Vai chegar


Tenho um casal de amigos que terá um bebê a qualquer momento. Ela anda por aquela reta final da gravidez, quando dormir é uma aventura, a mala está pronta e o humor anda uma loucura. O último mês de uma gravidez, como dizem, pode durar um século. Será o primeiro filho deles e, portanto, vamos falar de um século e meio. Eu, aqui, longe, torcendo, mal posso esperar. Imaginem. Hoje acordei cantarolando uma velha música do Toquinho, pra eles.

Voa coração
que a minha força te conduz
que o sol de um novo amor
em breve vai brilhar
Vara a escuridão
vai onde a noite esconde a luz
clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora
e acorda um lindo dia
colhe a mais bela flor
que alguém já viu nascer
e não se esqueça de trazer força e magia
o sonho a fantasia 
e a alegria de viver.

Voa coração
que ele não deve demorar
e tanta coisa mais
quero lhe oferecer
O brilho da paixão
pede a uma estrela pra emprestar
e traga junto a fé
num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
De onde se planta a paz
da paz quero a raiz
e uma casinha lá onde mora o sol poente
pra finalmente a gente
simplesmente ser feliz

Tenho fugido das idealizações em torno da maternidade, daquele discurso perverso que rotula toda mulher como mãe em potencial e, portanto, exclui todas as tantas e infinitas possibilidades. Essa minha amiga, contudo, escolheu ser mãe. E ela será a mãe que só ela será, diferente de mim, da minha mãe, da mãe dela. E o pai será o pai que só ele será. E isso parece tão óbvio, mas é imenso. Então não quero dizer a eles que sei o que vão sentir, porque ninguém sabe. Eu já disse muito isso, é verdade. "Você vai ver quando ele nascer!". Bom, eles vão ver, mas do jeito deles. Torço apenas que seja tudo feito de felicidade, coisa pouca. ;-) Quanto a mim, queria mesmo era sentir o cheiro do pezinho. 

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Status: tentando decidir (ou perceber) se a minha pouca disposição para rebater argumentos forçados e desonestos reflete amadurecimento ou um retumbante fracasso na arte de conversar. 

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Um livro do Mia Couto traz belezas tamanhas que a chuva fina que cancela o passeio de bicicleta parece menos trágica. O sofá aceita as estradas que "suportam distâncias", um menino com vestes "da cor do caminho", um caderno com histórias que põem os tempos em "mansa ordem". Penso que ler Mia Couto seja algo a se fazer devagar, num sábado igual a esse, de céu cinza e chuva silenciosa. Nada deveria perturbar a melodia triste que brota das páginas generosas de Terra Sonâmbula. Ler Mia é um descobrimento quietinho, com alguma cerimônia, como quem espera a lua que logo sairá de trás do morro. O encanto é garantido.

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A Joana Faria, ilustradora de Contos do Poente, participará da Crafty Fox Market, em Londres, na semana que vem. Eu iria a pé, se pudesse. A Joana tem lugar de honra em minha torcida pelo sucesso, por ser uma pessoa incrivelmente talentosa, claro, mas também por esbanjar bom gosto, inteligência e simpatia. Em Londres na semana que vem? Corre lá. Não sei quando vou corrigir a terrível falha de ainda não ter me encontrado com ela pessoalmente, apesar de termos lançado um livro juntas - o mundo maravilhoso da internet! Espero que não demore muito. Vem pra Floripa, Jo!

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Escrever é triste, diz um bom blog por aí. Digo: escrever é, antes, um silêncio. Preciso varrer as palavras e o mundo para longe de mim. Só então consigo encarar de frente o medo e o abismo. Só em silêncio posso segurar firme o lápis de desenhar histórias. Quero todas as tristezas, as buscas, as perguntas espantadas de surpresa, presas na garganta. Quero longe de mim as respostas fáceis, as certezas, o barulho de quem grita que já sabe. Quero uma escrita feita das palavras que ouço quando o mundo se cala.

