We will not grow old


De vez em quando, no meio de um dia especialmente corrido, a gente pensa "ah, quem me dera ao menos uma tarde de folga para botar aquelas pendências mais ou menos em dia!". Hoje tive uma tarde dessas. Fiz as unhas - pendência da maior importância - dei uma passada na livraria, comprei manteiga. Depois fui pra casa. As crianças na escola, você resfriado. Sua tarde de folga veio a calhar, seu corpo pedia repouso. Mas a calhar mesmo foi o fato de essa bonança ter vindo na véspera do seu aniversário. A gente pôde começar a comemoração um tanto mais cedo, fazendo algo que a gente faz muito bem, ficando juntos. Tão bom ver que gosto cada vez mais desse lance aí, não importa o número de anos que compartilhamos. É como vinho, só melhora. Como os anjos estavam todos dizendo amém, passou Friends na TV, bem aquele episódio antológico do famoso "break". Friends foi ao ar pela primeira vez no ano em que nos conhecemos. Dez anos depois, algum tempo depois do nosso próprio break, compramos a última temporada e rimos juntos das velhas piadas vencidas. Hoje olhei para Ross & Rachel como quem observa um amuleto. Nós conhecemos todas as falas, uma pequena amostra do conforto que nos cerca. A gente se sabe, meio de cor. E a gente também sabe que sempre há descobertas, a gente deixa que elas venham. E a gente se aprende de novo e se redescobre, tal qual desejamos lá atrás. A gente envelhece e rejuvenesce e se reconhece. Dia desses você falou daquela canção da Lenka, quando ela diz que "we will not grow old"; você disse que é bem assim, ainda somos aqueles, da faculdade. Acho que entendi. Claro que mudamos, mas trazemos aquela vontade no peito, todos os dias desse agora. E ainda vibramos com uma simples tarde de folga que nos permite ficar grudados vendo um seriado velho na TV. Chamo isso de vencer na vida.

Então você sabe, estar com você ao longo dos anos é minha fonte maior de alegria. Seu aniversário é um pretexto maravilhoso para sublinhar isso aí. Te amo mais e mais. Seja feliz, seu lindo.  

Azul


Durante algum tempo, Belo Horizonte foi para mim a cidade onde Ulisses morava. Não era a capital de Minas ou a terra daquele povo simpático, mas o lugar para onde havia se mudado aquele menino com quem namorei na faculdade. Parecia um ciclo encerrado, o mineiro que havia voltado para casa. Isso foi antes de ele trocar Belo Horizonte por Floripa, claro, e a gente se entrelaçar de novo. Aí BH voltou a ser só a capital de Minas mesmo.

Com a mineirice, Ulisses trouxe o Cruzeiro para perto de mim. Não muito, que minha relação com futebol não é lá esse romance todo, vocês sabem - salvo em Copas, quando me rendo, facinha. Já o campeonato brasileiro não costuma tomar nenhuma tarde de domingo em minha vidinha afutebolística. Acontece, porém, que quando derrotou o Grêmio de virada na semana passada, o Cruzeiro ficou a um passo do título brasileiro (de novo). A mineirice de Ulisses aflorou com força. Foi um tal de reservar passagem e comprar ingressos antes de terminar a frase "Vamos para Bel..?". Quando dei por mim, estava dentro do Mineirão. O brasileirão, olha só, tomou de mim um final de semana inteirinho.

Não posso dizer que revi BH. Foi uma viagem corrida, no melhor estilo vim, vi pouco, venci. ;-) Do pouco que observei da janela do carro ou do curto passeio pelo bairro onde ficamos, vi uma cidade ainda maior do que eu me lembrava, mais barulhenta, mais agitada, mais mais mais. BH tamanho GG. Passamos metade do sábado no avião, metade da tarde tentando almoçar e o resto do dia paparicando meu cunhado, de quem gostamos demais. Ainda consegui dar um rápido abraço em uma amiga (mas um abraço bem dado: com café e pão de queijo recheado no Café com Letras do CCBB, anotem aí, delicinha - a meia hora mais bem aproveitada de Belzonte), mas há tantas pessoas que eu gostaria de ter encontrado em BH, que nem vou contar essa viagem como visita social. Continuo devendo.

