Capas e placas

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Lembra do cheirinho dos livros novos no início do ano letivo? Eu adorava os meus. O dia em que minha mãe chegava da livraria com os novíssimos volumes de Português, Ciências e até dos tais Estudos Sociais (os de Matemática eu deixava "pra depois"), eu me esbaldava folheando tudo (hoje imagino a "beleza" que deviam ser aqueles livros de Estudos Sociais em plena ditadura militar, ui). E como ninguém me incomodava quando eu estava lendo, eu me mudava para dentro da minha cabeça e ficava ali, conversando com aquele povo de dentro dos livros. Não havia limites para minhas viagens e lia os textos do livro de Português como quem descobria a oitava maravilha do mundo, podia mesmo passar horas naquele torpor, uma criança quietinha, olha que bom. (Na adolescência devo ter ficado quieta demais porque bem me lembro de minha mãe me mandando ler menos... eu, hein. Bom, vai ver eu andava muito amarela.)

Mas além de gostar de explorar da lição 1 à 30 antes da primeira aula, percorrer os mapas e descobrir palavras como platelminto, eu também gostava de olhar os livros, simplesmente. Achava-os lindos com suas capas brilhantes e coloridas, folhas limpinhas e cheirosas, esperando meus riscos. Até que a mesma mãe que trazia aquele tesouro para casa cobria tudo com papel madeira. Ah, que tristeza sem fim. Por quê, por quê, eu não cansava de perguntar. Para proteger, mas eu cuido, precisa durar o ano todo, mas fica feio!, não importa, humpf. Nunca vou entender o porquê da recusa de minha mãe em usar capas plásticas nos livros. Custava? Ora! E lá ia eu no primeiro dia de aula com a mochila cheia de livros iguais, pardos, meu nome escrito na capa feia com letras enormes e sem a menor arte. Eu acho que minha mãe devia bancar minha terapia, o que vocês acham?

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Ontem encapei, com plástico transparente, os livrinhos do Arthur, 4 anos (quase cinco, né mãe?), e aproveitei para folhear e cheirar todos, todos, todos.

Ele também já mexeu e remexeu e leu o título de todos eles:

- Jããã... ão... Jo... pé dê fei... Ahn!! JOÃO E O PÉ DE FEIJÃO!!!

- A r... pa nová.. nova do... não; a rô... ro... rôúpa nova do... im-pe-ra-dor .... humm.. ahn! A rôpá nova do imperador!! (roupa nova, filho). Isso!

- A via... ai, não sei. A viajar do Pinguim. Não. A via... (g com e, filho?) A viage... gem do Pin-go! A viagem do Pingo?? Ahuahuahauah!!!

Mas o que ele mais curtiu foi mesmo Maneco Caneco Chapéu de Funil.  Eu também! - "Maneco Caneco Chapéu de Funil pegou o paletó e vestiu". Ahhh, que bonitinho! Acho que a professora não vai se importar se eu assistir aula junto, só um pouquinho. ;-)

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Mas o melhor da volta às aulas fica mesmo por conta dos papos no carro a caminho da escola.

Ontem:
- Pai, o que significa aquela placa?
- Proibido estacionar, filho.
- Um "E" cortado no meio?!
- Isso mesmo. "E" de estacionar. Cortado porque não pode estacionar ali.
- Hum.

Hoje:
Diante do símbolo aí embaixo, deu seu veredicto:


- Proibido ir pra baixo!



Trânsito, imortalidade e borboletas

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Com a volta às aulas, meu intervalo de almoço perdeu uma hora. Hoje descobri que o trânsito no trajeto para a nova escola do Arthur não é lento. É tartarugante. Lesmoso. Lentíssimo. Mas ele ficou bem e tá valendo. O trânsito é ruim, mas a escola parece ser boa. A conferir.

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E eis que finalmente o vento soprou forte e a temperatura saiu da casa dos 40 - já estava ficando sem graça. Tudo é mesmo relativo e agora acho 32 graus o maior fresquinho. Agora é torcer para não chover na proporção do calor dos últimos dias. Sabe como é Floripa, né?

