Tão longe, tão perto




Olhando daqui Vancouver não parece ser um lugar no meio do caminho. É quase uma quina do mundo. Mesmo assim fizemos dela o meio da nossa viagem. Escolhemos passar por lá e unir a curiosidade sobre a cidade à chance de rever um amigo da época da faculdade - ou, para Ulisses, de antes desse tempo. Quando descobrimos que o João estava morando em Vancouver, anotamos a ideia. Demoramos tanto para botá-la em prática que ele se mudou de lá, mas topou passar uns dias na cidade para que nos encontrássemos. Eu nunca vou saber agradecer direito tamanha gentileza: ele nos guiou por dias, cozinhou para nós, nos presenteou com sua companhia com paciência e carinho. Vancouver foi bacana, não nos desapontou. Mas bom, bom mesmo, foi ver o João e conhecer o Daniel, seu companheiro igualmente querido. Nos sentimos acolhidos, perto, pertinho. De quebra, ganhamos também a companhia do Spike, o cachorro que fala.

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Soubemos que tivemos muita sorte em um período do ano que costuma ter céu cinza e muita chuva por lá. Para nós, os dias foram azuis e gelados. A pouca neve que caiu um dia antes de irmos embora foi até bem vinda, já sabíamos da beleza da baía e dos parques. Vancouver tem montanhas ao fundo, tem a combinação de água e verde que adoro aqui em Floripa, tem ruas largas que ainda estavam lindamente iluminadas por causa das festas de fim de ano. Tem também comidas e pessoas de todos os lugares do mundo, além dos motoristas de ônibus mais simpáticos (juro).
 
João, Ulisses e as crianças no passeio preguiçoso que fizemos por Stanley Park, às margens da baía. Tava mais frio e mais bonito do que a foto consegue revelar.  

Não dava pra reclamar da vista do hotel...
... tínhamos camarote para as disputas entre gaivotas e hidroaviões.  
João nos mostrou parque, praça, bairro velho, bairro novo, China Town, mercado público (hum, delícia!). Quando ele tirava uma folga, a gente se equilibrava na Capilano Bridge, uma ponte suspensa que balança, balança, mas não cai, dizem. A Capilano tem uma espécie de festival de luz no final do ano e nós fomos lá conferir. Morri de medo e de frio, mas as crianças curtiram a aventura dos tree tops enquanto eu me concentrava em não olhar pra baixo.

Arthur e Ulisses tocando air guitar em frente a uma casa da família Hendrix, num bairro old school.


Kids will be kids.
  
Um totem família.
Há totens muito bacanas pelos parques nos lembrando da população nativa da região.

A Capilano Bridge, muito muito muito alta. Tem riozinho passando lááá embaixo e árvores imensas all around, mas eu não olhei muito, concentrada em dizer "não balança, Arthur, não balança!"

Ela, à noite, lindinha e mais tranquila, já que a escuridão tirou um pouco meu medo da altura.  


***

João e Daniel providenciaram um apartamento com amigos e nos receberam para um jantar de conversê. Eu conversei pouco, porque o frio pegou minha garganta, mas espero que eles tenham percebido o quanto me senti grata pela acolhida tão cheia de charme.
 
Christmas crackers enquanto esperávamos a comida - todo mundo brincou.  

João e Daneil se mudaram há pouco tempo de Vancouver. Agora moram em Robert's Creek, um tiquinho mais pra lá na esquina do mapa. E lá fomos nós. Pegamos a balsa e passamos um dia circulando pela vizinhança. João nos garantiu que todos os ursos estavam hibernando. Nós acreditamos e, depois de encher os olhos com os azuis do norte e encher nossa pança de comidinhas feitas em sua cozinha com vista de filme (e depois de um cochilo canadense), fomos para o meio das árvores imensas.


 


O sol deu um toque laranja momentâneo no tronco. Achei meio Van Gogh, curti. 

Eu, árvore pequena. 
  
Nenhum urso avistado. João nos contou que já deu de cara com mamãe e filhotinhos. Uia.
De volta a Vancouver, sem nossos amigos guias e sem o Spike para bater papo, visitamos um centro de ciência para crianças e fomos ver a cidade lá do alto. Gostamos e recomendamos o restaurante giratório, Top of Vancouver Revolving Restaurant. A vista é show de bola e a comida é decente. As crianças, claro, adoraram a ideia do restaurante carrossel. 



Nos despedimos caminhando até o hotel por ruas que são um convite. Vancouver é linda, sim. (Robert's Creek também é, João.)