O domingo pertencia ao Mineirão e para lá nos dirigimos no início da tarde. Escolhemos um restaurante em frente ao templo, digo, ao estádio (esse negócio empolga) e lá tive um gostinho da farra que vocês, amantes do futebol, vivem a cada ano/campeonato/fim de semana. O restaurante estava tomado de azul. Mulheres e homens smurfs entoavam seus hinos como se estivessem prestes a entrar no campo de batalha - ou a seguir atrás do trio elétrico, dá na mesma.

Para os dois minicruzeirenses de nosso grupo, tudo era festa. Cantavam sem saber a letra, batiam palmas. Arthur e Amanda nos acompanharam na fuzarca e estrearam em estádios de futebol em tarde de gala. Não de galo - oops, desculpa. Com a barriga cheia e a chuva despencando do céu, vestimos nossas lindas capas de chuva (o moço das capas de chuva deve ter ganhado um bom dinheirinho) e atravessamos a avenida. Chegamos de sapatos encharcados ao palco do inesquecível 7 a 1.  E aí dou o braço a torcer e admito: um estádio de futebol lotado é um trem lindimais, sô. Para todos os lados, azul azul azul. (Parênteses para registrar que é muito legal quando a torcida entoa o hino nacional com ênfase em "a imagem do Cruzeiro resplandece" - de arrepiar.)

Arthur não perdeu nenhum lance. Amanda se assustou com o barulho no primeiro gol. Instruída pelo pai, berrou forte no segundo e já pegou o jeito (fez uma carinha impagável quando a torcida xingou o juiz, by the way). O jogo foi emocionante, com o Goiás ameaçando adiar a festa até o último minuto. E não sei se a torcida que berrava ter o melhor goleiro do Brasil está com a razão, mas certamente foi ele, o goleiro, quem garantiu nosso grito de tetra no final. O Goiás quaaase marcou, mas o Cruzeiro se segurou e o estádio explodiu. Se para mim a coisa foi divertida, imagino para quem se envolve de verdade, torce o ano inteiro, vai sempre ao estádio. Bom, meu pé parece ser quente, tamos aí, é só convidar.

Deixamos o estádio e fomos visitar um velho amigo do Ulisses - atleticano. Disse que nunca antes na história daquela casa tantas camisas azuis, em noite de título! O mundo não é uma graça? :-)

Nesta quarta-feira tem mais, final da Copa do Brasil. No mesmo palco, um clássico que promete alguns infartes. Daqui do meu canto de torcedora eventual, acho que dá Galo, para alegria dos muitos amigos atleticanos - tá meio óbvio, né, já com dois gols de vantagem. Claro que tudo sempre pode acontecer (vide 7 a 1), mas acho que o azul hoje vai mesmo ceder lugar ao lado de lá. Vumbora.

De resto, agora o Mineirão não é mais só o campo dos gols da Alemanha. É o campo do primeiro jogo que meus filhos viram, do primeiro título que vi de pertinho. O campo que, quem diria, sequestrou meu final de semana - tudo isso ao lado do mineiro que um dia trocou BH por Floripa, ainda bem. 


Dos posts invisíveis


Vocês não sabem, mas ainda escrevo neste blog todos os dias. A dinâmica das redes sociais me afastou das postagens diárias e há muita conversa barulhenta nos compartilhamentos e curtidas, mas continuo escrevendo aqui. Apenas não publico, sequer digito os posts. Escrevo em minha cabeça pequenos textos diários como na época em que era aqui, nesta sala, que as conversas se desenrolavam. Um blog pequeno como o meu costuma manter seus ares de sala de visitas e de vez em quando eu até servia café, lembram? Um bolinho, um comentário sobre aquele filme. Pois não se enganem. Se hoje é no Twitter que mais falo do filme ou se a discussão acalorada sobre repimbocas e parafusetas pega mesmo é no Feissy, continuo vindo aqui. Abro a porta em silêncio, divago sobre aquele momento em que Amanda me abraçou apertadinho, deixo cair das mãos uma ou duas linhas sobre o pôr do sol que vi enquanto pedalava na Avenida Beira Mar. Faço posts que nunca serão, todos os dias. Este blog tem uma camada mais sutil, que se desmancha na pedalada seguinte. Cada sopro do vento em meu cabelo dissolve uma frase que quase se escreveu. Mesmo assim, passo o café e pego o pote de biscoitos. A mesa continua posta.