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Vi na TV que a ciência caminha a passos largos rumo à imortalidade do homem. Dúvida: e a imortalidade do planeta? Sim, porque se não vamos mais morrer, essa casa tem de durar bem, né não? Ainda acho esse papo muito esquisito. Ninguém vai morrer, ou só os escolhidos? Quem escolhe? Ah, é pra todo mundo? Mas, onde, minha gente? On-de?

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E aí me lembrei de um livro do Saramago, As Intermitências da Morte. Lá, a Morte tira férias em um determinado país e o caos toma conta do lugar. Na imaginação do Saramago, não morrer gerou até contrabando de moribundos que eram "extraviados" na clandestinidade para finalmente morrer fora das fronteiras do país de imortais. É que ninguém mais morria, mas continuava doente... E aí fico pensando: se a ciência de fato chegar lá, a gente deixa de morrer, mas continua egoísta, consumista e arrogante? Porque se mesmo sabendo que vai morrer, o ser humano não raro se esquece de olhar para o outro, imagine-o sabedor de sua condição de imortal: não seria um adiar sem fim, um tal de "amanhã melhoro" eterno? 


E antes que alguém me chame de amarga azarenta, recito: "É preciso que eu suporte duas ou três lagartas se quiser conhecer as borboletas", by Exupéry. Porque não é preciso ser Miss para lembrar d'O Pequeno Príncipe. Mais docinho que O Pequeno Príncipe? Não precisa, certo?

Shining hearts

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Temperatura: a lot of degrees
Céu: blue
Humores: not blue
Sensação térmica: melting
Solução: tchimbuuuuuummm
 
Trilha sonora: Jack Johnson
Back vocals: us
 
 
It seems to me that maaaaaybe,
It pretty much always means no
So don't tell me you might just let it go
And often times we're laaaaaaaazyy
It seems to stand in my way
Cause no one no not no one
Likes to be let down

E odes aos que se encontraram:
 
We can park the van and walk to town
Find the cheapest bottle of wine that we could find
And talk about the road behind how getting lost is not a waste of time
 

Uma certa Maria

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Muitos, muitos anos atrás, dei à minha tia um pequeno vaso com uma plantinha de pequenas flores amarelas. Ela recebeu, gostou e cuidou. Em minha última viagem de férias, há pouco mais de um mês, ela me entregou a foto acima. A plantinha ganhou floreira grande e enfeita seu quintal até hoje. E ela diz que as pequenas flores a fazem lembrar-se de mim todos os dias. Essa é a minha tia.
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Eu me lembro bem do Otacílio, com quem convivi por algum tempo em minha infância. Ele era o marido da minha Tia Maria, irmã da minha mãe, aquela tia mais próxima que a gente guarda no setor do coração reservado às pessoas mais queridas. Otacílio era um senhor de certa idade e se enquadrava perfeitamente na imagem que eu fazia de um avô, eu que não conheci nenhum dos meus. Então eu o chamava de vovô, gostava da brincadeira e acho que ele também gostava.

Durante vários anos eu praticamente morei com eles, porque passava toda a semana hospedada na casa dos dois, na cidade onde ficava meu colégio. Chegava por lá já no domingo à noite e só retornava para minha própria casa nas tardes de sexta-feira. Então eu me sentia com duas casas, um avô e praticamente duas mães. Eram regras demais, mas eu me virava bem.

Lembro de muitas coisas da época em que "semimorei" na casa da minha tia: das mangas muito doces que eu chupava após o almoço, dos banhos de cuia, porque sempre faltava água, do frio serrano, hoje impensável, que tomava conta da cidade de Areia, lá no brejo paraibano, e que me deixava cheia de preguiça de sair da cama, dos fins de tarde na pracinha em frente à sua casa, onde eu encontrava amigos e sonhava com um futuro grande, da deliciosa convivência com meu colégio (que eu amava verdadeiramente), do insuperável doce de mamão-verde com coco, da inesquecível Lourdes que cozinhava aquele feijãozinho delícia e, principalmente, do quintal impossível da casa da minha tia, uma ribanceira vertiginosa que descia mata adentro e me parecia cenário de filme de aventuras. Tenho certeza de que aquele jardim suspenso era habitado por ninfas e gnomos que trocavam muitas figurinhas com minha tia, em horas e horas dedicadas ao cuidado com as plantas.