Reizinho


A primeira vez em que ouvi falar da biografia Roberto Carlos em Detalhes, escrita por Paulo Cesar de Araújo e lançada em 2006 pela Editora Planeta, foi em 2013, quando o livro já havia sido recolhido das livrarias por força judicial há cerca de seis anos. Vejam que garota antenada. Foi na época em que o assunto invadiu as redes sociais por causa das controversas manifestações dos integrantes do grupo Procure Saber. Durante vários dias, minha TL trocou ideias em torno da decepção por ver figuras como Caetano e Djavan falando da importância da autorização prévia para lançamento de biografias, amparados pelo tal artigo 20 do Código Civil, alegando direito de proteção à privacidade. Muitos queixos caíram. O assunto quase virou o único tema das conversas quando Chico Buarque atacou o biógrafo de Roberto Carlos alegando não ter dado uma entrevista mencionada na tal biografia - e logo desmentido pelo vídeo e pelas fotos da entrevista. Muitos corações se apertaram. Foram semanas animadas nas redes sociais, cheias de piadas sobre Chico, "liberdade mais ou menos" e quem te viu, quem te vê. E posteriores perdões ao Chico, claro (que, diante da comprovação da entrevista, se desculpou com o autor).


Dificilmente eu compraria a biografia proibida na época de seu lançamento. Não que não goste de ler biografias, bem pelo contrário - gosto muito. O que falta é interesse pela história do Roberto Carlos. Ainda que eu reconheça seu valor para a história da música brasileira, a relação fica por aí: reconheço, mas não é minha praia. No entanto, por causa da celeuma que invadiu meu Facebook em 2013, o novo livro de Paulo Cesar, O Réu e o Rei (Cia das Letras) me saltou aos olhos na livraria. Algumas amigas vinham falando sobre ele, tecendo elogios ao livro, e foi ele a minha escolha para presentear um amigo em seu aniversário. Por impulso temperado pelas conversas de 2013 acabei comprando um exemplar pra mim também. Ainda bem.

Adorei.

O Réu e o Rei conta a história pessoal de Paulo César com Roberto Carlos: o amor de fã, a infância do menino pobre que ouvia as músicas do ídolo pelo alto-falante da praça, a expectativa ano após ano pelos novos sucessos do ídolo de milhões de brasileiros. Fala da trajetória do garoto baiano que migrou para Sampa e Niterói, de como conseguiu conciliar trabalho e duas faculdades. E de como se tornou o historiador que ganhou destaque com seu primeiro livro sobre a história da música brasileira, Eu Não Sou Cachorro, Não, lançado em 2002 pela Editora Record. O foco central de O Réu e o Rei se volta, claro, aos bastidores do processo movido por Roberto Carlos que culminou na censura à biografia Roberto Carlos em Detalhes.

O livro é saboroso. Os eventos da história pessoal de Paulo Cesar retratados no livro têm os ingredientes das boas histórias: teimosia, inocência, os pés no chão e os olhos voltados para o mundo, a aventura, a pobreza e a superação; o interior do Nordeste de décadas atrás, suas janelas e praças. As muitas entrevistas feitas durante a preparação da biografia que viria a ser proibida rendem páginas e páginas de relatos interessantíssimos. As entrevistas com Tom Jobim, Caetano, Tim Maia (hilário!), Chico e tantos outros são coroadas pela surpreendente história da aproximação do autor com o discretíssimo João Gilberto. Um deleite. 

Aí chegam os capítulos que tratam do processo. Se a intenção de Roberto ao recorrer à Justiça para proibir a biografia escrita pelo seu fã era proteger sua imagem, nunca houve maior tiro no pé. Os detalhes da preparação da biografia, das tentativas de entrevistá-lo e acima de tudo dos recursos usados para proibir o livro revelam, para mim, a encarnação da arrogância. Não acredito que exista nas páginas de Roberto Carlos em Detalhes nada capaz de manchar mais a imagem do cantor do que seu comportamento ao tentar impedir a circulação do livro. O relato da audiência de conciliação que resultou no acordo que tirou o livro do comércio é um exemplo constrangedor da operação da Justiça brasileira. Uma aula de como não fazer. Para quem acompanha a carreira do cantor, os relatos em O Réu e o Rei podem causar uma tremenda decepção. Para mim, que nunca antes havia gastado dois segundos de meu tempo para ler nada sobre ele, foi, ainda assim, uma surpresa e tanto. Não fazia ideia do quanto o chamado Rei se aproxima muito da imagem que tenho de meninos mimados e "cheios de razão". Um reizinho, por assim dizer.

Se eu fosse vocês, lia. Talvez haja um tiquinho de maldade em minha recomendação especial aos fãs do cantor, mas acho que vale a pena conhecer os bastidores dessa história. Quem gosta das canções, acho eu, não irá deixar de gostar por causa dos arroubos do rei - aliás, a proibição ao livro do Paulo Cesar é reincidência. Roberto Carlos já tirou de circulação outra biografia e tentou impedir a publicação de uma dissertação de mestrado tratando da Jovem Guarda. Olha, que teimoso, esse menino.

