O cemitério e o mundo



"É necessário um inimigo para dar ao povo uma segurança. (...)  
Muito bem, o senso de identidade se baseia no ódio, no ódio por quem não é idêntico. 
É preciso cultivar o ódio como paixão civil".

Rachkovsky, chefe do serviço secreto na Rússia Imperial, século XIX, em fala a ele atribuída por Umberto Eco em O cemitério de Praga  
(Ed. Record, tradução de Joana Angélica D'Avila Melo)

***


Talvez uma das provas mais cabais de que vivemos num mundo doido seja o fato de o enredo d'O cemitério de Praga ser todinho construído em torno de fatos históricos - ou conspirações e delírios históricos, se preferirem. Com exceção do protagonista, o falsário Simoni Simonini, os demais personagens da trama são reais e de fato atuaram nos eventos retratados por Eco. É meio assustador saber até onde os exemplares da raça humana podem ir para destilar ódio e abocanhar um naco do poder - mas, né, quem mais se surpreende? O fato é que a História é mesmo louca.

O cemitério do título seria a sede de suposto encontro secreto de rabinos que tramavam para, tchan-ans, dominar o mundo lá pelos idos do século XIX. A história desse encontro seria, na verdade, uma reciclagem de outras narrativas de teor conspiratório semelhante, criadas com o intuito de alimentar teorias difamatórias em torno de diferentes grupos, em particular os judeus. No livro de Eco, o protagonista Simonini inventa o tal encontro. Especialista em falsificar documentos de toda sorte, Simonini plagia escritos antigos, cria e compila falas e textos, e assim fabrica um inventário do tal "evento" no cemitério - e o vende a preço de ouro a quem interessar possa. Do lado de cá da nossa ficção, que chamamos realidade, esses escritos seriam os famosos Protocolos dos Sábios de Sião que tanto pano pra manga já renderam em discursos antissemitas mundo afora. O fato de serem tomados como uma farsa por historiadores e jornalistas inúmeras vezes não impediu que os tais Protocolos fossem traduzidos e publicados como autênticos, e referenciados com intenções nada nobres - inclusive por Hitler.

O cemitério de Praga tem elementos para todos os gostos: assassinatos, bombas, revoluções, tomadas de poder, rituais macabros. O protagonista, todo trabalhado no preconceito e no recalque, contracena com Freud e Dumas, e com vários figurões dos cenários políticos da época; quando não contracena, desdenha - como na passagem em que cita Proust e Monet, este último descrito por ele como "um borra-tintas de quem vi um ou dois quadros, nos quais ele parece enxergar o mundo com olhos remelentos", hohoho! Horror e graça, tudo junto.

Se o emaranhado de complôs por vezes me deixou à beira do tédio, o que me prendeu ao livro até a última página foi a espera da próxima cena em que Simonini inventaria um novo escândalo ao gosto de quem melhor lhe pagasse. Eis o ouro d'O Cemitério: a manipulação da opinião pública, a arte de moldar escândalos, a semente do ódio plantada no discurso fértil do racismo, o apagamento do espanto quando ele não mais convém. Uma aula, toda baseada em fatos reais. Mais assustador do que qualquer caminhada noturna em meio a lápides. É doido, recomendo.

Under the moon, under the rain, under the sun


Depois de um dia montando barracas, comendo churrasquinho, andando de bike, falando que ela viria, ela veio; enorme, amarela, cheia de si. 



Nós já esperávamos a chuva - que também veio enorme, abundante e retumbante com seus tambores de trovão. Antes dela, porém, a lua nos ofereceu o rio, e nós aceitamos.



Terríveis piratas temidos nos sete mares.



