15 de maio de 2012

Boletim


Hoje meu filho trouxe para casa o primeiro boletim de sua vida escolar. Em meio aos parabéns pelas ótimas notas, fico pensando por que cargas d'água precisamos dar notas para avaliações de crianças com sete anos de idade. Não seria essa a fase de estimular a curiosidade e despertar a paixão pelo conhecimento? De tornar a escola um lugar divertido por excelência? Sei não, estou amadurecendo pensamentos acerca do tema, mas me pergunto se plantar a semente da ansiedade e da competição tão cedo não pode mais atrapalhar que ajudar. Sob o pretexto de "preparar para o mundo competitivo lá fora", temo que a escola, na verdade, só contribua para manter o tal mundo competitivo do jeitinho que ele está. Não seria mais produtivo cultivar pequenos amantes das descobertas pelo prazer das descobertas em si e não pelo desempenho em testes que, ao meu ver, chegam cedo demais em suas vidas? Não estou bem certa se a maioria das crianças nessa idade têm maturidade emocional para lidar com a ansiedade que inevitavelmente cerca um sistema de avaliação pautado em notas. O que estamos testando afinal? Os professores alegam que a avaliação contínua (adotada pela escola de meus filhos, com testes praticamente todas as semanas) permite aos professores manter um controle muito preciso do desempenho das crianças. Acredito, não questiono isso. Questiono o sistema de notas que gera uma ansiedade a meu ver absolutamente desnecessária nessa idade. Penso que avaliações podem ser desenvolvidas sem tanta pressão por resultados. Em nosso sistema educacional atual, a segunda série do Ensino Fundamental é o momento em que as crianças passam a ter contato mais direto com disciplinas fascinantes como Ciências, Geografia ou História, entre outras. Não seria um pecado vê-los mais preocupados com o boletim que com os conteúdos em si? Nem digo que isso esteja ocorrendo agora, não tenho elementos para fazer tal afirmação, apenas temo que isso passe a ocorrer muito em breve. Já vi crianças reclamando por não terem tirado a nota máxima, mesmo tendo tirado uma excelente nota. Sei não, tenho a impressão de que isso não combina com eles. 

Posso estar equivocada e este pequeno post é um convite à reflexão. Gostaria de saber como funciona o sistema de avaliação em outras escolas do Ensino Fundamental por aí. Estou procurando chifre em cabeça de cavalo? 

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14 de maio de 2012

Os planos e as cordas



Vira e mexe Ulisses vem com aquela conversa do barco. Que um dia viajaremos pelos mares por aí. Hoje afirmei que, tudo bem, eu topo. Com uma condição: deixaremos uma corda prendendo o barco à nossa casa. Uma corda bem grande para que a gente possa ir bem longe, o quanto ele quiser. E para que a gente possa voltar em segurança se algo der errado, tipo, se nublar. Ele me olhou com aquela cara. Aí eu disse:

- Você sabe que eu vou, não sabe?

E ele disse:

- Claro!! Quando a gente estiver em alto-mar eu removo a mordaça e as cordas que estavam te amarrando e digo "ah, amor, que bom que você veio".

São uns planos aí que a gente tem.

***

Adoro saber dos planos dos outros, assim como adoro alimentar os meus. Os favoritos são os radicais, como largar o emprego (ainda que temporariamente) e sair pelo mundo; ou sair pelo mundo, simplesmente; ou mudar de país, nem que seja por um tempo determinado, para experimentar outros olhares. Tenho alguns amigos nessa vibe agora e acho que eles estão vivendo partes importantes de suas vidas, torço por eles. Outros já embarcaram e ainda saboreiam o gostinho que é lançar-se no mundo sabendo que isso intensifica muito nossa percepção do que é estar aqui. 

