norte da Inglaterra, as terras eram planas, eu nem tinha descido do trem, mas já estava satisfeita. Naqueles campos ingleses, cabia pelo menos metade das minhas fantasias de adolescente que eu importava dos romances que lia. 

Quando chegamos em Edimburgo, fomos imediatamente alugar um carro. Não queríamos nada com a capital naquele dia, nossos planos eram todos voltados para as Highlands e o famoso Lago Ness. Exploraríamos Edimburgo na volta para Londres. Alugamos um carro pequeno, o mais barato que conseguimos, acomodamos nossas mochilas no porta-malas do jeito que deu, ligamos o aquecedor, abrimos o mapa e seguimos para Inverness. A Escócia, dizem, é um lugar bem mais animado no verão. Entre setembro e abril, no entanto, é uma espécie de terra fantasma, coberta de neve, com várias atrações turísticas fechadas (destilarias, my lord) e mais neve. Nosso caminho para Inverness foi ficando cada vez mais branco, cada vez mais montanhoso e, aos meus olhos, cada vez mais lindo. A cada quilômetro vencido, nossa empolgação crescia. Paramos várias vezes na estrada para admirar ovelhas enormes e gordas, com suas carinhas pretas muito curiosas; vimos muitas renas, ou parentes delas, e, claro, fizemos boneco de neve enquanto o carro esperava no acostamento. Resumindo: o deslumbre foi grande. 

Inverness estava praticamente deserta, mas a gente nem ligou. Era só uma parada para dormir e seguir rumo a Isle of Skye no dia seguinte, high, high in the north. Foi em Inverness que vi a neve despencar com força pela primeira vez e também foi lá, no albergue onde pernoitamos, que tomei o pior banho da minha vida. Para ganhar espaço na mochila, não levei chinelos. Ora, todo banheiro por aquelas bandas é aquecido, não haveria necessidade. Pois bem, o chão do banheiro do albergue gelado era gelado. O chão do cubículo destinado ao banho era de inox, gelado. A água que saía do chuveiro fervia a mil graus. Queimei a cabeça, congelei os pés, morri de frio e xinguei até os tataravós de William Wallace. Fazia tanto frio no quarto do albergue que dormi de luvas. No dia seguinte, de nariz entupido, toda a raiva passou. Da janela do quarto no terceiro andar do albergue, vi telhados, ruas e árvores cobertos de branco e fui feliz de novo. 

Comemos qualquer porcaria e fomos embora. Apesar da nevasca da noite, a estrada estava impressionantemente limpa. Não sei quem eram os abnegados que passavam o maquinário para remover a neve das estradas nas primeiras horas da manhã, mas todo meu amor foi para eles. Seguimos em meio a montanhas brancas infinitas por uma estrada absolutamente limpa e muito bem sinalizada. E um céu inacreditavelmente azul. Fiz fotos lindas que, se não estivessem guardadas num álbum pesado lá na última prateleira da estante, juro que digitalizaria alguma para pôr aqui. Mas não, vocês não são assim tão curiosos. (Aliás, tem alguém aí lendo ainda?)

Entre Inverness e a Isle of Skye, onde chegamos no final do dia, visitamos castelos. Vários. Aliás, visitamos castelos todos os dias, era o que tínhamos para ver. Amei cada visita. A lembrança que guardo dos castelos que visitei no norte da Escócia é algo que cheira a história. A expressão é muito clichê, mas não há motivo para  não usá-la: viaja-se no tempo. Cada um com seu pedaço de glória e seu histórico de invasões e conflitos, aquelas paredes seculares me causaram arrepios. A Escócia é velha. É uma bisavó cheia de história e sua voz é linda. E, de novo, eu era a criança; só que com os pés num castelo de verdade. E depois mais um. E mais um. 