Quando o aguaceiro despencou, as barracas já estavam montadas, as crianças estavam raladas de mil tombos de bicicleta, eu devidamente picada de milhões de mosquitos e a lua, escondida. Generosa, a dona do camping convidou o grupo para se abrigar em uma casa vazia ao lado do lote das barracas - foi um pouco como sair do acampamento, algumas crianças protestaram. Contudo, foi também um agrado bem vindo, e por ele somos gratos. "A casa" foi nosso refúgio nos momentos de chuva mais forte no dia seguinte. 

De minha parte, peguei tanta chuva em acampamentos que até já me acostumei com o tamborilar das gotas na lona da barraca. É como se minha barraca insistisse em me provar que aguenta o tranco. Assim, torci muito para que a chuva nos deixasse no segundo dia, mas curti os momentos em que me recolhi com meu trio sob nosso abrigo que já tem a nossa cara.  Se estou contando certo, foi nosso sétimo acampamento, provavelmente o quinto em que tivemos ao menos uma noite de chuvarada sobre nossas cabeças. Lanterninha acesa, Arthur e Amanda dormindo exaustos de tanto brincar, a chuva cantando lá fora, Ulisses ao meu lado nesse hobby doido que a gente adotou - tem lama, mas tem beleza, oh yes.

Porém, em acampamento com criançada, bom mesmo é o sol. Quando ele voltou, veio com força. Sacamos os biquínis que pareciam impossíveis na véspera e voltamos ao rio. De barquinho, de caiaque ou a nado, cada um cruzou como quis os metros que nos separavam do mar, tendo o encontro das águas como cenário. E curtimos dois dias de uma praia tão linda que fez a chuva da véspera parecer um preço baixo demais para tanta beleza. Anotem aí e visitem: Guarda do Embaú, um dos muitos cantos lindos dessa Santa Catarina que capricha nas fotos.



Com o tempo firme, retomamos nossas refeições sob as árvores, as crianças voltaram a dominar as barracas. E de novo tudo ficou com gostinho de que bom.



***

Acho que Arthur se lembrará desse acampamento como "aquele em que cruzei o rio a nado". Tomara. Tenho cá comigo que um dos maiores baratos desses dias passados sob o sol e a copa das árvores é justamente isso: encher de bons quadros a memória de nossos filhos. Sempre podemos nos enganar, mas imagino Arthur e Amanda, daqui a décadas, reclamando dos limites na infância, de ter de comer tudo, de tomar banho e desligar o computador; até que, de repente, abrem um sorriso cheio de saudades: ah, mas os acampamentos...





O grande toblerone amarelo


Certo dia de janeiro, depois de algumas horas circulando pelo Van Gogh Museum, em Amsterdã, fizemos, Ulisses, eu e as crianças, aquela paradinha básica na loja do museu. Entre canetinhas, ímãs, bolsinhas, livrinhos e outras loucurinhas tentadoras, saímos de lá com um leque decorado com as flores da amendoeira mais linda (presentinho pra Amanda), um livro sobre o acervo do museu e uma reprodução do quadro Irises, pintado em 1890. Já na loja comentamos em que parede colocaríamos nossas florezinhas azuis tão lindas. E saímos empacotados em nossos casacos, falando do frio e do quanto tínhamos curtido o museu, planejando uma comidinha pra mais tarde, essas coisas. Na mão, eu levava nossa mais querida aquisição, a reprodução de Irises, protegida em uma embalagem cartonada amarela em formato de prisma triangular - que nos lembrava um toblerone gigante. Amsterdã era a primeira das quatro cidades que visitaríamos nas férias, o que significava pegar alguns trens carregando, além das malas e mochilas, um grande toblerone amarelo. Nossa cara.

E assim foi, de lá para Berlim num trem noturno com algumas trocas. Em cada estação, eu conferia apreensiva: quatro malas, duas mochilas, um coelho de pelúcia, a bolsa da câmera fotográfica, duas crianças, um toblerone amarelo. Dias depois, rumo a Praga: quatro malas, duas mochilas, um coelho de pelúcia, a bolsa da câmera fotográfica, duas crianças, um toblerone amarelo. Deslumbrados com Praga, pegamos novo trem rumo a Leipzig; uma vez instalados na cabine, conferi de novo: quatro malas, duas mochilas, um coelho de pelúcia, a bolsa da câmera, duas crianças. Pronto, tudo aqui. Espera. Olha de novo. Putz. Cadê o toblerone amarelo? Ficou no hotel em Praga.