Há muita história boa em O Réu e o Rei  e achei a narrativa muito bem amarrada. O passeio nos leva dos anos 1960 até o início desse animado 2014. Na caminhada, vamos conhecendo pequenas anedotas envolvendo grandes nomes da música brasileira, mas também revisitando momentos da história musical do país. Aprendi um monte e vi que poderia ter aprendido muito também lendo a biografia proibida. As carreiras dos meus próprios ídolos da MPB se cruzam muito mais com a de Roberto do que imaginei em minha ignorância. Aprendi, também, que meu marido era fã de Roberto, dos grandes sucessos da era de ouro do Rei, lá pelos anos 70. Isso não está no livro, claro, mas foi impossível não falar de Roberto o tempo todo enquanto lia a ótima história de Paulo Cesar. Infelizmente, não teci muitos elogios ao rei, mas virei fã do réu.

***

Roberto Carlos em Detalhes segue proibido nas livrarias do país, mas dizem que bomba nas de Portugal (Roberto Carlos chegou a cogitar o veto por lá, mas aparentemente descobriu que o mundo é maior do que seu umbigo), em audiolivros, em versões piratas, no mercado, digamos, alternativo. Dizem que quem quiser ler, assim, com vontade, consegue. ;-)


O cofre e o verdadeiro tesouro


Amanda sendo Amanda:

- Filha, que tal a gente tirar as moedas do seu cofrinho velho e transferir tudo para o novo?
- Isso!

Aí ela me pediu para que eu pegasse um objeto que estava lá em cima, na prateleira alta. E de lá de um cantinho secreto tirou a chave. Abriu o cofrinho, que continha:

- Algumas moedas;
- Algumas cédulas;
- Dois grampos de cabelo;
- Um pedaço de papel de bala amassado;
- Seis tubinhos de purpurina;
- Cinco pedrinhas do jardim. 

Ela espalhou o eclético conteúdo sobre a cama. Transferimos as moedas e cédulas para o novo cofrinho. Depois ela recolocou pedras, grampos e purpurina no velho cofrinho, fechou, trancou e voltou a colocar a chave no esconderijo secreto.

- Não conta pra ninguém o lugar da chave, mãe. 

O cofrinho novo tá por aí, pela casa, pra quem quiser pegar e brincar com ele. É lindo, um bichinho fofo, um cofre-brinquedo com a barriga cheia de moedas e cédulas. O cofre antigo, com o tesouro de pedras de jardim, grampos e purpurina, tal qual a velha canastra da Emília, tá no quarto, protegido, com a chave guardada no esconderijo secreto. 

Os valores. Que amor. 

A menina que pinta o sete



Você ainda me pede para colocar sonhos bons em sua cabeça antes de dormir. Eu passo os dedos por sua testa e faço desejos de borboletas e areia da praia. Aí você retribui. Ganho voltinhas dos seus dedos em meu rosto e toques suaves das suas mãozinhas sobre minhas pálpebras fechadas enquanto recebo os sonhos que você me dá. É nosso pequeno ritual de tantos anos já. Dia após dia vou vivendo a alegria e o gigantesco privilégio de ver você se transformar nessa menina incrível. Meu bebê, minha pequena sereia, minha garota dos cachos mais lindos. Que seu mundo seja um balanço divertido.

***

É você, a menina que pinta o sete.













É você, a menina que ilumina como o sol e traz as cores mais bonitas dos nossos dias. Obrigada, meu amor. Desejo que seu dia seja como essas fotos, pura luz. Seu aniversário é um dos nossos dias favoritos, e celebrá-lo é doce como brigadeiro. Te amamos "do tamanho do universo, dez vezes". 

Contos & casos (e histórias da Amanda)



Aí houve o dia em que convidei um casal de amigos para ver o jogo aqui em casa. Convite aceito, todos felizes. No dia do jogo, que seria no final da tarde, fomos almoçar na casa de outro casal de amigos. Almoço bom, todos felizes. Fica aí um pouco mais, o jogo já vai começar, olha que legal. Ficamos. Os amigos, aqueles outros, esquecidos, vieram ver o jogo aqui em casa e deram com a cara da porta. Não sou uma pessoa legal? Eu convido e me esqueço que convidei. Sabe qual é a prova de amor? Eles continuam meus amigos. Até já aceitaram outro convite meu e dessa vez eu fiquei em casa. Todos felizes. 

