A little bit of spring


E eis que depois de mais de onze anos de vida nosso ipê resolve exibir suas primeiras flores. Mal conseguimos enxergá-las nos galhos mais altos da copa. Outras, tímidas, não passam de silenciosos pontinhos de primavera despencados sobre a grama. Mas são um prenúncio, e sou grata. 



Minha árvore generosa. Obrigada.

Retrato de uma nova leitura velha


Comprei minha edição de Um Retrato do Artista Quando Jovem nos tempos da faculdade - em setembro de 1995, segundo a data que anotei na folha de rosto. É uma edição comprada em sebo, velhinha com bordas amareladas (Ed. Siciliano, tradução de Bernardina Silveira Pinheiro). Apesar de todo o culto em torno da obra de Joyce, não guardei nenhuma lembrança de minha primeira relação com o livro. Dia desses, num momento mais enfadonho de Olhai os Lírios do Campo, fui fuçar os livros na estante e comecei a folhear Retrato do Artista. Fui lendo parágrafos aleatórios, saltando páginas. Ri da coincidência de retirar da prateleira justamente aquele livro que, tal como Lírios, também falava das angústias de um garoto em seu colégio. Li vários trechos, mas não me lembrava do rumo da história. Deduzi então que certamente havia abandonado a leitura na década de noventa e larguei o livro na mesinha de cabeceira. 

Voltei a ele logo depois de ler os dois primeiros livros da tetralogia de Elena Ferrante (aguardo o terceiro com vontade); daí vieram as Olimpíadas-leio-depois. Agora, sim, sei de Stephen Dedalus e do que me levou a comprar o livro anos atrás, bem na época em que andava abraçada aos contos de Clarice. Certamente as referências apontadas por tantos críticos que associam a escrita da brasileira a traços da escrita do irlandês me levaram a ele. Ainda assim não fui fisgada por Joyce naquele tempo, minha admiração por ele só surgiu muitos anos depois com alguns dos contos de Dubliners.

Agora sei de Stephen Dedalus, alterego de Joyce. Talvez um dia eu o reencontre nas páginas de Ulysses, um eterno "leio-depois". Por enquanto, vou ficando com a experiência que foi caminhar pelas brumas dos três capítulos iniciais do livro para desembocar no jogo de luzes que o quarto capítulo joga sobre o protagonista e os leitores. Retrato do Artista, com a maior parte de suas ações ambientadas na Dublin do início do século XX, gira em torno de um garoto cuja família mergulha na pobreza à medida que ele cresce, e de suas crises existenciais diante do autoritarismo, dos valores de sua igreja, do isolamento aonde sua caminhada cheia de perguntas o leva. Seria inicialmente um ensaio autobiográfico, mas foi editado e transformado em romance depois de ter recusada sua publicação. Pra mim foi acima de tudo um livro sobre a alegria da ruptura. Ruptura que chega com o voo do Dedalus no quarto capítulo - ainda que isso não signifique solução ou alívio, talvez apenas as outras cores da angústia da vida adulta, do artista em formação.

Normalmente viro o livro do avesso antes de começar a leitura: vejo orelha, contracapa, prefácio etc. Dessa vez, pela forma como o livro pulou da estante em minha mão, passei direto para o miolo. Somente depois de finda a leitura, reparei na orelha escrita pelo Professor Roberto O'Shea, de quem tive a sorte de ser aluna na pós-graduação da UFSC (acho graça agora saber que por anos fui sua aluna sem me dar conta da orelha dele em minha estante [risos]). Está lá que "qualquer observação crítica generalizante [de Retrato] será redutiva". Deve ser. Digo apenas que sorri com o protagonista lá pelas tantas, quando Stephen se viu sozinho, "ignorado, feliz e perto do coração selvagem da vida". Foi bom e fiz high five. Como se sabe, a solidão é muitas vezes uma companheira inevitável, independente do barulho a nossa volta.

Da beleza


Há a vitória, a derrota, as surpresas. Em tudo, a beleza.

Vi as Olimpíadas exatamente da mesma forma como em todas as outras vezes, pela TV. E ainda assim, que enorme diferença. Era tudo logo ali, mesmo que não fosse. Pela TV, Pequim, Londres e Rio deveriam ter a mesma distância, mas não. A Rio 2016 foi quase ao alcance da mão. Era como estar com um pé lá (e quase estive, mas disse não), como se meu grito pudesse ser ouvido pelo atleta na quadra na hora do saque. Tudo pela vontade de que desse certo, de que pudéssemos receber bem e celebrar o esporte com o coração na mão. 