E também me lembro da relação muito carinhosa que ela tinha com o Otacílio, certamente um dos casamentos mais felizes da família. Eles se casaram quando ele era já um viúvo e os dois não tiveram filhos juntos. Então eu sei que, em certa medida, ocupei também esse espaço na casa deles. E de lá, do meu recanto de sobrinha/neta/filha, eu observava aquela cumplicidade toda, meu velho pra cá, minha velha pra lá, não esqueça o remédio, tome aqui o seu casaco, onde deixei meus óculos, estão no meu bolso, deixe que corto suas unhas, não precisa levantar, eu busco pra você, não coma muito sal, sente aqui do meu lado, perdi a caneta, tome, fique com a minha. E era tanta TV e tanta palavra cruzada e tanta comida boa, tudo sempre com muito carinho e cafuné. Era, mesmo, muito aconchegante e me sinto muito feliz por ter tido mais aquele pedaço bom de harmonia em minha infância.

Quando Otacílio morreu eu ainda era muito nova, mas lembro que chorei muito em seu enterro. Chorei por minha tia porque, mesmo sem ainda poder imaginar quão grande e valioso pode se tornar um amor, eu já intuía que sua perda era imensa e muito dolorida. E eu entendo que ela não tenha percebido o tamanho da minha dor solidária, afinal eu não passava de uma pirralha magricela e descabelada.

Tia Maria tocou o bonde, manteve seu trabalho, seu amor pelas plantas, suas palavras cruzadas, seu companheirismo, seu abraço bom. Os anos passaram, terminei o colégio, mudei, mudei de novo, fui para longe, depois para mais longe. Tia Maria também se mudou, foi para a cidade onde mora minha mãe e hoje são as vizinhas mais gracinhas do pedaço. Não faz mais frio em Areia, Otacílio habita outros ares e não sei se outras crianças conseguem conversar com as ninfas que certamente ainda moram no desfiladeiro por trás da antiga casa dela. Mas Tia Maria continua única. É, de longe, a pessoa mais descansada, displicente, relaxada, distraída e engraçada que alguém pode vir a conhecer. 
 
Este post poderia se tornar ainda mais quilométrico, caso eu me dispusesse a enumerar as muitas ocasiões em que minha fofíssima tia perde as coisas, esquece as coisas, troca as coisas, muda as coisas, exagera as coisas e toma decisões baseadas no mais puro senso de falta de noção. E nós a adoramos assim, com toda a confusão que lhe é peculiar, porque não seria Tia Maria se ela não guardasse a agulha de costura enfiada no colchão como se fosse a coisa mais certa a se fazer. Não seria ela se não usasse vinte e cinco panelas para fritar um único ovo. Não seria ela se não usasse a faca como quem usa um garfo, não trocasse os remédios nas embalagens "para facilitar", não guardasse moedas na gaveta de talheres, não contasse piadas que ninguém entende, não abrisse a porta do carro no meio do trânsito, enquanto aguardamos o sinal verde, para "ir ali tirar uma foto". Muitos, muitos etecéteras. É, adoramos. Os feitos da Tia Maria rendem muita conversa boa. Mas o que adoro mesmo é sua voz mansa, sua fala lenta, suas histórias looongas, seu sorriso acolhedor, suas mãos muito macias, seus olhos lindos, seus vestidos floridos, tudo que a compõe e a faz pessoa boa de se ter por perto.