A noite em Skye foi bem mais agradável que a de Inverness. Dormimos num confortável B&B, tomei um banho de gente e tivemos um café da manhã de reis. A dona da casa onde funcionava o B&B era a simpatia em pessoa e até tentou nos ensinar algumas palavras do dialeto engraçado que os escoceses falam em alguns lugares. Sem sucesso, claro, ninguém aprendeu nada. A neve seguiu com sua trégua bem vinda e, de barrigas bem cheias, fomos à caça (modo de dizer) de focas e leões marinhos que habitam as ilhotas do lugar e, tchan ans!, era chegada a hora de ver o fabuloso, o legendário, o inigualável Lago Ness. Pois bem. Pausa para contextualização. Quando eu era pirralha, li um livro que contava a história do Monstro do Lago Ness. O livro era uma graça e cresci louca para ver o tal lago. Que, na minha cabeça, era um lago, assim, pequeno, sabe. Como lagos pequenos, vocês me entendem. Hoje, quando falam "lago", penso nos grandes lagos da fronteira dos EUA com o Canadá, ou na Escócia - água a perder de vista. Mas naquela época, "lago", pra mim, era um troço pequeno. Pois bem. Depois de fotografar os leões marinhos ou sei lá que bichos eram aquelas coisas moles e grandes, abrimos o mapa e fomos na direção do, oh, emoção, Lago Ness. Demoramos muito até nos localizarmos. Seguimos, seguimos, seguimos, nada. Voltamos, voltamos,  nada. Tornamos a seguir e tudo era montanha e vales de um lado, água do outro. Muita água. Dirigimos quilômetros margeando o que achávamos ser qualquer coisa, menos um lago. Até que a garota tcheca que lia o mapa anunciou: gente, essa coisa aí, essa água que tá do nosso lado há quilômetros, é o Lago Ness. Cabeças se voltaram para a esquerda. Óóó! O Lago Ness. Eu olhava aquela coisa enorme, sem fim, e pensava no lago que por alguma razão eu visualizava pequeno, redondo e com patos. Seguimos por mais alguns quilômetros até um mirante e lá tiramos nossas inevitáveis fotos ao lado das grandes placas com desenhos de Nessie, o monstro que ninguém viu. Nem nós, claro (a gente quase nem viu o lago, imaginem o monstro). Depois seguimos margeando suas águas escuras e rindo da minha falta de noção.

Depois do Ness, mais castelos e uma noite em Glasgow. Para mim, é oficialmente a capital mundial das pessoas simpáticas. Em Glasgow, um motorista chegou a descer do carro dele, enquanto o sinal estava vermelho, para nos mostrar o caminho porque PERCEBEU que estávamos perdidos. Inédito. Deixamos o carro em frente ao B&B e exploramos a cidade a pé. Estávamos cansados, felizes e, agora sim, loucos para conhecer Edimburgo.

Finalmente, no dia seguinte fomos para a capital do país e visitamos o maravilhoso Ebinburgh Castle. Depois de tanto castelo, achei que não fosse mais me interessar por ele, mas foi só me ver diante daquela grandeza toda para escalar feliz as muitas subidas que nos levariam à entrada do castelo - Edinburgh Castle foi erguido sobre um vulcão extinto. E é lindão. Em seguida descemos morro abaixo e, para não dizer que fomos a Roma e não vimos o papa, visitamos a única destilaria que conseguimos encontrar aberta. Turista é bicho muito tolo, porque eu detesto uísque. Mas lá estava eu. Aff.

Devolvemos o carro e pegamos o trem de volta para Londres levando lembranças saborosas do país mais lindo que visitei na Europa. É uma pena que eu não tenha feito um diário de viagem, certamente já me esqueci de muita coisa, lá se vão 14 anos... Sei que rimos muito de nossas trapalhadas com o hermético sotaque escocês ("pay"[pagar] pode ser pronunciado da mesma maneira que "pee" [fazer xixi] e vocês podem imaginar minha cara negociando o pagamento do aluguel do carro); que comemos muito mal com nosso orçamento apertado de mochileiros; e que curtimos muito. Adoraria voltar. 