***

(Algumas coisas são as mesmas em qualquer continente: Amanda feliz da vida com sua sacolinha de macarons numa rua qualquer de Vancouver. Comparem com a foto aí embaixo, aos três anos, em Paris.)
:-)
Sacolinha de macarons, toda vez. 
***

De Vancouver partimos para NY. Teve susto no Metropolitan, variação absurda de temperaturas, musical bacanérrimo, comida ruim e finzinho de férias. Conto já.

O ano que começou


Querido leitor, olá! 
Feliz ano novo. Como passou o Natal, tudo bem? As férias vieram e eu as agarrei com fúria; agora me resta falar delas para esticá-las um pouquinho mais. Não é assim?

*** 

Tem sido uma tarefa difícil eleger as melhores férias dos últimos tempos, mas devo dizer que dessa vez o negócio ficou sério. Quando dezembro foi chegando e decidimos nosso destino para as festas de fim de ano eu já imaginei que provavelmente viveria dias para guardar; acertei. Na verdade, não era bem o lugar para onde iríamos, mas as pessoas que iríamos encontrar. Foi num certo interior no norte dos Estados Unidos, mas poderia ter sido no sul de Patópolis. Ou aqui ao lado, no interior catarinense. Foi também na costa oeste canadense, mas poderia de novo ter sido Recife, onde morou há tempos o amigo que agora habita uma casa de sonho cercada por uma floresta de árvores imensas e filhotinhos de urso. Foi uma viagem longa, com retorno cansativo e agito de New York City no final, mas foi principalmente um reforço na certeza maior de nossas vidas: são as pessoas com quem dividimos nossa caminhada que fazem tudo valer a pena. Obrigada aos amigos que nos acolheram, alimentaram, paparicaram, guiaram, transformaram nosso início de 2017 no melhor início de ano de que se tem notícia. Amo vocês e espero muito poder retribuir tanto carinho.

***

Amanda idealizou muito o Natal. A perspectiva de um White Christmas encheu sua cabecinha e ela recitava: quero lareira, neve lá fora, chocolate quente. Ela teve tudo isso, mas logo viu que esses eram os elementos menos incríveis. A neve fez sucesso, claro (ela não limpa a entrada da casa no dia seguinte), o chocolate quente também. Mas na frente da lareira havia gatos. E ao redor, uma sala toda preparada para um natal com crianças, árvore imensa, presentes, enfeites, recadinhos dos elfos, aconchego, tanto amor. Minha amiga Ângela e seu marido Pete fizeram do natal de seus filhos um momento meio mágico e na mesma medida acolheram Arthur e Amanda. Passamos dez dias em meio a barulheiras bilíngues. Fomos definitivamente estragados para sempre: as melhores comidinhas, as melhores conversas, os melhores xingamentos em portenglish, as melhores confusões com as crianças, os gatos mais perseguidos, o esquilo mais gordo, o coiote mais raro no quintal (rá!), os pássaros mais coloridos pintando a neve.

Julia, Amanda, Arthur e Max. 
Ângela, Julia e Amanda - may friendship be our lighthouse.
O pôr do sol que o Ulisses viu enquanto eu olhava para o farol.

Depois do Natal, cruzamos a fronteira canadense e fomos dar um abraço nos familiares que Ângela e Pete têm em Toronto. Foi nossa segunda passagem relâmpago pela cidade que continua me deixando com gostinho de quero mais. O que já estava bom virou festa. Além dos parentes do Pete que conhecemos há anos em nossa primeira visita à cidade (quando o Arthur ainda morava na minha barriga e a sobrinha adolescente do Pete era um bebê de colo), reencontramos a irmã da Ângela, uma de minhas primeiras professoras de inglês em mil novecentos e faz tempo. Foi absurdo de tão legal. Toronto me parece fria, gigante, animada, tão linda. Eu toparia, fácil. Enfim, criançada pede bicho, então fomos pro Aquário aos pés da CN Tower. Pede museu também, fomos pro Science Museum. Todo mundo fez seu estágio de astronauta, os bichos mais lindos continuam fascinantes, eu continuei sendo mimada. Ganhei o melhor quarto na casa mais fofa da rua mais linda por onde caminhamos enquanto a neve nos lambia; Amanda ganhou outra casa com gatos. Os esquilos de Toronto são pretos, porque tudo sempre pode ficar mais fofo. Simone e Justin, guys, thank you so very much! Amy, Scott, Hannah, Samantha, you are the sweetest people. Não sei bem se podemos dizer que fomos "pés quentes", mas adoramos torcer para o time de hockey. ;-) Sabe aquele papo de que Canadians are as cool as one can be? Pois, tô concordando. 