Hoje, especialmente, eu queria muito que Otacílio pudesse nos fazer uma visita. É que neste final de semana, Tia Maria completa 80 anos e não consigo nem mensurar o tamanho de nossa sorte por tê-la conosco tão cheia de vida. Há muito que comemorar, minha Tia Cebolinha. E muito que agradecer também. Porque você é presente, é generosa, é engraçada - e isso é muito importante - é ouvinte, é carinhosa, é amorosa, companheira e, como se fosse pouco, ainda faz doce de caju (é, eu sei, esqueci na geladeira, né? Sou sua sobrinha, olha aí). Então, Tia Batatinha, receba hoje meu beijo à distância, eu que estou aqui com dor de cotovelo porque não vou poder descer a rua para lhe dar um abraço em sua casa. Mas saiba que se eu pudesse, hoje retribuiria cada um daqueles abraços com que você me recebia nas noites de domingo. Se fosse possível, também, hoje eu pegaria a linha do tempo e a estenderia à minha frente; assim distribuiria ao longo desses últimos oitenta anos todo meu amor e minha gratidão pelo papel fundamental que você tem em minha vida e na vida de minha mãe. Quem sabe assim, espalhado por oitenta anos, você conseguisse olhar para o que sinto e entender que, mesmo que eu não telefone, meu coração está com você todos os dias.

FELIZ ANIVERSÁRIO! 80 ANOS, CARAMBA!! UAU! YUHUUUUUUUUUU!!!!!! VIVA VIVA VIVA!!!!

E não reclame comigo, por favor, hoje eu vou telefonar.
 
Um beijo grande de sua sobrinha-filha-neta, de seu sobrinho-genro, e de seus sobrinhos-netos-bisnetos,
 
Rita, Ulisses, Arthur e Amanda

Pequena enquete inquietante

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Outro dia fiquei de papo com minha amiga Rê e comentamos sobre algumas situações em que as mulheres, ao invés de serem vistas como sujeitos atuantes em um determinado ambiente, são vistas como parte integrante dele. Assim como um vaso. Daí resolvi fazer uma pequena enquete para saber se outros leitores e leitoras compartilham dessa impressão. É, na verdade, um rascunho de enquete, uma pequena brincadeira, então usem o formulário de comentários mesmo, tá? Vamos a ela.
 
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Em qual das situações descritas abaixo você, leitora, acha que figuramos como seres pensantes e atuantes na transformação do mundo? Ao leitor homem, pergunto: em qual das situações descritas abaixo você enxerga as mulheres como pessoas que dividem, em iguais condições, o mundo com você?
 

a) Nos salões de automóveis: mulheres em trajes sensuais "enfeitam o ambiente" e perpetuam o binômio machista mulher/carrão;

b) Nos sorteios de loterias transmitidos pela TV: modelos femininas sorridentes se balançam enquanto o apresentador lê os números das bolinhas;

c) No comercial de chinelos: homens avaliam quantos pares do produto são necessários para nos calar diante de suas condutas supostamente reprováveis;

d) Nos boxes da Fórmula 1: enquanto os homens se divertem e enriquecem, modelos femininas "enfeitam o ambiente";
 
e) No programa de auditório: mulheres dançam ao fundo, em trajes minúsculos, "enfeitando o ambiente";
 
f) A matéria de capa de uma revista, celebrando certo esportista famoso, anuncia: "ele é dono de uma gorda conta bancária e de um mulherão";

g) No comercial de cerveja... sem mais.
 
 
Dê seu voto. ;-)

O cinema frio e aquela cidade

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Respondam rápido: qual a melhor coisa de se ter a sogra em casa nas férias? Tic-tac, tic-tac, tic-tac - peeeemmmm! Tempo esgotado. Acertou quem respondeu "você pode ir ao cinema!". Tudo bem, também podemos ganhar flores. Mas vocês não precisam me julgar assim uma egoísta desalmada, que só pensa nos próprios benefícios. No meu caso, o melhor mesmo é a agradável companhia e os bons papos (ainda próprios benefícios? Paciência.). Mas ontem foi, sim, crianças na cama e ingresso na mão, fazer o quê.

