Presta atenção, Arthur

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Simbad está em apuros! Ele e sua tripulação estão hipnotizados pelas mágicas sereias de Tártaro, criaturas do  mundo das águas que enfeitiçam os homens com seus cantos e encantos malignos, conduzindo-os à terrível sina do afogamento... Tchan tchan tchan tchan.... A destemida Marina, por ser mulher, passa incólume pelo canto traiçoeiro das sereias d'água e assume o timão do navio! Yes! Ela conduz a gigantesca embarcação pelas águas turbulentas do oceano de Tártaro e, com inigualável bravura, salva Simbad e vários outros tripulantes da morte certa e...

Do sofá, Arthur, do alto de seus quatro anos, com voz de desdém, declara:

- Mas mulher nem sabe dirigir barco...

No outro sofá, a voz me falta. 

No tapete, Odisseus salva:

- É claro que sabe, filho, olha aí!

E Marina segue salvando os palermas abobados por causa das sereias. Viu, Arthurzinho? 

Eu, o Urtigão

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Não tenho nenhum orgulho disso, mas eu tenho mau humor. Vem do nada, de vez em quando. Às vezes passa rapidinho com uma xícara de café. Às vezes azeda meu dia inteiro.  

Hoje estou de mau humor. Não há motivos, nada aconteceu. Se há motivos para alguma coisa são para risadas e vivas. Mas não, estou emburrada.

Não foi por Avatar ter perdido o Oscar,  não, não. :-) Ainda não vi Guerra ao Terror, mas quem viu diz que tá tudo certo. Também não estou chateada pelo pessoal do meu trabalho ter oferecido um curso de maquiagem para comemorar o dia da mulher. Eu entendo. Eu percebi que queriam ser gentis. Mas, ai, sabe? Bom, deixa pra lá. 

Aí eu já estava daquele jeito, mas meu filhote ainda saiu correndo no estacionamento movimentado da escola e o perdi de vista por longos dois segundos. Pronto, o coração quase parou. Credo, que drama. Nem foi nada, sabe? Mas o fato é que aí emburrei de vez. 

Passei aqui só para dizer que não estou me aguentando. Não é TPM, não é a sétima casa de Marte em conjunção com a quinta casa de Saturno, não é nada. É só chatice. Não sei como vocês me aguentam. Aff. 

Comemorando

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O sexo frágil


Parabéns!


Você já pode sair à rua sozinha, em qualquer horário, sem ter medo de ser assediada ou violentada;

você é senhora de suas escolhas sexuais, assim como os homens, sem ser tachada de "fácil" ou "vagabunda";

você jamais será assediada em ônibus e vagões de metrô lotados;

você não precisa ser bonita e se vestir superbem para ser vista como profissional respeitada - tudo que importa é sua capacidade intelectual;

todos os homens já entenderam que os filhos são deles também e por isso não há mais litígios quanto ao pagamento de pensões alimentícias;

se você ficar grisalha, assim como com os homens, vai ser vista como charmosa, não como descuidada;

todos os homens já entenderam que se dirigir a uma mulher desconhecida na rua com termos como "gostosa" não é elogio.

E por aí vai.

* * *

Para ler e pensar:

texto da Marjorie (2009) - infelizmente, a Marjorie parou de blogar (pequeno adendo: de minha parte, retiro os palavrões para não dar um tom violento ao texto);
blog da Lud, todo dia (ela viajou, mas volta já)


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Pequena atualização ortográfica: desculpas, língua portuguesa. Já corrigi. (Vocês viram? Não? Ufa! Sim? Foi mal.)

Kensington

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Uma viela qualquer em Kensington

Kensington é uma área de Londres cheia de atrativos e que comporta vários humores: há lindezas como o Holland Park, com seus esquilos e pavões e um maravilhoso jardim japonês, e Kensington Gardens, para caminhadas cheias de verde e uma bisbilhotada nas moradias reais, no antigo endereço da finada Diana; há museus logo ali em South Kensington - o Natural History Museum e o Science Museum, por exemplo, programa bom para grandões e pititicos - todos com entrada franca; restaurantes e cafés para todos os bolsos e apetites; mercados, lojas de bugigangas e antiguidades; prédios e construções que datam do século XVII lado a lado com modernices do século XX; é vizinha do Hyde Park com suas generosas áreas de gramado esperando os pezinhos nervosos das crianças, seus patos, seu lago, seus longos passeios, sua imensidão; e é também do ladinho da cosmopolita Notting Hill. 

É em Kensignton que também fica a escola onde Odisseus e eu faremos nosso curso, então tudo parece perfeito. Porque é lá que ficaremos nos meses de abril e maio, e é por lá que, na maior parte do tempo, bateremos nossos cinco pares de pernas (eu, Odisseus, as crianças e D. Tereza, minha sogra, desde já eleita membro mais animado do grupo), em busca de nada, apenas curtindo a presença um do outro e a alegria de se poder usufruir de um lugar legal, sair da rotina, passar frio, eh, quer dizer, curtir um climinha diferente.