Como, como pode ser tão linda?

Observem o sufoco de quem tá no espaço sem o traje adequado. 
De volta aos EUA, estabelecemos uma relação meio louca com o frio: espantávamos hoje, abraçávamos amanhã. De parque aquático aquecido a aula inaugural de esqui, passando pela experiência de deslizar monte de neve abaixo sentado ou deitado numa boia gigante, de tudo teve. A neve que tinha derretido e revelado o verde do gramado do quintal voltou a cair. As crianças da Ângela receberam a visita dos avós, Mr and Mrs Burford, e continuamos praticando o bom esporte de jogar conversa fora. O relógio seguiu, o mundo ficou branco outra vez, 2017 chegou. Entramos o ano na vibe "chega mais".
 
Ulisses covardemente ataca dois garotos indefesos.

O quintal dos visitantes coloridos.
Quando o ano novo chegou, Ulisses, Arthur e Amanda encararam a primeira aula de esqui da vida. Se eles se divertiram? Bom, eu me diverti assistindo. \o/ No dia seguinte, todos trabalhados na vontade de esquiar mais, era hora de partir. E então nos despedimos com o coração quentinho. A diversão foi grande, mas trago comigo mais, trago o conforto das conversas nas refeições infinitas e a alegria de se saber querido por gente tão especial. Amar os amigos, estender o amor aos filhos deles - o mundo fica bom assim.

Eu sei que teria sido em qualquer lugar. Mas fico feliz que tenha sido ali, naquele cantinho frio da Pensilvânia. Porque foi pra lá que voltei meus pensamentos quando Ângela foi embora há tantos anos e fiquei torcendo por suas escolhas. Então deixa ser longe, a gente dobra essa distância com café (thanks, Pete) e mimosa (ui, que bebida esquisita, quem nesse mundo bebe champanhe com suco de laranja no café da manhã??? esses pensilvânios são loucos).
 
Todo mundo lindo na foto do trilho da cortina.

***

Amanhã volto com a segunda parte da viagem. Tem mais amigo das antigas (todo mundo tem um amigo que mora longe, mas eu exagero, o meu foi pra Vancouver), uma casa na floresta e um cachorro que fala. 

"É muito melhor esquecer e sorrir"


A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk (Editora Planeta, trad. Sandra Martha Dolinsky), me atropelou quando o li no ano passado. São 24 capítulos sobre conflitos internacionais que Fisk cobriu como jornalista ou sobre os quais pesquisou com esmero ao longo de décadas. Os relatos muitíssimo bem documentados são construídos a partir de entrevistas, incursões em campos de guerra durante o desenrolar dos conflitos (como no Afeganistão ou Palestina, por exemplo) ou de investigações longas e profundas sobre tragédias mais antigas (como o genocídio armênio, que ele chama de primeiro holocausto). Por ser escrito a partir do testemunho próprio e por narrar os procedimentos das pesquisas, o livro de Fisk é também um livro de memórias. E talvez por isso seja tão valioso: o olhar do autor não é apenas jornalístico, é antes humano, perplexo.

Chamo esse livro de pequeno curso de História, e é também certamente um minicurso de jornalismo. Fisk se esmera em trazer à tona tantas narrativas conflitantes quanto seja possível, nenhum relato é maniqueísta. O jornalista solidário com o povo invadido é o mesmo que arrisca a vida para tentar retratar a crueldade das retaliações. Seu rol de entrevistados inclui gente como Arafat, Bin Laden e outros líderes, religiosos, déspotas, soldados, generais, políticos, enfermeiros e muitos civis pegos em fogo cruzado - famílias, órfãos, viúvos, sobreviventes da loucura. Fisk chora por todos, e escreve sobre a desolação e a luta pelo poder, pela terra, pela sobrevivência, sobre o ódio e sobre o amor. O livro é um golpe forte em qualquer visão romantizada que talvez tenhamos sobre os valores que empurram a humanidade na linha do tempo. É difícil de ler - não pela teia do texto, nada disso: a escrita fluente e direta de Fisk é didática até; é difícil porque é doloroso. Várias vezes interrompi a leitura, mão na boca, nó no peito, às lágrimas. Não somos um mundo bonito, visto de alguns ângulos, e encarar isso faz do espelho um lugar bem incômodo.