Foi preciso esperar vários dias até revelar as fotos naquela era mesozóica pré-digital. Devo ter umas, sei lá, trinta fotos da Escócia. Hahaha. Fosse hoje, teria trezentas. O engraçado? Não precisei ver nenhuma delas para navegar nas lembranças daquele final de semana. Just thinking. Mas a verdade é que adoraria voltar lá para tirar mais mil fotos, de cada montanha, lago, castelo. Queria voltar com minha tropa e me deslumbrar de novo, mostrar aos meus filhos o lago que eu imaginava pequeno e redondo. É bom ver de perto os cenários de nossa imaginação e, com sorte, descobrir, como eu descobri, que podem ser ainda mais fantásticos quando vistos assim, ao alcance da mão.



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26 de janeiro de 2012

De frente (ou: melhor pensar na cenoura)


E há os dias em que a terapia me assusta. O mais engraçado é que o susto não vem de nada revelador que a terapeuta me diga. Vem de alguma coisa que eu digo, que eu mesma levei para a sessão. Hoje me vi falando daquele jeito que falo quando estou afobada. Acelero a voz na tentativa de acompanhar os pensamentos enquanto eles se multiplicam em mitoses apressadas. E vou verbalizando de forma mais ou menos clara, na medida que a afobação me permite, uma justificativa bem amarrada para aquele aperto no peito. E de repente começo a tomar consciência do que está acontecendo e me vejo, enquanto falo, explicando minha vida, tim-tim por tim-tim. E o nó que se forma na minha garganta é grande daquele jeito porque é proporcional ao espanto. É assustador perceber que a resposta está aqui dentro e apenas por não ser bonita é que não lhe dou muita bola. É assustador. Mas seu potencial libertador é igualmente gigantesco. 

***

Arthur: Amanda, você devia comer cenoura.
Amanda: Hum-hum.
Ele: Sabia que comer cenoura é bom pra vista?
Ela: É? [pensa] O olho cresce?
Ele: Não... você vê melhor!
Ela: *silêncio * [pensa, pensa]
Ele: *silêncio* [come, come]
Ela: Arthur?
Ele: Hum?
Ela: Cenoura começa com "c".
Ele: *suspiro* [desiste]

Fim.





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25 de janeiro de 2012

Sobrou kiwi?


Aqui sobrou. Fiz assim:


Depois assim: 

A ideia, tirei daqui.

Bati o que sobrou no liquidificador com leite condensado e um pouco d'água. Depois, copinho e palito. Os kiwis não estavam lá muito docinhos e os picolezinhos ficaram meio travosos. Além disso, o Ulisses acredita que chocolate ao leite cairia melhor nos redondinhos do que o chocolate amargo que usei para o ganache. A conferir.

 

 Meu freezer ficou assim. 

Acho que vou vender na praia.

***

Daí o Arthur tá com febre e a Amanda não almoçou bem e ficou sem sobremesa. Ou seja, vocês vão ter de se conformar com os testemunhos meu e do Ulisses, por enquanto. A febre chegou a 39. Agora, sob efeito da segunda dose de antitérmico, tá controlada. Vem, noite. 

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23 de janeiro de 2012

Memórias de uma adolescência sem mesada


No tempo em que minha mãe pagava todas as minhas contas, as coisas eram bem controladas pro meu lado. Nunca tive mesada, o dinheiro para o lanche do colégio era contado, roupas eram compradas apenas quando realmente necessárias. Os tickets de estudante para o ônibus da escola eram dados dois a dois, todos os dias - o talão de tickets não ficava comigo - e ela sempre cobrava o troco do pão. Eu tinha que dar conta de tudo de novo ou diferente que aparecesse em minhas mãos. Uma vez usei o dinheiro do lanche para comprar bijus e precisei enfrentar um longo interrogatório até que a verdade viesse à tona e ela se convencesse de que não haveria uma segunda vez. Não que eu estivesse cheia de bijus e aquilo fosse um ato de consumismo exacerbado, nada disso. Eu praticamente não tinha acessórios como pulseiras, brincos ou anéis, porque um par de brincos sobreviventes à primeira infância e um único anel eram mais do que suficientes para satisfazer minha vaidade adolescente, julgava ela. O problema era que dinheiro para lanche era dinheiro para lanche e só. 