Não bastou ser grande, amarelo, em formato de toblerone. O pacote foi esquecido. Em Leipzig, enviei um e-mail para o hotel. Sim, eles haviam encontrado o indiscreto volume. Foram muito gentis e se prontificaram a enviá-lo para nosso endereço em Leipzig, mas infelizmente não haveria tempo suficiente para a entrega. Voltaríamos logo para o Brasil. Well, paciência. Até questionei sobre a possibilidade, que julguei remota, de ter nosso toblerone enviado pra cá. A resposta do hotel, num primeiro momento, foi o compromisso de verificar o custo do envio e, caso eu arcasse com ele, fazer a remessa. 

Já no Brasil, recebi nova mensagem do simpático moço da portaria, Sr. Jaroslav, dizendo que haviam nos enviado nosso quadro-chocolate - por conta do hotel. Agradeci demais a gentileza. Mas, cá pra nós, nunca botei fé que o tal pacote-prisma fosse chegar incólume até minha casa. Sem possibilidade de rastreamento, já que a encomenda foi enviada por navio, com previsão de entrega depois de meses, julguei que as chances de extravio eram enormes e dei nosso quadrinho por perdido.

Pois hoje, mais de sessenta dias depois de nosso retorno, o Arthur ligou pro meu trabalho.

- Advinha, mãe, o que aconteceu?!! 
- O Floquinho fugiu??? 
- Não!! Nosso toblerone chegou!!

E chegou mesmo. Cuidadosamente embalado em plástico preto, com cara de um grande toblerone amargo (hum, já pensou, que delícia?). Cortamos o plástico e lá estava nossa embalagem amarelo-van-gogh e, dentro dela, a reprodução do Irises, coisa mais linda. Logo receberá moldura e ocupará seu lugarzinho sobre o sofá.


Se você for a Praga, recomendo o Archibald Hotel. Fica coladinho na Ponte Carlos, no coração histórico de Praga; a rua tem cara de Ouro Preto, a comida é decente, o quarto é um mimo - e, principalmente, o pessoal de lá é bem bacana, manda as lembrancinhas mais queridas de volta pra nós. Obrigada, Sr. Jaroslav. Dekuji!


Bisbilhotices literárias


Vinte e seis anos de correspondência produzida em máquina de escrever, endereçada ao escritor Fernando Sabino, imaginem. O Rio é tão longe - Cartas a Fernando Sabino, de Otto Lara Resende (Cia das Letras), tem conversa fiada pra mais de metro. Quatrocentas páginas de impressões sobre quase tudo, da literatura ao cigarro. Escritas entre 1944 e 1970, as cartas a Sabino cobrem os períodos em que Otto atuou como adido cultural do Brasil na Europa, ora em Bruxelas, ora em Lisboa, intercalados com períodos passados no Rio. São cartas, mas aqui e ali são a boa e velha literatura. 

Embora na maior parte do tempo Otto se lamente sobre as agruras da rotina no trabalho, o barato do livro está camuflado entre uma reclamação e outra, no meio dos apelos quase chorosos por notícias do Brasil. Aliás, são muitos os apelos, às vezes melodramáticos, para que seu amigo interlocutor escreva, escreva logo - "Fernando, seu silêncio repulsivo não merece comentário", "Fernando, eu inundo você de cartas e você nada!", e por aí vai.  Entre um choramingo e outro, estão relatos que envolvem estrelas da literatura e do jornalismo brasileiro da época, descrições de viagens e casos curiosos no meio editorial, toda sorte de críticas feitas em cochichos, aqueles comentários que guardamos para os ouvidos nos quais confiamos - os dois mineiros foram amigos de vida inteira, desde a juventude compartilhada em Belo Horizonte. 