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Entrevista que dei à TV Itararé, afiliada da TV Cultura, em março deste ano, no lançamento de Contos do Poente em Campina Grande. O pessoal do programa Diversidade fez uma edição bacana, pena que a entrevistada é meio estabanada e fala obviedades em vez de coisas interessantes. :-) Mas gostei de ver nosso livrinho tratado com carinho.


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A edição da Revista Plural que sai esta semana traz um conto inédito meu, Sonata. Os exemplares podem ser comprados pelo email scenariumplural@globo.com. Deixo um beijo de agradecimento à Lunna Guedes pelo convite. :-)

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Lá no Facebook estamos brincando de comemorar um ano do lançamento de Contos do Poente. Leitores e amigos escrevem qual seu conto ou ilustração favorito(a), publicam fotos com o livro ou nos mostram o lugarzinho que ele ocupa na estante de cada um. Eu pitaco: Palavras, da Luciana, é o conto que eu quis que abrisse o livro. É meu favorito pela maneira irresistível com que Luciana coloca o leitor dentro da cabeça da protagonista. 

(As vendas seguem pela internet, contosdopoente@gmail.com, e tem promoção de aniversário até 31/12: R$30,00. \o/ O livro segue à venda também nas livrarias indicadas aí na lateral do blog.)

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As férias me acenam da esquina. Não sei se vocês concordam, mas 2014 merecia férias em dobro. Alguém? Vamos fazer uma petição?


Hiatos e janelas


O período eleitoral foi uma espécie de hiato nas minhas leituras literárias. Uma amiga me disse que eu não estava sozinha: à parte as notícias sobre a campanha, o máximo que ela conseguiu ler no mês passado foram best sellers de narrativa plana e enredo dinâmico cuja leitura praticamente deslizasse diante dela. Quanto a mim, deveria ter adiado a leitura de Terra Sonâmbula, do Mia Couto (Cia das Letras), livro que certamente merecia mais do que consegui dar em termos de atenção e apreço. Mas insisti, lendo meia página de vez em quando, sentindo um distanciamento em relação ao livro que talvez não experimentasse em outras épocas. Quando virei a última página hoje, foi como se tivesse lido uma espécie de resumo do livro. Acho que vi as belezas, afinal elas saltam das páginas do Mia, mas sei que poderia ter me aproximado mais da história. Quem sabe um dia eu volte a ele.

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Iremos ao Nordeste em breve. Eu sei que não é época da canjica de lá, aquela amarelinha temperada com canela, mas não quero nem saber. Nem que eu tenha que visitar todas as padarias por onde passar, hei de matar minha fome. Meus filhos já se assanham para rever os primos, eu já sinto o cheiro da velha casa, já vejo os caminhos dela. É um pouco como voltar pra casa, ainda que de certa forma eu tenha espalhado minha morada pelo mundo. Morar é um negócio engraçado, uma via de duas mãos. 

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Então houve essa gripe teimosa que parecia não querer ir embora. Houve a resistência, não queria remédios. Só me entreguei porque senti tamanho desânimo que a birra ficou menor que a falta de paciência. Duas consultas médicas depois (que somadas não chegam a dez minutos), tenho drágeas de tamanhos variados e um nariz que bem merecia ser trocado. Fazia tempo que não me sentia doente e não havia nenhuma saudade, mas aparentemente meus anticorpos tiraram uma soneca. Em que momento coloquei a consulta com a homeopata no rol das coisas eternamente adiáveis?

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Minha alma andou gripada as well. Costumo manter a gaveta de mágoas bem trancada, ou pelo menos acredito que seja assim na maior parte do tempo. Daí que num descuido ela se abriu e atacou alergias antigas. Acho que estou dando uma limpeza, mas reconheço que algumas manchas são resistentes demais. Não quero deixar aquela mágoa nova juntar mofo também. Melhor manter a vida arejada, vou tentar abrir mais uma janela.



Do mundo que não é de fadas ou heróis


Alguém me mostrou uma piadinha de mau gosto envolvendo a Dilma e me advertiu: 

- Não vai ficar chateada, hein

Eu não fiquei chateada. A pessoa não entendeu nada.