Ainda me recordo do frisson que era planejar a mudança, do friozinho na barriga que vem com a decisão de abrir mão do bom salário. Ou embarcar em uma viagem longa apenas com metade das pontas amarradas. Botar à prova a fluência na língua estrangeira, com a cara e a vontade. É muito bom. É vibrante, instigante. Claro que há milhares de modalidade de planos ousados que não necessariamente envolvem passagens e malas. Minha loucurinha atual tem mais cara de paredes que de mares, e nem por isso me excita menos. É Ulisses que vem com esses papos de ir por aí, sabe. Gosto dessas conversas que espicham a vida lá pra frente, então imaginamos o céu impossível que poderemos ver da popa. Ou da proa, sei lá. Antes disso ainda há muita terra para a qual pretendo arrastá-lo e vou ganhando tempo à espera de que o Amir Klink que mora em mim dê o ar de sua graça. 

A essas alturas vocês já perceberam que estou escrevendo sobre nada. Estou só alimentando minhas caraminholas enquanto seu lobo não vem. De vez em quando levanto voo e saio por aí, sem cordas, com meus delírios mirabolantes, minhas viagens que podem ou não se converter em fotografias um dia. Quem sabe. Na minha última aula de francês, aprendi uma expressão que traduz dois ou três saltitos que já dei em outros tempos. Pretendo fazer bom uso dela, ainda. Ah, pretendo: jeter tous par la fénêtres*. Em francês fica ainda mais tentador, obviamente. 

***

Alguém aí com planos mirabolantes? Vou revelar um: planejo arrumar o quarto da minha filha no final de semana! Adrenalina é isso aí.


* Algo como chutar o pau da barraca, enfiar o pé na jaca, jogar tudo pro alto, essas coisas sensatas e bem planejadas. ;-)


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13 de maio de 2012

As sapatilhas de porcelana


Quando fiz quinze anos ganhei um pequeno par de sapatilhas de porcelana que enfeitou a parede de meu quarto nos anos que se seguiram. Quando me mudei da casa de meus pais, o enfeite ainda ficou na parede pelo tempo que minha mãe julgou conveniente. Aos poucos ela foi se desfazendo daquele e de outros badulaques, depois que ficou evidente que eu não combinava mais com aqueles lacinhos ou com os bichos de pelúcia; depois que ficou evidente que eu dificilmente voltaria a morar ali, como de fato nunca aconteceu. Vários itens foram doados para outras crianças, outros tomaram rumos que desconheço. Assim como desconhecia, até bem pouco tempo, o rumo que tinha tomado o par de sapatilhas.


Duas semanas atrás, quando estive em minha cidade natal, uma grande amiga de minha mãe me contou que tinha recebido as sapatilhas das mãos dela. E que ainda as tinha, guardadas em algum lugar de sua casa. Disse também que gostaria de que eu as recebesse de volta para repassá-las a Amanda, agora às voltas com aulas de ballet. Eu sequer me lembrava das sapatilhas até minha amiga tocar no assunto; a visão delas, contudo, jogou-me imediatamente no meu antigo quarto e em lembranças da adolescente que fui.  Aceitei a oferta, obviamente, e contaria do efeito que o gesto teve em mim se eu soubesse como. Sei que agora o parzinho branco e rosa integrará o cenário da infância da Amanda  pelo tempo em que ficar no quarto dela. Ela adorou. 


Não faço ideia de quem me deu as sapatilhas na primeira vez. Mesmo assim sou grata, talvez mais do que quando as recebi anos atrás. Sou grata a minha mãe por tê-las entregue à sua amiga; e a esta por tê-las guardado por tanto tempo e pelo sensibilidade em me passá-las agora. Não é maravilhoso ganhar o mesmo presente duas vezes, com anos de intervalo, e ver como a peça se valorizou tanto que nem podíamos supor? Eu acho. Acho um luxo mesmo, desses que têm o valor de mão estendida, de abraço solidário. Do melhor tipo de presente. Daqueles que a gente nem sabe como agradecer.