Estamos muito gratos a Mila que deixou a companhia de seu marido e seus filhos em plena tarde de sábado para ir visitar o apartamento que queríamos alugar. Com seu aval, fechamos negócio.

Então, se tudo der certo, e há de dar, é para lá que vamos. 

Lei de Murphy aplicada à fila do caixa de supermercados

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Caixa do supermercado para mim, logo após eu descarregar meu carrinho na esteira dela:

- A senhora se importa em esperar uma troca de operador rapidinho?

Eu não me importo com a troca de operador, eu me importo por ela não ter me avisado antes de eu descarregar o carrinho. É pedir muito? Porque aí eu teria escolha, né? E agora, responder o quê? "Sim, importo-me, não saia daí"

Na boa, se fosse só hoje... mas eu juro por nossa senhora protetora dos blogueiros que toda vez que estou na fila do caixa alguma coisa que atrasa o progresso acontece: é hora de trocar operador; o cliente à minha frente resolve pagar boletos e carnês (alguns supermercados recolhem pagamento de contas diversas, sei lá como é isso); o cliente à minha frente descobre que o preço está diferente do que consta na prateleira e, claro, lá vai o moço do supermercado conferir láááááá na seção de frios; o cartão do cliente à minha frente não passa; o operador, com o crachá de "estou aprendendo", não conhece os códigos das frutas que o cliente à minha frente quer comprar; o cheque do cliente à minha frente precisa ser consultado; problemas não identificados acontecem com o atendimento ao cliente à minha frente que deixam todos - caixa, cliente à minha frente e eu - com cara de banzo. Nesses momentos, reviso internamente todos meus exercícios de paciência. Quando finalmente o cliente à minha frente vai embora, tudo se repete comigo. 

Portanto, se algum dia você estiver na minha casa e eu disser: "vou dar um pulinho rapidinho no supermercado e já volto", não acredite. Porque eu vou demorar. E se você se encontrar comigo na fila do caixa do supermercado, na boa, mude de fila.

O Oscar, uma enfermeira ruim e um Coelho confuso

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Com dez filmes concorrendo ao prêmio de melhor do ano, e eu tendo assistido a apenas dois deles, não deveria abrir minha boca para dizer um "a" sobre as vontades da Academia este ano. Mas sabe como é que é, só de brincadeirinha, pode. 

Até ontem, os "votos" aqui de casa eram para o único filme selecionado que tínhamos visto, Avatar. Melhor filme, maquiagem, efeitos, defeitos, aliens gracinhas, melhor floresta. Imbatível. Aí  ontem fomos à locadora (Arthur locou Toy Story 2) e nós, assim do nada, catamos Distrito 9 na prateleira. Pronto, findou-se a unanimidade.

Avatar continua o mais lindo e azul. Ponto parágrafo.

Distrito 9 é mais "realista", se é que esse termo pode ser usado quando se fala de filmes de ficção científica. Pandora brilha e tem chuvinha encantadora de sementinhas incandescentes, mas a favela de Distrito 9 vai mais forte no nosso estômago. (Falando em estômago, ao contrário de Avatar, que pretendo rever muitas vezes, jamais assistirei Distrito novamente, assim, bem a la Scarlet. Porque todo aquele sofrimento e toda aquela angústia não precisam ser experimentados duas vezes, vocês hão de concordar.) 

Foi muito bom ter visto a história dos Prawns que desembarcaram na África do Sul e foram logo transformados em favelados, porque, no fim das contas, se Avatar não levar o prêmio (que, afinal, é só uma invenção para vender mais filmes) por causa de Distrito, não vou ficar com raivinha do tipo "não é possível!". Porque é possível, sim. Distrito é um filmaço, mas sem afagos. Tudo dói. E digam-me se as cenas dos alienígenas catadores de lixo não nos parece tão desconfortavelmente familiares, causando aquela vergonha horrorosa por conseguirmos ignorar boa parte de nosso mundo com tanto conforto? Sabe o que filme faz? Olha nos nossos olhos e pergunta: e se o jogo virasse e você mudasse de lado? Hã?

Não deve ser à toa que os Na'vis nos deixam com vontade de "quero mais": Avatar é docinho. Quanto a Distrito, suspendi a respiração no primeiro terço do filme e acho que só respirei de novo quando tudo acabou.

Agora, se nenhum dos dois ganhar, aí vou fazer bico. De brincadeirinha, mas vou.

* * *

Tá, esse era o post que estava na minha cabeça, mas vou fazer um adendo para registrar fatos relevantes do dia (vocês sabem, relevante para meia dúzia de pessoas, mas ainda assim).