Eu não vou votar na Dilma porque eu a adore. Eu não vou votar nela por ter me esquecido dos problemas e das politicagens, dos conchavos e de Belo Monte. E não vou votar na Dilma porque o governo dela tenha me favorecido de alguma maneira. Não é nada disso.

Eu pertenço a uma determinada categoria profissional. Como sou do serviço público federal, as decisões que afetam diretamente meu poder de compra e meu estilo de vida são tomadas pelo governo federal. O governo Dilma não foi bom para minha categoria: não negociou com abertura e clareza quando mais precisamos, não cedeu às pressões de nossos sindicatos, não ouviu nosso apelo por uma urgente reestruturação de nosso órgão, assinou medida provisória que nos prejudica. O peso disso tudo em meu voto: zero. Eu não voto por mim, nunca votei. Não será agora. 

Eu não voto na Dilma, exatamente. Eu voto na diminuição da pobreza e na distribuição de renda, principalmente. No grosso caldo de complexidade que é a gerência de um país, essas são minhas prioridades. Não é que eu não ligue para a educação ou para a saúde, ou para as fronteiras ou a questão ambiental, ou para o salário do servidor público ou o PIB. Eu penso na fome, antes de tudo isso aí. E não acho nem de longe que os governos do PT são os únicos com o olhar para o problema. Apenas acho que os governos Lula e Dilma priorizaram a questão como nunca antes. Houvesse agora uma oposição inteligente e articulada, comprometida com os ganhos sociais dos últimos doze anos e com propostas viáveis de melhorias nos campos onde o governo Dilma mais pecou, teria meu voto. Obviamente, meu caro Watson, não é o caso. Olho para o outro lado da disputa e vejo nada que se assemelhe ao que espero para quem ainda está à margem. Vejo um discurso pobre e decorado, velhos e conhecidos grupos salivando para voltar ao poder e à farra do desmantelamento do que é público, apadrinhados pelo que há de mais podre na nossa combalida imprensa.  

Foi pelos "poréns" do meu voto que não adesivei meu carro, não troquei meu avatar, não gritei de bandeira na mão. Meu voto não é apaixonado, não é leve. É um voto necessário para tentar evitar o que vejo como um gigante retrocesso. Mas essa sou eu, você que faz a piadinha de mau gosto com a Dilma não precisa se preocupar comigo. Em seu lugar, eu estaria mais preocupada com você mesmo. Com você que acha que o Aécio vai "salvar" o Brasil. Desculpa, meu: não olhe agora, mas... não existe "salvar o Brasil". A eleição é um capítulo da política, não resume tudo. Seus brados de salvar o país só mostram o quão pouco você entendeu da História enquanto editava a piada chula com a presidenta. Se eu for falar em salvar, vou falar em salvar da fome. Isso pode ser feito e está sendo feito há doze anos. Lindamente. 

Eu vibrei com os governos Lula e Dilma em vários momentos. O último foi na semana passada, quando a ONU anunciou a saída do Brasil do mapa da fome. Eu vibro com as cotas e as universidades coloridas e multiplicadas pelo interior do país, com todos os programas na área de educação; vibro com o Mais Médicos; com as moradias do Minha Casa; eu morro de amores pelo bolsa família; eu fico feliz com o baixo índice de desemprego, porque afinal esse é um fator gigantesco no combate à pobreza. Nada disso me impede de ver os desgostos, as cessões vergonhosas às bancadas retrógradas do Congresso, a troca de favores, o descaso com as comunidades afetadas pela construção de Belo Monte. Eu vejo e lamento e sofro. E peso e acredito que minha escolha é a escolha possível. É o que temos para hoje.

Se Never ganhar amanhã, vou ficar feliz por morar em um país onde empolgados "salvadores" podem comemorar sua vitória. Quem viveu ou leu sobre a ditadura sabe o valor de um momento desses - o fato de que muitos eleitores de Never gostariam de ter a ditadura de volta é apensa uma ironia perversa, deixa pra lá. E vou continuar me engajando no que acho justo, votando por quem mais precisa. Vou torcer para que os danos sejam mínimos. Se Dilma ganhar, vou dizer "ufa" e voltar a fazer as críticas que precisam ser feitas. Meus filhos, de 7 e 9 anos, já entenderam que não existe governo perfeito e que nosso voto em Dilma não faz parte de uma torcida de futebol. O Arthur até faz piadinha - não chula - com a Dilma, e rimos juntos. Amanda, sendo Amanda petralhinha, queria bandeirinha no carro, claro. 