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Tenho lido, aqui e ali, uns contos do Tchekhov. De vez em quando acho que virei duas folhas de uma vez, mas não. É o conto que acabou mesmo, assim, abruptamente. Não sei se ainda vou me deparar com algum texto arrebatador na coletânea que escolhi. Por enquanto, se alguém gritar "Tchekhov!", respondo "Saúde!".

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Compramos uma mesa de ping pong. Não pensei que fosse tão divertido o negócio. Fim de dia, banhos tomados, eu de pijama, Amanda de sereia, Floquinho meio perdido, ping pong ping pong. Arthur vai aprender, Amanda também. Tá, eu também. Por enquanto, Ulisses passeia humilhando a todos. Deixa ele.

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Minha tia tinha hábitos peculiares. "Guardava" agulhas enfiadas na toalha da mesa ou nas almofadas do sofá, vejam que prático. Também guardava moedas na gaveta de talheres, como já contei aqui.  Além de escolher lugares estranhos para guardar coisas e ser viciada em palavras cruzadas, minha tia gostava de dar presentes. Guardo comigo alguns mimos que ganhei dela, geralmente em datas não especiais. Um terça-feira qualquer, um sábado em que estávamos juntas, por nada eu ganhava um agradinho. Tenho um espelho pequeno de levar na bolsa, um anel dos tempos em que vendeu joias, uma pulseira que trouxe da Espanha em sua aventura pela Europa. Mas gosto especialmente da colherinha de café. E não é porque veio da Suíça ou porque é mais prateada que as outras da gaveta. Não é porque tem o metal trabalhado. É porque é única, né. Uma colher de presente. Quem mais? Só minha tia viajava e voltava com uma colher de presente. Uso para servir o açúcar, porque acho que combina. E a saudade vem como vinham os presentes dela, sem escolher data.

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The Killing: primeira temporada boa, segunda temporada sofrível, terceira temporada bacanérrima. Não sei o que esperar da quarta, mas já sei que detetives não contratar para resolver qualquer caso. Vou te contar, hein.

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Retomar as aulas de yoga foi uma das coisas mais legais que fiz por mim este ano. Empatada com não bater boca por causa das eleições e não voltar a tomar leite (outro inverno sem faringites, yeah).

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Histórias da Amanda

A menina e o campo encantado

"Era uma vez uma menina que encontrou um campo. Era um campo estranho cheio de pássaros, borboletas, gatos da mata, bichos estranhos, besouros voando, não era um campo normal. Era um campo encantado, árvores falando e folhas secas cantando. Ana achou estranhou acabou caindo no sono. Caiu um pozinho na cabeça de Ana. Ana se transformou em um gato. Um gato falante. Ana quando acordou deu um miado, achou estranho quando se olhou ficou assustada e falou sou um gato, um gato que fala e saiu correndo e miando daquele campo engraçado."

Iara

"Aparece um gato selvagem para pegar o passarinho. O pássaro teve que se esconder em algum lugar. A Iara vai ajudar o pássaro. A Iara chama alguns peixes para distrair o gato enquanto Iara fala o que o passarinho deve fazer - Voa passarinho. O pássaro obedecendo Iara voou - muito bem passarinho, mais alto. O gato chateado com Iara pulou na água, Iara foi para o fundo das águas brilhantes e soltou seu canto e encantou o gato. Iara levou o gato para casa e o pássaro para o ninho, fim."
  

"Drama, drama - DRAMA, até que você não suporte mais"


(O título do post é uma frase usada alguns anos atrás em chamadas do canal Warner para anunciar temporadas de suas séries classificadas como "Drama". Ulisses e eu morríamos de rir da apelação. A frase poderia ser usada para anunciar o livro de que falo aqui.)


***

Depois de várias semanas lendo a conta-gotas, terminei minha leitura de O Silêncio das Montanhas, de Khaled Hosseini (Ed. Globo Livros, tradução de Claudio Carina). A impressão que fica é a de que um novo termo precisa ser criado para classificar esse livro. Sugiro "drama dramático nível master" - pra que tanto sofrimento, Hosseini, meu filho?

Quem molhou as páginas de Caçador de Pipas com lágrimas descontroladas e  conheceu a história das mulheres retratadas em Cidade do Sol, do mesmo autor, já deveria esperar dramão no terceiro livro do cara. E eu esperava. Ainda assim, é de se perguntar quanta desgraça e tragédia cabem em menos de 300 páginas. Se escritas por Housseini, olha, o sofrimento transborda as margens, invade a contracapa e deixa o leitor meio cansado. Ao menos um sorriso, um fato feliz, nem que fosse em meio parágrafo? Nananina ninanão. Leia e lamente. Sofra, leitor, reconheça soluçando que o mundo é um lugar injusto. Ok, vá lá, acabo de me lembrar de duas frases felizes ali pelo capítulo um ou dois. Não deve haver mais do que isso.