As imagens que encheram meus olhos nas últimas duas semanas valeram o sono e a leitura adiados. Os sustos e surpresas compartilhados com quem estava no sofá ou do outro lado da tela do telefone transformaram as horas. Foram dias mais largos: já saíamos pro trabalho com um olho na esgrima; no almoço, sempre tão corrido, cabia uma luta de judô. Jantamos com pólo aquático e só dormíamos depois que a última bola caía na areia de Copacabana. Pela TV, o povo dessa casa torceu por pessoas de quem nunca tinha ouvido falar e vibrou com velhos "conhecidos". Algumas vezes, não importava muito a cor da camisa, numa Olimpíada a gente torce pela beleza, pela superação, pelo humano, pelo pequeno, pelo gigante, pela inteligência do corpo, pela garra, pelo improvável. A gente torce, é como gostar, sentir e espalhar carinho. É bonito e bom. 


Tantas cores na pele, nas bandeiras, nas camisas dos atletas realçam quão vasto é o mundo, quão diversos seus habitantes. A diferença enriquece nossa experiência nesse planeta, é bom que seja assim. De tempos em tempos, a gente junta todo mundo num mesmo palco e curte o deleite.







***

Passou. Que nossa capacidade de enxergar o belo nunca esmoreça. 


(Todas as fotos deste post: aqui)

Desobediência civil


Há quem insista em apontar o dedo: não pode curtir isso tudo aí, agora. 


Esporte, cultura, mistura, sotaques, arte, beleza, suor, lágrimas, superação, coragem: merecemos o pacote inteiro. Aos usurpadores: fora! E a você que se esqueceu de que não precisa ser fiscal purista da consciência alheia: aquele abraço.

Lírios - e seu prefácio


A edição de Olhai os Lírios do Campo que li (Ed. Globo) traz um prefácio do próprio autor, Erico Verissimo, em que ele diz com todas as letras "não tenho muita estima por esse romance".  O prefácio foi escrito em 1966, quase trinta anos após o lançamento do livro que marcou uma grande reviravolta na vida do escritor. Foi Lírios que o tirou do anonimato e permitiu que ele passasse a viver exclusivamente da literatura. Foi também Lírios que vendeu de carona os lançamentos anteriores, até então encalhados nas livrarias. O Erico que escreve o prefácio de 66 é já o escritor consagrado pela trilogia O Tempo e o Vento e outros livros. Não li O Tempo e o Vento ou qualquer outro romance do autor posterior a Lírios, mas devo dizer que concordo muito com o prefácio de 66.

Muitas obras da literatura parecem pairar acima do tempo. A gente vê na trama do texto as marcas da época em que foram escritas, mas algo na história, na linguagem ou nas reflexões que provocam (ou seja lá o que for que toca o leitor) faz com que nunca percam a validade. "Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar", escreveu Eça de Queiroz em 1878, e o que segue nas páginas d'O Primo Basílio tem potencial para prender o leitor de 2016, mesmo com o cheirinho de mofo. São livros que se transformam numa janela confortável de onde espiamos os brilhos de outros tempos; livros-lunetas. Outros, porém, me parecem vencidos. Foi assim com Lírios. A história de Eugênio e da indefectível (zzzz...) Olívia não bastou para transformar a leitura num bom passeio pela década de 30 do século passado. Eu via quase tudo datado, vencido, aborrecido.

Digamos que a experiência foi salva pela autobiografia do autor que li recentemente. Foi interessante ver a inserção de fatos e personagens da infância e adolescência de Verissimo na construção da história. A profissão de sua mãe emprestada ao pai de Eugênio, ou o professor neurótico de guerra, do colégio interno da vida real, transplantado para o colégio do protagonista, por exemplo. Além disso, é instrutivo ver as referências à ascensão do fascismo e nazismo na Europa de 1938 e o deslocamento do personagem judeu Simão - o horror do holocausto já apontava na próxima esquina da história e essas referências antecipatórias são inquietantes. No entanto, os personagens são quase caricatos. O ganancioso fascista arrogante, o covarde e egocêntrico Eugênio, a insuportavelmente otimista-abnegada-cheia-de-fé Olívia - olha, nem Pollyanna. Concordo com Erico em seu prefácio: alguns traços de seus personagens "parecem inumanos" (referia-se especificamente a Olívia aqui; tenho a mesma impressão de outros personagens também).