Em primeiro lugar, hoje foi um dia importante na saga Dentes do Ulisses. Meu marido encontra-se neste momento (noite de sexta-feira) deitado em cama esplêndida, recuperando-se de uma cirurgia para correção das gengivas e das raízes de alguns dentes. Acho que é isso, alguma coisa nesse sentido: corrigir a gengiva para abrigar a raiz, ou cortar a raiz por causa da gengiva, ou as duas coisas juntas de uma vez só ao mesmo tempo. 

Coitado. Boca inchada, gengiva costurada, cara pálida, só líquidos e cremosos, não caminha, não pega em peso, não conversa muito, um comprimido, outro comprimido, não fala, não ri, não não não. Eu, enquanto enfermeira, sou ótima costureira: fui acompanhá-lo ao consultório do cirurgião-dentista e, nervosa demais para ficar na sala de espera, resolvi bater perna na rua ao lado, aproveitar para ir ver umas coisas para a viagem. Aí volto ao consultório duas horas depois (a cirurgia, segundo me disse a assistente do dentista, duraria cerca de duas horas e meia) e o convalescente já estava lá, tadinho, compressa na boca, sentadinho, esperando por mim que iria trazê-lo para casa, de cortar coração, vejam que megera. Ele lá me esperando e eu caminhando na calçada. Aff. Mas prometo fazer sopinha. Amanhã, porque hoje o grogue só dorme. 



E em segundo lugar, compramos as passagens. Agora preciso convencer o Arthur a não se preocupar, o Coelho da Páscoa vai achá-lo onde ele estiver. 

Todo dia

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Nossa casa é um templo cheio de rituais. Às vezes, não nos damos conta do exato momento em que eles são celebrados pela primeira vez. Em outros casos, percebemos de imediato que aquele gesto será incorporado à rotina e será repetido como um caminho seguro, um passo certo. Hoje, são pedacinhos bons de rotina que enfeitam nossos dias como se fossem chocolate granulado. Amanhã, sei que serão lembrancinhas bailarinas em nossas ideias, trazendo sorrisinhos silenciosos aos nossos lábios, como quando sorrimos sozinhos por causa de um pensamento bom que chega enquanto estamos no trânsito.

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Celebremos nossas pequenas cerimônias:

Arthur e Amanda gostam de "escrever" cartinhas para nós enquanto estamos no trabalho. Com a ajuda da Tia Neia, desenham nossa família, suas mãozinhas, um sol, uma planta; então o Arthur escreve em letras grandes e errantes: "DE ARTHUR E AMANDA PARA PAPAI E MAMÃE", todos dobram o papel em quatro partes e colocam na caixinha do correio, no portão da frente. Todos os dias, no horário do almoço, assim que saímos do carro, Ulisses vai até a caixa do correio e, voilá! É certo que às vezes também há contas a pagar, mas as cartinhas são nossas correspondências oficiais.

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Amanda gosta de servir a farofa na hora do almoço. Para todo mundo. Você pode se servir sozinho de feijão, arroz, carne, pegar sua salada. Mas a farofa quem põe no nosso prato é a Amanda. Aqui em casa é assim.

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A hora de dormir, vocês já sabem, é o reinado das fábulas e historinhas. Recentemente, foi criado o ritual secundário da escolha do livro, porque Amanda já participa e também quer escolher, cheia de vontades e palpites para, em seguida, ignorar a história escolhida enquanto faz da cama um pula-pula.

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A primeira escovada nos dentinhos da Amanda é na base do "eu sozinha, mamãe!". Segue-se uma boa comilança de pastinha sem flúor e depois, só depois, eu escovo de verdade. Sempre assim.

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Não há pote de iogurte aberto em nossa casa que não tenha sua respectiva tampa lambida, como papai, preocupado com os bons modos, ensinou. Eles nunca mais esqueceram. Abrem, lambem a tampa, tomam o iogurte. Uma lindeza.

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Gosto de pôr surpresinhas na lancheira do Arthur. 

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No carro, a caminho da escola, Ulisses, Arthur e eu brincamos de adivinhar histórias. Recomendo:

Eu - Minha vez! Pronto, pensei.
Ulisses - Hum.. Tem animais?
Eu - Tem.
Arthur - Tem pessoas?
Eu - Não.
U.- Tem robô?
Eu - Não.
A. - Tem animais grandes?
Eu - Não.
U. - É de livro?
Eu - É
A. - É fábula?
Eu - É.
U. - Tem animais pequenos?
Eu - Tem.
U e A- Tem passarinho (sapo, lagarta, etc)
Eu - Não, não, não...
U. - Tem formiga?
Eu - Tem.
A. - Ahn! (respiração suspensa) Tem cigarra??
Eu - Tem...
A. - Já sei! A Cigarra e a Formiga!!
Eu - É!
A. - Pai, acertei!! YES!! Agora é minha vez...

Assim seja. 

 

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