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11 de maio de 2012

Band-aids


As duas últimas semanas não foram as melhores da minha vida. Desde a morte de minha tia tenho estado "meia-pilha". Tenho andado mais triste que aqueles três tigres que comem trigo. Tenho me esforçado (vide frase anterior) para não deixar a peteca cair, então mereço os parabéns. Obrigada. A virada abril/maio me ofereceu uma sequência de baques que pôs à prova minha capacidade de lidar com a tristeza sem despencar barranco abaixo. Sou muito grata pelas crianças, que tornam tudo tão mais fácil, e aos amigos que não economizam palavras e gestos de pura doçura. Faz muita diferença sentir a empatia do outro, receber aquele telefonema, aquele e-mail ou mesmo um rápido, porém doce, tweet. Ô, gente, vocês são todos lindos.

Faço sala, converso, dou risada. O esforço, sabe. O que quero, porém, é que seja inteiro. Sei, já aprendi, que a dor tem seu tempo, mas quando se acumulam as surpresas ruins a gente sente urgência. Estou com pressa de me sentir bem de novo. Só que não é exatamente assim que funciona. Entrego-me, portanto, às possibilidades: um dia por vez, uma alegria pequenina aqui, um papo leve ali e daqui a pouco vou estar de novo em paz. 

Uma semana após minha tia ter ido embora perdemos um colega de trabalho. Não era uma pessoa com quem eu tinha muito contato além dos bons dias e boas tardes nos corredores e elevadores, mas seu desaparecimento repentino foi uma rasteira forte em mim e em muitos onde trabalho. A morte de alguém jovem é algo esquisitíssimo. De alguém jovem e querido por muitos, que vai embora de forma trágica, é algo que não sei nomear. 

Hoje minha casa está mais cheia e barulhenta e acho bom. Por causa do dia das mães a família de meu marido está reunida aqui. Dia das mães - não seria exatamente a data ideal para o calendário me apresentar agora, mas vamos tentar. Por causa desse mesmo dia das mães já ganhei das crianças uma coleção de desenhos onde apareço fina, elegante e sincera. Pensei em usá-los como band-aids da alma. Acho que vai funcionar.

Eu e Amanda, by Amanda.

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10 de maio de 2012

Bandidos


Amanda está gripada e adorou o sabor do remédio. 

- Mãe, quero mais remédio.
- Não pode. Remédio tem que ser na dose certinha. Se for na dose errada faz mal e é bem perigoso.

E ela, que assimilou a ideia de que bandidos são pessoas que fazem coisas erradas:

- Os bandidos tomam remédio errado, né mãe? Aí a polícia vai e dá o certinho. 


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8 de maio de 2012

As três marias na janela


No domingo passado minha filha Amanda e eu compramos vasos para nossa janela da cozinha.

 
A violeta que a vizinha me deu.


 A plantinha que Tia Maria plantou e que eu trouxe comigo há pouco mais de uma semana.

A plantinha que filhos e marido me deram quando voltei. Sugestão da filhota de 4 anos. <3



Ao contrário da minha tia com dedos verdes, não levo muito jeito com plantas, ainda que seja fã delas. Mesmo assim, vou cuidar dessas. Acompanhemos. Tomara que eu não afogue nenhuma ou deixe alguma morrer de sede, porque gosto muito mais de minha cozinha agora. Muito mais.


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7 de maio de 2012

1957


 Minha mãe, aos 17 anos.



Será que tinha planos ou que suspeitava de metade do que experimentaria em seus setenta anos de vida? A quem gostaria de mostrar essa foto? Será que, como eu na mesma idade, acreditava que o mundo lhe pertencia? Ou vivia um dia por vez esperando resignada o que o amanhã trouxesse? 

Ontem sua neta pediu doces "do pote da vovó Berna". E isso me basta para pensar no tanto que ela nunca soube, nunca viu. 

Essa foto estava guardada entre outras na casa da Tia Maria. Ninguém da família tinha visto, minha mãe nunca me falou dela. No verso há uma dedicatória dela para minha tia, "da mana que a estima" - a cara dela, "mana que a estima". E ouço com os olhos, a caligrafia dela é como a voz fazendo eco. E acho que está linda na foto. 

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