Dado o recado de que o vale de lágrimas não tem fim, vamos ao que resta: a história não é ruim, alguns personagens são interessantes. E gosto da variedade de cenários (Afeganistão, França, Estados Unidos, Grécia) e de épocas (sei lá quantas décadas, umas seis, talvez). No entanto, a não ser que venha por aí mais um volume de sofrimento, fiquei com aquela sensação incômoda de personagens abandonados. A narrativa que vai e volta no tempo nem sempre resgata aquele personagem mais interessante, que some da história quando aparentemente tanta coisa ainda poderia acontecer com ele. Cheguei ao final do livro perguntando "e Fulano?", "como assim?". Li os agradecimentos procurando por um sinal de que a sequência será lançada no ano que vem para alegria da editora - porque, né, o menino é bom de vender livros. Não vi nada que indique sequência. Levando em conta os  personagens não tão interessantes, é uma boa notícia.

Não tenho nada contra histórias tristes, quem me conhece sabe. :-) Acho que beleza e tristeza rimam mesmo, muitas vezes. Dessa vez, contudo, bateu aquela sensação de que o drama se perdeu um pouco no vazio. Talvez a categoria "personagens que sofrem" não se sustente sozinha sem algo maior que o sofrimento apenas. Em Caçador de Pipas, por exemplo, a dor acarreta uma sequência de eventos transformadores, a história cresce. Em Silêncio, não. O sofrimento gera, adivinhem, mais sofrimento.

Ridícula que sou, chorei no final. Admito que tentei me conter pensando "não, não vou chorar com esse livro apelador, não é possível". Pfff, até parece que tenho chances. Chorei no momento mais tocante da história, quando a narrativa se aproximou daquele tom de Caçador de Pipas, aquele jeito de mostrar a beleza das coisas miudinhas. Quase perdoei Housseini pelas chacinas, abandonos, amizades despedaçadas, violência, crianças doentes e sozinhas, sonhos enterrados em um segundo de vacilo, guerra, solidão. Quase. Sequei as lágrimas rapidinho.

Asas


Minha filha tem asas, voa na maior parte do tempo.

Adoro seus passarinhos de asas compridas.




E a libélula...

... e o passarinho copiados a mão livre observando o dicionários ilustrado.

E seu jeitinho de sempre incluir um passarinho.

Quando eu disse que amei a crisálida e borboleta, ela me corrigiu: 
- Nãããão, mãe, é um Pokemon. Um Pokemon que vira borboleta. 

Cada vaso de flor de nossa casa já ganhou sua versão em lápis de cor.


Mas também gosto de seus desenhos mais... hidráulicos?


E adoro esse que classifiquei como "engenharia com poesia".


Digitalizar ou fotografar os riscos e rabiscos das crianças é uma ótima maneira de não perder aquilo que, cedo ou tarde, acaba indo pro lixo em sacolas de papel velho. Esse caderno da Amanda certamente ainda terá vida longa; se em algum dia não passar pelo crivo de alguma faxina, as asas serão salvas por aqui e pelas pastas virtuais de nossos HDs. E nem é por nada, não se trata de valor artístico de qualquer naipe: é só pelo olhar dela enquanto desenha, voando; é pela caminhada, tão linda.

***

Ontem Amanda pediu a deus que o trânsito ficasse um pouco melhor, porque aquela fila toda iria atrasar sua chegada na festa da amiga: "ai, deus, não deixa esse trânsito me atrasaaaaar". Era o caos em forma de lerdeza, filas longas demais, mesmo levando em conta o horário já normalmente complicado. No auge do meu mau humor, fui sincera: "Ai, Amanda, acho que se um deus com poder para mudar esse trânsito estivesse vendo isso faria o trânsito sumir, puf, de uma vez. Trânsito ruim é um monte de gente indo para o mesmo lado na mesma hora, só isso." Hehehe, minhas amigas a quem contei o episódio me censuraram carinhosamente "ai, Rita, tadiiiiinha, deixa ela sonhar um pouco". Bom, eu deixo. Mas a interferência de um deus no trânsito não entra nessa categoria, né. (E ela sabe, no fundo, que pode acreditar no que quiser - ora, e como seria diferente?) Ela sonha. E eu alimento, podem apostar. :-)

 
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