Tenho pensado muito nesse livro nessas semanas por causa de Aleppo. Há um capítulo em A Grande Guerra pela Civilização que, de certa forma, costura todos os outros do livro. No capítulo 19 Fisk não fala exatamente do Irã, do Iraque, dos EUA ou dos EAU, nem da Palestina ou de Israel, ou da Argélia, nem de Sabra e Chatila. Ele fala do mercado internacional de armamentos de guerra, um capítulo fruto de anos de pesquisas sobre o comércio de armas no Oriente Médio. Acho que nenhuma guerra civil ou internacional se explica por um ou dois fatores apenas. Então o mercado de armas certamente não basta para explicá-los, tampouco. Mas ajuda a entender o mundo em que vivemos. E, infelizmente, talvez ajude a responder uma pergunta que tenho visto se repetir nas redes sociais nesses dias: como a "comunidade internacional" pode permitir que a guerra na Síria chegue a esse ponto? Eu não sei o que é a "comunidade internacional" exatamente, mas desconfio que o capítulo 19 do livro do Fisk tenha uma ou duas linhas a acrescentar nessa conversa. A Grande Guerra pela Civilização foi lançado em 2005, mas, de certa forma, ele é sobre a Síria também, nem que seja porque nos ajuda a fugir das narrativas mais fáceis e ingênuas.

"Que linguagem pode abarcar a ciência, a morte e os ganhos de capital em tal escala?"

Voltei ao livro agora para esse post e vou revendo pequenas passagens que destaquei. A linguagem de Fisk é por vezes implacável, em outros momentos tão terna. É pouco provável que seus leitores fiquem imunes aos relatos feitos de dentro dos hospitais infantis iraquianos depois da última invasão estadunidense, assim como ninguém lê o que ele nos conta sobre as prisões de Saddam sem se chocar. Muita coisa ainda será escrita sobre a guerra na Síria, uma história que parece não ter mocinhos, só bandidos e vítimas. Terei sempre muito respeito pelos relatos que o Fisk porventura fizer desse capítulo horroroso de nosso tempo.

***

O título do post é de um poema que emociona Fisk e com o qual ele encerra seu incrível livro. Chama-se "Birthday", de Christina Rossetti. Fisk tem um coluna no jornal inglês Independent (na seção Voices) e tem escrito por lá sobre o conflito na Síria.

De Troia a Roma - Eneida


Diz o mito que quando Troia ardeu em chamas e virou cinzas Eneias reuniu troianos sobreviventes e viajou rumo ao Ocidente para fundar na Itália as bases de Roma, a "Troia renascida". As façanhas de Eneias durante a travessia dos mares ao sul da Itália e costa siciliana, o malfadado amor de Dido - rainha de Cartago - a descida ao Inferno, a luta pela posse da terra dos latinos e, claro, as muitas interferências dos deuses do Olimpo na peleja são o tema dos 9.826 versos do Poema Eneida, de Virgilio. É ler e reconhecer pegadas de tantos que seguiram o poeta. Pra mim, foi ler e reencontrar os mitos da infância via Lobato, e ver um pouco mais de perto a origem de lemas e lendas que relemos mil vezes espalhados pela literatura ocidental. Um pequeno deleite nesses dias em que as guerras e os deuses são outros, mas a humanidade segue oscilando caprichosamente entre a beleza e o terror. Li a tradução de Carlos Alberto Nunes, na edição caprichadíssima da Editora 34, com notas (sempre bem vindas) organização e apresentação de João Angelo Oliva Neto.

O poema Eneida é composto por doze livros (ou capítulos, se quiser). Pode-se dizer que os seis primeiros se assemelham em atmosfera à Odisseia, voltados para a longa viagem desde a Troia destruída até a terra dos latinos. A segunda metade foca na matança propriamente dita (e aqui, claro, a referência é a Ilíada). Portanto Eneida tem de tudo: aventuras, amores, ninfas, deuses intrometidos; e tem também batalhas (incluindo o famoso episódio do cavalo de Troia, narrado por Eneias a Dido quando ele relembra o massacre de que escapou, um dos livros mais legais do poema), cabeças espetadas como troféus, herói invadindo a terra alheia (pra gente ter mixed feelings pelo herói), duelos sanguinolentos, tudo narrado de mãos dadas com as musas - "Como? Falas em vivo escapar, quando vejo que te enfeitaste com as armas dos meus?". Porque, claro, no meio de tudo está a poesia. 