Pelas cartas de Otto, vemos Sabino ganhando fama, sua literatura se espalhando, o Brasil entrando nos anos da ditadura, Clarice publicando, Vinícius arrasando corações, João Cabral virando estrela, Rosa encantando a todos. Cá do nosso mundinho de leitores sedentos, tudo parece um abuso: é um tal de interromper carta porque Vinícius está ao telefone, cof cof. Em alguns momentos é como fofocar com charme. :-)



As cartas reproduzidas em O Rio é tão longe foram organizadas e editadas, em um primeiro momento, pelo próprio Fernando Sabino. A proposta para publicação foi feita a Otto mais de uma vez, mas ele recusou ou adiou o feito. Somente após a morte de Sabino, em 2004 (Otto já falecera em 1992), a edição foi resgatada pelo Instituto Moreira Salles e publicada em 2011. 

Eu me diverti, torci o nariz, reclamei, conversei com o autor enquanto bisbilhotava suas cartas que não eram pra mim. Pensei "céus, que cara chato", "ah, que lindo", "de novo, esse assunto?", "ah, meu, cê tá é doido" ou "tá, nisso concordamos" etc. E fiquei com uma vontade danada de correr pros contos e crônicas do Sabino outra vez. 

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Um docinho (carta escrita no Rio, para Sabino em Londres):

"Estou lendo sem parar o Grande sertão. Como eu vou à Escandinávia, ando numa ansiedade danada, aquela agulha debaixo da pele, o coração apertado, fisicamente apertado, então meu seio materno, eu criança saciada, dormindo e de quando em quando arrepiada com aquele repuxão, então agarro no seio e começo a mamar, o seio é a literatura do Rosa, me fecho no banheiro, quede que eu vou cuidar da vida, vou é ler o Zé Bebelo, o Riobaldo, aquela coisa. (...) Eu falo com ele [Guimarães Rosa] todo dia de manhã. Quem mandou você ir embora pra Londres?" :-)

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Do tecido


"O medo da morte (...) levou o homem do século XXI, com ajuda das biociências, a prolongar consideravelmente seu tempo de vida biológica, sem com isso tornar-se mais capaz de desfrutar da duração. Hoje é possível viver com saúde durante oito ou nove décadas sem perder a sensação de que o tempo continua curto, de que a vida é a soma de instantes velozes que passam sem deixar marcas significativas." (p. 148)

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O que me faltou ao ler O tempo e o cão - a atualidade das depressões, da inspiradora Maria Rita Kehl (Ed. Boitempo), foi familiaridade com a terminologia mais técnica da psicanálise. Faltou traquejo para que eu pudesse migrar de um parágrafo a outro com o conforto do reconhecimento. Ao invés disso, tateei por boa parte do texto como leiga que sou, interrompendo, relendo, mastigando, estudando. Ao mesmo tempo, mergulhei nas outras camadas do texto, mais transparentes para não iniciados, que já revelam a acuidade do olhar de Kehl sobre nossas relações com o tempo. Para mim, foi um daqueles livros aos quais prometemos retornar, ainda que a primeira leitura já tenha sido tão valiosa. 

O foco do livro sinalizado em seu subtítulo - a atualidade das depressões - é o número impressionante de pessoas que se deparam com o buraco da depressão nos dias atuais. Kehl aborda o assunto com a perspicácia de quem sabe ler seu mundo e percebe a corrente de elos pessoais e sociais que seguidas vezes escurecem a vida de tanta gente. Como o ritmo alucinante de trabalho/produção que nos impomos (que nos impõem?) delimita nossa relação com a percepção do tempo? Quando limitamos a sensação de estarmos vivos a uma mera "sucessão de instantes presentes" que nos impede de experimentar verdadeiramente a passagem do tempo, o "tecido da nossa vida"? - a linda definição de Antonio Cândido é retomada por ela na segunda parte do livro: tempo não é dinheiro, é o tecido da vida. Como treinamos nossas crianças para que passem pelo mundo sem observá-lo, sem experimentar e degustar o ócio, o prazer da nada fazer, para que a imaginação preencha suas telas com suas pinceladas insubstituíveis? E por que o fazemos? O que nos move à ideia de que é preciso correr o tempo todo? Para onde vamos com tanta pressa, sem deixar que o tempo nos toque delicadamente?