Assistimos ao Sherlock Holmes, do Guy Ritchie - mas não vou falar do filme. Vocês já sabem que tem o Downey Jr. no papel do Holmes (beeeeem diferente do Holmes que habitava minha imaginação até ontem) e o Jude Law no papel do Watson (beeeeeeeeeeem diferente etc.). Mas eu estava com sono, então corro o risco de ser injusta com uma produção que até me pareceu bem boazinha, apesar de não ter me empolgado muito. Além do mais, tendo cozinhado os miolos durante o dia inteiro no calor de 38ºC, escolhi meu vestido mais curto, mas fresco e mais sem pano para ir ao cinema só para chegar lá e descobrir que o ar-condicionado estava a mil, deixando a sala a uns, vou chutar, 14 graus negativos (exagerada, eu?!). Quase morri de frio, quem mandou não levar um casaquinho. O Ulisses bem que se esforçou, abraços não faltaram, mas o frio estava mesmo de rachar. Então com sono e batendo o queixo não deu para apreciar a obra da forma devida, vocês me entendem.

Mas tem mais uma coisinha... a história do filme, obviamente, passa-se em London London. E fiquei ali viajando na maionese, vendo aquelas cenas na St. Paul's Cathedral, na Tower Bridge em construção, aquelas casas vitorianas e quase me esqueci de prestar atenção ao filme; acho mesmo que cheguei a sentir aquele cheirinho de cidade velha...  É que espero em breve escrever muitos posts sobre a capital inglesa. Mas tudo tem seu tempo e agora é tempo de aguardar. Não há nada definido, afinal. Apenas a vontade, um número de protocolo e um calendário que se arrasta. Por enquanto, só no cinema.

Deixa que eu pago

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Que tal um desses na traseira do carro? 

Hoje no caminho para o trabalho enfrentamos um longo engarrafamento causado por um engavetamento de cinco ou seis veículos. Não nos pareceu algo muito grave, apesar de temermos um pouco pelo motociclista que ainda estava lá, deitado no chão. Vi uma mulher sendo carregada em uma maca, mas ela me pareceu mais assustada que ferida e vários dos envolvidos no acidente me pareceram estar mesmo já avaliando o custo de toda aquela lataria avariada. Melhor assim, espero que minha impressão esteja correta. Mas comenta daqui, comenta dali, torcendo que não houvesse nenhum ferido grave, ficamos tentando imaginar quem pagaria o quê naquela confusão. Vale a lógica de que paga quem bateu atrás? Mas então a coisa ficaria meio no elas por elas... você paga o meu que eu pago o dele que paga o dela que paga o daquele outro e quem freou lá na frente não paga nada? É assim?

Aí me lembrei da lógica torta de um taxista que bateu na traseira do meu carro anos e anos-luz atrás. Naquele dia, a minha freada brusca me impediu de entrar no porta-malas do carro à minha frente que, por sua vez, freou para não atropelar uma pessoa. Nos segundos seguintes, o pedestre seguiu seu caminho cantarolante, a motorista do carro à minha frente xingou o pedestre, engatou a primeira e se mandou, e eu fiquei ali olhando meu parachoque amassado. O taxista que bateu em mim? Disse que a culpa era da mulher que tinha freado lá na frente. Entenderam? Não era dele que estava colado em mim como andam 90% dos taxistas que vejo por aí. Era da mulher que tentou não atropelar o pedestre. E eu paguei o conserto do parachoque amassado.

É, eu sei, a perícia e tal. Mas um bêbado já tinha batido no meu carro duas semanas antes e eu tinha me incomodado um monte com o idiota do policial que registrou a ocorrência e, de posse dos meus dados pessoais e endereço, teve a cara de pau de ir até minha casa (!pasmem!) para me dar cantada barata e arrastou o quanto conseguiu as tratativas que levariam o bêbado a arcar com o prejuízo. Então quando aquele taxista metido a espertalhão olhou pra mim e disse que ele não tinha culpa nenhuma, a figura desagradável daquele policial babaca passou pela minha cabeça e pensei "ah, não, deixa pra lá".

E enquanto falávamos dessas coisinhas hoje, assistimos à fila que se formou na pista que seguia em sentido contrário ao nosso. Não, não havia outro acidente ali. A gigantesca fila se formou porque todos os carros que passavam pelo engavetamento diminuíam a velocidade até quase parar, atrasando que vinha atrás, só pela curiosidade de ver carros amassados e pessoas feridas. Não somos uma espécie peculiar?

 

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