Minha mãe foi uma pessoa muito pobre na infância e começou a trabalhar quando ainda era uma menina. Só concluiu a faculdade quando eu, a filha mais nova, tinha nove anos. Sempre trabalhou demais e desde muito cedo precisou aprender a fazer o dinheiro render. Acredito que quis ensinar esse controle aos filhos, mostrar que, quando o dinheiro não é abundante, pequenos gastos dispensáveis podem fazer uma diferença importante no final do mês. Então eu estudava em escola particular, mas o dinheiro do lanche era controlado a ferro e fogo. 


Os tentáculos do controle financeiro de minha mãe se movimentavam por todas as esferas da casa. Nada de luz acesa em cômodos vazios, banhos prolongados, comidas requintadas. Dinheiro sobrado era dinheiro aplicado e nunca gasto com "futilidades", como férias na praia ou um carro para a família. E, obviamente, nada de conversas longas ao telefone. Em um tempo sem internet, sem os longos papos no twitter ou no canal que for, o telefone muitas vezes era o único caminho disponível para a boa conversa jogada fora, tão abundante em tempos de banda larga. Sem ele, a última novidade sobre aquele cara, que olhou para você ontem, teria de esperar a próxima aula de inglês até que você pudesse dividi-la com a amiga da cidade vizinha. Claro, você poderia ligar para ela e ficar de papo por uns quinze minutos - se você não fosse filha da minha mãe. Comigo a regra era clara: telefone, só para emergências. 


Um dia a necessidade fofocativa falou mais alto e bati o pé. Eu tinha uns ganhos mixurucas com aulas particulares e posei de independente wannabe: anunciei que ela não precisava se preocupar com o valor a ser pago por aquela ligação porque eu precisava conversar com Fulana e pagaria a conta com meu "salário", cof cof. Ela concordou. Ainda me lembro que me senti muito dona do meu nariz. Peguei o telefone e botei todos os papos em dia, sem me preocupar com o relógio. Ou com o bolso. Semanas depois, quando a conta chegou, minha mãe cobrou a promessa. Entreguei o dinheiro certa, absolutamente certa de que ela perdoaria a dívida depois de uma ou duas palavras sobre o valor do dinheiro, bla bla. Mas nada. Ela segurou o dinheiro bem diante dos meus olhos suplicantes e disse: "é seu, mas você já gastou". E lentamente guardou o dinheiro na bolsa dela. E nunquinha me devolveu. Foi um episódio corriqueiro, mas a verdade é que nunca me esqueci dele. Aquilo valeu muito mais do que longos sermões sobre a importância do planejamento quando o assunto é dinheiro.


Não foram poucas as vezes em que minha mãe me ajudou financeiramente. Do jeito que conseguia, no limite que podia, sempre me estendeu a mão e, muitos anos depois da conta do telefone, ela até colaborou com gastos que, sei, não considerava "essenciais". Mas sei que ela o fazia porque percebia que tínhamos apreendido a lição. Agora a brincadeira vai começar pro meu filho.