Mais do que uma análise da atualidade das depressões, O tempo e o cão é um lembrete: o tempo é tudo que temos. E sob a luz da psicanálise, Kehl aponta para a "perspectiva de um percurso livre da pressa" que diminua nossa angústia e resgate nossa capacidade de reconhecer o que realmente nos define. Reconhecer que somos mais do que produtores ou fornecedores ou trabalhadores. Somos amores.

Na estrada, na barraca, no cânion



Por conta do aniversário de Florianópolis, o feriado de Páscoa se transformou em um feriadão com cara de miniférias. Mesmo encarando a previsão do tempo e seus anúncios de chuvas fortes espalhadas pelo final de semana, botamos a barraca no carro e seguimos para cinco dias de acampamento - nosso período mais longo em um camping até aqui. Usamos argumentos razoáveis como "vai que a chuva muda de ideia" e pegamos a estrada. A chuva não mudou de ideia e caiu poderosa, é verdade. No entanto, deu tudo tão certo que o aguaceiro virou personagem da história, mais do que contratempo. Teve lama, mas também teve sol e cores. E cânions. 

No dia 01 deixamos Floripa e dirigimos por três horas e meia pela BR 101 rumo à divisa dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Por volta do meio-dia, chegamos ao município de Praia Grande/SC - que não é grande, nem tem praia, como bem observou Ulisses. Conforme planejado, almoçamos em um restaurante local antes de seguirmos para o camping - sempre melhor armar as barracas de barriga cheia. O restaurante Casa Nossa, escondido do mundo lááááá num ponto qualquer daquela estrada de chão, estava aberto e vazio. Em pouco tempo, com uma chuva fina já caindo lá fora, estávamos com pratos bem servidos de comida caseira delicinha, e as crianças já estavam com o pé na grama molhada, agarradas aos gatos da vizinhança.

Praia Grande não tem praia, mas tem uns morros mais ou menos. :-)
O primeiro de muitos.

Já havia no ar aquela vibe "que bom que a gente veio". Brindamos aos amigos que estavam ali e aos que não puderam ir e seguimos rumo ao camping.

Escolhemos uma área de camping dentro de um resort, decisão que se mostrou acertada dois dias depois quando a chuvarada despencou. O lugar estava praticamente vazio, porque ninguém com juízo sairia de casa para acampar com aquela previsão do tempo, não é verdade? Como campistas, tínhamos acesso à área de lazer do lugar e usufruímos dela com gosto. Transferimos toda a tralha para a churrasqueira coletiva (que acabou sendo usada só por nosso grupo), estrategicamente situada ao lado do salão de jogos, e comemos e jogamos e brincamos enquanto os céus desabavam. À noite migramos para nossas barracas e dormimos embalados pelas gotas grossas tamborilando nas lonas, pensando "amanhã a chuva passa".



Mas estou atropelando as coisas, porque isso foi na sexta-feira. Antes, tivemos uma linda quinta-feira de sol e fomos dar uma olhada num daqueles lugares que nos lembram como vivemos em um planeta tão, tão incrível. Fomos ver o cânion do Itaimbezinho, no Parque Nacional Aparados da Serra.

Vamos subir?
Durante cerca de uma hora, subimos por uma estrada de chão sinuosa (com pequenos trechos de asfalto no início da subida) e cheia de placas simpáticas.