Por fim, o livro perde o fôlego no meio do caminho. Quase nada da intensidade de eventos na primeira metade se mantém na metade final. Erico parece por vezes abandonar a história (que já parece mesmo resolvida) e passa a desfilar relatos curtos, paralelos - como se interrompesse a escrita para contar casos. A experiência, pra mim, foi semelhante aos fillers no meio de uma temporada das séries de TV. Erico resume em seu prefácio: "... a história se dilui numa série de episódios anedóticos sem unidade emocional".

Nem tudo é canseira. Há algumas cenas tocantes, alguns bons diálogos. Gosto do Seixas, o amigo de Eugênio com quem ele troca breves ponderações filosóficas no finalzinho do livro, personagem talvez mais solto e convincente do que a Oliviazzzzz. E, no fim das contas, gostei de ter lido - agora sei do que se trata. Já Erico foi mais duro: "Sua popularidade [do livro] às vezes chega a me deixar constrangido." Talvez não fosse pra tanto. Mas entendo e aprecio o olhar crítico e corajoso do escritor mais velho sobre sua própria obra.

Meu primeiro Verissimo foi Saga - desisti no início. Depois, em Solo de Clarinetavi que ele o considerava seu pior livro. Agora, Lírios... Mas sou teimosa. Ainda vou passear por Antares, dizem que o negócio é mais animado por lá. A ver. 

Azamiga


Enfim li o primeiro livro da série napolitana de Elena Ferrante, A Amiga Genial (tradução de Maurício S. Dias, Ed. Biblioteca Azul). Com expectativas geradas pelo fato de que várias pessoas, com cujo gosto literário me identifico, andam festejando o livro, e com todo o risco que tais expectativas impingem à leitura, fui. 

De início, não houve arrebatamento, escrita envolvente, amor, nada disso. O livro foi crescendo em mim, aos poucos. É engraçado, tenho a sensação de que gostei mais dele do que ainda sei, talvez pelo fato de ir lendo e pensando "bacana, mas não é essa purpurina toda", mas: não largava. Li em, sei lá, três dias. Pra mim, neste momento, crianças de férias, eu sem férias, Stranger Things na Netflix (devorei os oito episódios, nham!), foi uma leitura rápida, feita em poucos blocos de poucas horas. O fato é que nas últimas páginas o livro aconteceu

Não sei se pelo clima em que me encontrava - a mesa posta esperando os amigos que viriam pro jantar, Alanis cantando alto na sala - no final fui caindo na cadeira onde Lenu estava sentada, e fiquei observando Lila e toda aquela periferia em um mundo que é Nápoles, mas sabemos ser também cada uma de nossas cidadezinhas, vilas, bairros, nossas infâncias e adolescências quase sempre assustadas (ou não seria adolescência, combinemos, o susto é inevitável). E fui vendo como Ferrante desenhou a identificação tão universal que a gente sente na competição quem é mais sozinho nesse mundo. 

Não amo a Lila, como me parece que várias de minhas amigas que leram o livro amam. Tampouco amo Lenu - aliás, a prova de que me envolvi com o livro mais do que sei é a lembrança, nesse momento, à medida em que escrevo aqui, dos momentos em que eu quis pular no pescoço dela. Mas se o fizesse, o que diria? Ei, vou te esganar porque você faz aquelas coisas que a gente faz: busca sem saber o quê, e vê os precipícios? Vou te esganar por me lembrar o tanto que a gente se mede no olhar do outro? Talvez não tenha sido a atmosfera da sala, nem a Alanis. Talvez tenha sido o fato de que A Amiga Genial não passa de uma introdução, um convite: quer ver o que acontece com essas (e tantas) meninas? E foi nas partes finais do livro que aceitei o convite e me vi comovida, enfim.

"Não houve arrebatamento", mas o segundo livro da série está a caminho e hoje corri para o pacote que o correio deixou. Não era. To be continued.  


What if...


E se a gente abrisse uma passagem secreta no azul daquele céu e escapasse de fininho pra uma tarde de nós duas? Se a gente fugisse em nossas bikes, que tal?

E se a gente pegasse água, biscoito e chocolate, e fingisse um banquete na grama, com brindes de uma aventurinha só nossa?

E se a gente soubesse os segredos do parquinho, os melhores cantinhos, as curvas mais legais?






E se o tempo parasse na nossa tarde?


(Spoiler: não vai parar, amor. O tempo pedala mais do que a gente, vai vendo. Mas tomara que você sempre tenha a alegria em seu caminho. E que nunca nunca nunca perca o mapa para a fonte desse seu sorriso. Faz favor, né. Sua linda.)


 
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