Portanto amanhã, ainda e de novo, é 13.


Nosso primeiro acampamento


No início éramos três ou quatro montinhos: o povo aqui de casa, dois casais de amigos sem filhos e um outro amigo com o filhote. A ideia contaminou outros casais cheios de filhos de tamanhos variados e ontem fomos todos, seis famílias, para o meio do mato. Alguns com vasta experiência, outros, estreantes como nós (até já acampei uma vez ou outra muitos anos atrás, Ulisses idem, mas nada que se compare à delícia de encher o carro de tralha e ver nos olhos das crianças a expectativa bailarinando). Seria um Dia das Crianças pra ninguém botar defeito. E foi. Tratem logo de comprar suas barracas, ou desenterrar as velhas ou nos convidar, quem já for do babado. Porque, olha, adoramos esse negócio. o/

Como seria nossa primeira experiência no ramo, optamos por um camping bem estruturadinho - quando digo "meio do mato", portanto, leia-se "borda do mato" porque na real a civilização estava logo ali. Nem saímos da ilha de Floripa. O que é ótimo: já que gostamos demais da brincadeira é muito bom saber que há um camping por perto. O que não impede nossa animação por outras opções mais distantes, mais hard core, mais meio do mato mesmo, aguardem. :-)

Chegamos no meio da tarde de sábado. Não sei exatamente que imagem Amanda e Arthur faziam da palavra "acampamento", mas fosse ela qual fosse logo ficou evidente que a realidade superou as expectativas. De repente a cidade virou floresta, eles cataram seus binóculos, viraram melhores amigos da outras crianças que aos poucos chegavam e se esqueceram de que um dia dormiram sob um teto de alvenaria.

Escolhendo o lugar da barraca. "Aqui tá bom."

Minha intenção era fotografar o passo a passo, mas precisei ajudar o Ulisses e quando dei por mim a barraca estava montada. De modo que o passo a passo tem dois passos: esse e...

... esse. Né fácil?

Enquanto isso as crianças exploravam o espaço, os outros iam chegando e se instalando.

Amanda e a nova amiguinha observando pássaros.

O que elas viam: gralhas azuis enormes e lindas e que se aproximavam sem cerimônia. Delícia. 

Bando.

Tudo era absolutamente rústico: com umas pedras que encontramos no local, moldamos este artefato primitivo para coar café.

As horas seguiram em meio à comilança. Camping com churrasqueira, vão vendo, Ulisses e outro explorador radical fizeram hambúrgueres, outro fez churrasquinho, alguém levou um arroz delicioso, Ulisses levou sorvete, comemos bolo, marshmallow assado no espeto e o que mais botassem na nossa frente. Vou falar pra vocês: que coisa maravilhosa. Recomendo com força dez vezes. Quando a noite caiu, os temidos pernilongos faltaram, vejam só. Até sacamos o repelente e nos prevenimos um pouco, mas quem optou por ficar sem não se incomodou. Tem mais mosquito na minha casa, juro. Vai ver eles estavam de folga, olha que sorte. Lá pelas nove da noite, peguem as lanternas! Hora da trilha rumo à praia. Falei que o camping fica perto da praia? Pois. E aí sei que minhas crianças jamais se esquecerão da experiência. Lamentei de verdade as nuvens no céu, porque quando estávamos a meio caminho entre o camping e a praia, Ulisses sugeriu que apagássemos as lanternas. Se houvesse um céu estrelado, teria sido um deslumbre. Restou-nos a escuridão absoluta, momentânea, o burburinho da criançada ali no meio do mato escuro, coisa mais gostosa. Quando chegamos à praia, incomodamos os siris e pouco depois voltamos para as barracas.

Gatos noturnos.


Quem tem lanterna, vem.

No meio da noite, rumo à praia.

Com uma mão, ilumina; com a outra, fotografa.