À medida que subíamos e perdíamos a fé de que um dia chegaríamos a algum lugar, o visual dava dicas do que o morro escondia. Aqui e ali ouvíamos um barulhinho de água correndo pelas pedras, enquanto as copas inconfundíveis das araucárias chamavam "venham".


Guiados por borboletas brancas que se exibiam sobre os carros, e muitas curvas emocionantes depois, chegamos ao Parque. A entrada é paga (oito reais por adulto, além de cinco reais como taxa de estacionamento), mas crianças têm acesso gratuito. Consultamos a central de informações e optamos por uma trilha não muito longa (nossa trupe incluía seis crianças e um bebê de colo) e fomos. Agora não sei contar mais. Só me lembrar da enorme garganta aberta na rocha, expondo aqueles paredões gigantescos, a cascata despencando como uma língua de alegria celebrando a natureza: nosso planeta é lindo, o mundo é incrível e o tempo é um escultor dos mais talentosos. Ave, vida. Obrigada por tanta beleza.







Mundo, mundo, vasto mundo.


Só vejo flores.



Portanto não podíamos reclamar de mais nada. Na madrugada seguinte, quando a chuva prometida veio, pensei em toda nossa sorte - afinal ainda tínhamos dias pela frente e já havíamos visto tanto. Então comemos mais e aproveitamos o que estava ali. Revelamos novos talentos, inclusive.

Tudo profissa.
Aí a chuva parou - e ainda tínhamos dois dias. \o/


Le retour du soleil.


 
 
 

Tínhamos um bebê fofinho.
De pijaminha no acamps.
Tínhamos os morros em nossa volta - e só saber que os cânions estavam "logo ali" era como comungar com aquela beleza toda. 

  

Por falar em beleza, no sábado as nuvens abriram todas as cortinas e revelaram uma noite estrelada de fazer suspirar os mais carrancudos. As crianças desligaram as lanternas e olharam para o alto, Amanda disse nunca ter visto "uma noite assim". A trilha de tantas estrelas acenando de tão longe, destacadas pela escuridão do meio do camping e pontilhando o céu de uma ponta a outra, foi como uma canção: estrada tão bonita. Que bom poder mostrar aquilo para nossos filhos.

Mais tarde, ela também veio.
Por falar em beleza, de novo.



Quando o domingo nasceu e as barracas tinham pequenos ovinhos de chocolate na entrada, Ulisses e eu nos sentamos diante daquele verde e fizemos planos de acampamentos futuros - o que dá uma boa noção do quanto nos divertimos.
 
O cheiro do dia nascendo, os piados da passarada, o "conversê" que vinha da barraca onde estava o bebê - daqueles momentos que a gente guarda nas gavetas mais queridas do coração.


E enquanto estávamos cercados por amigos e pelas crianças (e pelos duzentos gatos que as crianças adotaram), o feriadão passou. Passou enquanto a gente coçava as picadas de mosquitos, tentava tirar a farpa que entrou no dedo, enchia o colchão que secou no meio da noite, lavava a lona da barraca toda suja de lama, lavava a lona da barraca do amigo com mais lama ainda, cuidava do filho de um e de outro, cozinhava com carinho e afeto, elevava a níveis estratosféricos a capacidade humana de se conversar abobrinha, discutia se o louva-a-deus é ou não venenoso, ressuscitava o dialeto do Mussum, compartilhava o prato, a roupa, o pano de chão. 

Passou o feriado e o tio Google me disse que o louva-a-deus, apesar de agressivo, não é venenoso. Já o bichinho do acampamento... quando pica, amigos e leitores, vicia. O antídoto: não resistir.

***

Aos amigos que trocaram o acampamento por momentos em família por razões de amor: vocês estavam com a gente e sabem disso. E, ó, ouvi dizer que os cânions estão ali há milhões de anos e não pretendem sair tão cedo. Que tudo tem seu tempo, né?

 
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