Tudo é trágico, grande, dramático, mexicano, exagerado. Todos os deuses são mais humanos do que eu e você, todos os humanos são capazes das façanhas mais inimagináveis, tudo é absurdo e, para mim, absolutamente sedutor. Não sei quanto a vocês, mas nos anos 80 aquele volume d'Os Dozes Trabalhos de Hércules, do Lobato, me levou para o Olimpo e eu nunca mais voltei (vou lendo Virgilio e pensando em como a Emília xingava Juno). Adoro os dramões. E as explicações de Virgílio para o surgimento e ascensão de Roma podem nem ser exatamente factíveis (não acredito muito que Apolo guiava as lanças...), mas sem dúvida são as mais legais. 

A edição que li é bilíngue, mas meu latim, cof cof... Limitei-me à lindeza da tradução de Nunes. Farei o caminho inverso e só daqui a pouco vou ler a Ilíada. Quem liga? Um clássico é um clássico é um clássico etc. 

Seis anos


Ontem vi A Chegada, um filme terno que me emocionou muito, que me fez chorar por causa da beleza. Há muito o que se dizer sobre ele, eu poderia passar horas conversando sobre, é um daqueles que a gente revê ao longo da vida e fala sempre ah, esse filme. Boa, a sensação de reencontro com a arte, sempre é. Pra mim, foi assim. Mas foi também outra coisa.

Olha aí o dia 09 outra vez. Fala-se sobre muitas coisas interessantes em Chegada - tempo, construção de sentido, linguagem, alteridade. Mas esse não é um post sobre o filme. Então eu queria só dizer que em certo momento a protagonista faz uma escolha. Há várias maneiras de a gente ler essa escolha. Uma delas é vê-la como uma opção pela presença do outro em nossas vidas, mesmo que isso implique, talvez, dor. Eu queria dizer, mãe, que eu continuo escolhendo isso também. Eu brinco de dobrar o tempo e sua mão fica bem pertinho. Claro que dói às vezes, mas só eu sei como é ouvir meu nome em sua voz. Nem que seja quase. I embrace it. Seis anos, um cisco no tempo do mundo. Mas imagina o tanto que poderíamos ter conversado nesse intervalo. Hoje seria sobre Chegada. E eu diria: ah, mãe, tem uma cena tão linda em que ela entende o que a filha dela é. E você diria algo como: eu sei o que uma filha é, ora. E eu diria: eu sei que sabe. E a gente ia rir e falar do clima. Ou do tempo e da distância. E eu ia voltar a falar do filme e você ia dizer que me amava dobrando o espaço e me tocando como agora dobro o tempo e abraço você.

Que saudade das nossas conversas, Dona Berna. 

Ithaca Road


Em 2013 a Cia das Letras enviou alguns autores brasileiros a cidades de vários continentes para que ambientassem romances nesses lugares. O projeto Amores Expressos enviou escritores para Lisboa, Paris, Cidade do México, Praga e outras beldades geográficas. Depois de acaloradas discussões sobre financiamento, que, segundo li, acabou bancado pela editora e pelo produtor Rodrigo Teixeira, o projeto seguiu. Não sem percalços. Houve desistências e pelo menos um lançamento acabou saindo por outra editora, e nem todos escritores envolvidos conseguiram concluir suas obras no tempo previsto. Alguns romances foram rejeitados pela Companhia. Lendo por aí, encontrei referências sobre as dificuldades de se escrever sob encomenda, e bem imagino o quanto a pressão de tempo e tema desafiam escritores. Há resumos da maioria das obras neste link, mas não encontrei relatos sobre os demais livros da série, nem sei se de fato foram lançados. Deles li apenas um, Ithaca Road, do escritor gaúcho Paulo Scott. (Scott esteve em Florianópolis recentemente no 6º Festival do Conto em uma oficina relâmpago que acabou se transformando num ótimo bate-papo sobre as delícias e agruras que cercam a escrita.) 