A partir desse ano, Arthur vai poder comprar o lanche na cantina da escola. Poderá ainda levar lancheira de casa, se quiser, mas duvido que queira. O lanche da cantina, ao que me parece, tem ares de passaporte para o final da primeira infância. O segundo ano. Não mais no mesmo prédio do ensino infantil. Não mais formando fila no parquinho. Não mais a lancheira. Veremos. Se o monopólio da cantina se confirmar, serão cinco chances semanais de lidar com o dinheirinho contado. Porque vai ser contado. E vamos ver onde isso vai dar. Educação para as finanças é algo fundamental, especialmente em uma sociedade tão consumista quanto a nossa. Sempre convivi com crianças muito mais abastadas do que eu e é engraçado a forma como me lembro disso: o que ficou não se parece em nada com rancor ou tristeza por saber que meu poder de compra era menor. Lembro-me que eu entendia claramente que eu podia menos porque minha mãe ganhava menos - sem muito drama. Eu também tinha amigas mais pobres que eu e isso certamente me oferecia uma boa perspectiva para enxergar as coisas. Seja como for, sei que não terei pudores em controlar os gastos de meu filho durante a infância e adolescência, porque estou absolutamente convicta de que isso me fez muito bem. Na vida adulta, passei por fases com grana curtíssima e saber administrar o pouco que entrava fez toda a diferença. Não é à toa que quase sempre que preciso me programar ou cortar gastos para o fim que for, aquela conta do telefone volta a trancar minha garganta. É que desceu quadrado, mas me fez muito bem. Nem todo remédio é doce, afinal. 



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20 de janeiro de 2012

Austen e o biscoito


E aí sigo lendo Jane Austen e de vez em quando interrompo a leitura e reparo como tudo parece tão preciso, tão bem colocadinho, arrumadinho. Como se a história tivesse se desenrolado à sua frente e Austen tivesse simplesmente descrito o que via. Aquelas pessoas realmente existiam e estavam ali naquelas casas de campo enormes desfilando suas convicções, exercendo seus poderes minúsculos em seus reinados minúsculos. Acreditando que tudo em suas vidas era muito grande e importante para o funcionamento do mundo. E, como um fantasma, acho que Austen pairava por ali, nas salas, nas cavalgadas, nos saraus. E a tudo via. Depois, com sua caneta precisa e cheia de ironia, pintava o livro pra gente. Porque não é possível que tudo saísse da cabeça dela, né? Digam que não é possível.

Eu queria ter esse dom, o de escolher as palavras certas com o efeito perfeito, às vezes surpreendente. O dom de empregar a frase certa, no tom exato e com ele deixar todos boquiabertos diante de minha capacidade extraordinária de expressar sentimentos. Ser capaz de descrever lindamente as relações humanas e revelar, com aparente tranquilidade, alguns dos caminhos intrincadíssimos de nossas mentes. E não estou falando de literatura. ;-)

***

Mas, ah, a minha mente. 

Gosto de levar um pacotinho de biscoitos para o trabalho. Mantenho um na bolsa para a fome que sempre, sempre me visita no meio do expediente. Hoje esqueci, como de costume, o pacote sobre o balcão da cozinha. Só me lembrei dele quando o café da manhã já era saudade e meu estômago queria mais. Bebi água. Na hora do almoço mirei o pacote e pisquei para ele: você vem comigo à tarde. À tarde, na hora do lanche, lembrei-me do pacote sobre o balcão e xinguei. Bebi água. No carro, de volta para casa, sentindo a dor de cabeça se aproximar por causa da fome, abri a bolsa para guardar os óculos e, voilá, eu não tinha esquecido o pacote sobre o balcão da cozinha. Eu tinha esquecido que não tinha esquecido. E morri de fome com a bolsa cheia de biscoito. Minha mente. 





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18 de janeiro de 2012

É mais simples


Você compra kinect. E robôs desmontáveis superinteressantes. E revistas com mil atividades e adesivos. E livros suculentos. A boneca muda a cor do cabelo quando toma banho. A casinha de cachorros tem cachorrinhos foférrimos. A gaveta de tintas e pincéis é a mais cheia da casa. 

Mas eles se pegam e brigam e choram aos berros. Fazem escândalos e juram que nunca mais vão brincar um com o outro. Por causa da bolinha de isopor. Uma bola de isopor, branca, sem nada. Só uma bola pequena. De isopor.

É assim.


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