O coitado do siri. 
  
Depois da caminhada, alguns foram para o banho (num banheiro rústico que a gente construiu, claro), outros foram comer mais, outros foram jogar dominó, as meninas foram explorar todas as barracas da região e outros se dedicaram a atividades típicas de destemidos exploradores. Como dormir, por exemplo. E aí, amigos, lembram das nuvens que nos impediram de ver as estrelas na caminhada da praia? Pois bem, elas despencaram num aguaceiro impressionante, acompanhado de uma sinfonia de raios e trovões linda de se ver. A chuvarada se prolongou noite adentro e chegou a espantar os "moradores" de uma barraca (não do nosso grupo) que literalmente levantaram acampamento no meio da noite e se mandaram pra cama quentinha em outro lugar. Em nosso grupo, alguns experimentaram diferentes níveis de, digamos, orvalho no interior das barracas e pequenos arranjos foram necessários (coisa pouca, como sair no meio da tempestade para empurrar a barraca mais pra lá, esticar daqui, secar dali). Nossa recém-comprada barraca passou no teste do dilúvio com louvor. Nenhuma gotinha, nenhum orvalhinho. O sono só não foi intocado porque a trovoada, queridos, acreditem, não estava para brincadeira. Eu, que não sabia do orvalho alheio, adorei a experiência. Como não havia vento, não senti medo e curti de verdade aquela barulheira toda sobre nossos colchões infláveis cheios de lençóis quentinhos e com duas crianças gostosinhas do nosso lado. Quero de novo, muitas vezes. Fotos da chuva não disponíveis, sorry.

O dia amanheceu com aquele cheiro bom de mato molhado e com, claro, muito mato molhado. As gralhas voltaram a nos cercar, assim como um lindo gavião que sobrevoou minha cabeça logo ali pertinho.

Procurem. 
    
Depois de mais comilança no café da manhã, optamos por não ir à praia. A temperatura mais baixa do que o esperado tornou a quadra de areia mais atraente. Ainda houve quem topasse uma partida de Catan enquanto outros empacotavam tudo. Desarmamos as barracas e nos mudamos para o lado menos selvagem do acampamento, munido de churrasqueira, quadra, playground e mais mato. Alguém instalou um balanço improvisado de corda e teve até fila. Durante horas a criançada se sujou de areia, a galera mais velha se entupiu de comida e tratou de planejar possíveis acampamentos futuros. Tudo seria perfeito não fosse a formiga ter decidido picar o pé da Amanda. Por alguns momentos, temi que a picada fosse de algum outro bichinho, talvez aranha, tamanha a gritaria. Mas tudo ficou bem e deve mesmo ter sido um beijinho de formigão. 




Stress.

A melhor frase veio das crianças dentro do carro na volta pra casa: "queria que hoje fosse ontem". Se tudo der certo, em novembro tem mais. 




O ato político de botar pra dormir


Hoje tive um papo sobre o afeto. Falávamos de mim, mas enquanto eu falava pensava mesmo era em mais gente. Pensava no mundo. Fui falando do meu umbigo e me dando conta de como o afeto é fundamental para a construção daquele mundo melhor que tanto gostamos de idealizar. Vejam que inventei a roda. Pois bem, o afeto, essa novidade velha. Não que eu tenha começado a pensar nisso hoje, mas verbalizar coisas tem o poder de colocá-las em evidência, como bem sabemos. Então hoje fiquei pensando que abraçar é um ato político. Envolver uma criança em um ambiente de afeto e deixar muito claro que ela é merecedora de carinho podem ajudar a formar adultos bem resolvidos e seguros. Pessoas bem resolvidas e seguras tendem a ser pacientes, acho eu. Tendem a saber ouvir e a gostar da troca. Quem gosta de troca tende a gostar de aprender e encontra prazer nas descobertas. E, principalmente, receber beijinhos, cócegas e sussurros de amo você pode fazer com que alguém se torne uma pessoa terna, do tipo que alimenta grandes carinhos. Como o carinho por aquele que não é espelho. Abraçar crianças, quem sabe, pode ajudar no aumento da empatia.

Hoje prolonguei os carinhos na hora do "boa noite, crianças", dei mais cheiros no cangote. Por um mundo melhor.  
 
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