Ithaca Road se passa em Sydney durante poucos dias na vida da protagonista Narelle, garota neozelandesa que vai à capital australiana para administrar temporariamente o bar do irmão. A narrativa é rápida, a linguagem é crua; os diálogos, inseridos no corpo de longos parágrafos, logo nos fazem prestar atenção à conversa. É difícil saber o quanto da "encomenda" do projeto Amores Expressos pesou nas escolhas do autor, mas Ithaca Road apresenta uma Sydney de gente jovem e cosmopolita - dois adjetivos bem casados no imaginário que cerca a cidade mais badalada da Austrália. Mas Scott vai mais fundo, o livro avança e logo a superfície de modernidade se rasga. Então a gente enxerga nas camadas submersas as brechas do sistema e, lá como cá, os remendos nada nobres nas feridas da população nativa em alusões a conflitos raciais tanto na Austrália como na Nova Zelândia. Na trama central que sustenta a narrativa Narelle não demora a se dar conta de que o negócio do irmão está em apuros e que o buraco pode ser bem down under; entre negociações um tanto tensas com a Justiça e relações quebradiças com o namorado (que se encontra no Brasil) e amigos próximos, Narelle conhece Anna. E em meio a diálogos de quem tem pressa em endereços cool, são o silêncio e o olhar da autista Anna que vão guiar Narelle. 

Certo ar de mistério rondando diálogos finais pode tanto agradar quem curte pontas abertas quanto desagradar o leitor que anseia pela mão do autor nas resoluções todas. Mas foi um outro fator que me saltou aos olhos durante a leitura e me fez lembrar o tempo todo da genealogia do livro. Ithaca Road está recheado de indicações geográficas de Sydney. Se o intuito era apresentar a cidade, o livro é quase um mapa. E se, por um lado, me diverti reconhecendo os lugares que visitei em férias com minha família, por outro lamentei o excesso de referências. Lembrou-me algo que experimentei lendo Travessuras da menina má, do peruano Vargas Llosa - era tanta Paris, quase um overdose (soa absurdo, eu sei). Pois bem, Ithaca Road tem Sydney demais, e isso me soa igualmente absurdo - afinal, concordo com "a beleza arrasadora" da cidade; no livro, contudo, tanto nome de rua e praça e praia quebrou um pouco a fluência do bom texto de Scott. Vai ver Sydney e Paris são armadilhas: é tanta beleza que a gente empacota as histórias nos lugares que nos tiram o fôlego.

*** 

(Falando em Ithaca, terra de Ulisses, ando lendo a tradução de Carlos Alberto Nunes para a Eneida, de Virgilio. E, olha, que coisa maravilhosa. Falo disso já já.)

As meninas invisíveis


No prefácio de Por que ler os clássicos  (1991), de Italo Calvino, a pergunta o que é um clássico? é respondida a partir da várias perspectivas, cada resposta corroborando a anterior e a ela acrescentando nova camada. Fiz uma brincadeira e tentei vincular cada uma dessas "camadas" da definição de literatura clássica a autoras cujas obras, em algum momento, me tocaram. (Parafraseei várias definições, simplificando-as muitas vezes; quando copiei as exatas palavras do tradutor Nilton Moulin, usei aspas.)

Clássicos são livros que relemos com frequência - para mim, alguns contos de Katherine Mansfield.

Clássicos são livros que se revelam ainda melhores se lidos quando estamos "prontos" para eles, livres das "distrações" da juventude - bom, eu continuo distraída, mas acho que fiz bem em ler Virginia Woolf recentemente. Não sei se teria gostado tanto de Mrs. Dalloway em minha adolescência, tampouco apreciado a maravilha do(a) protagonista de Orlando.

Clássicos "se ocultam nas dobras da memória", invadem o inconsciente coletivo - Mary Shelley teria algo a dizer aqui.

"Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira" ou "Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura" - acho que aqueles que já memorizaram passagens inteiras de Wuthering Heights, a obra prima de Emily Brontë, concordariam com essa premissa.

"Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer" - há vezes em que, mesmo tendo já nos despedido de alguns personagens na última página, eles continuam sussurrando em nossos ouvidos; penso no garoto que encara o desafio do túnel em Through the tunnel, de Doris Lessing. Pensei nele por dias depois de ler sobre essa pequena e delicada aventura de desejo pela maturidade.

"Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram" - pensei numa certa Mme. Simone.

Clássicos têm sempre uma nuvem de crítica pairando sobre eles - Woolf, novamente.

"Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos" - todo mundo fala da Sylvia Plath. Mas é só quando a gente silencia e lê que entende por quê.

Child Your clear eye is the one absolutely beautiful thing. I want to fill it with color and ducks, The zoo of the new Whose names you meditate --- April snowdrop, Indian pipe, Little Stalk without wrinkle, Pool in which images Should be grand and classical Not this troublous Wringing of hands, this dark Ceiling without a star.
"Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs" - Calvino não faz qualquer referência à literatura brasileira, mas vou forçar a barra e chamar Ciranda de Pedra, de Lygia F. Telles, de meu livrinho-talismã. Não sei bem o que Calvino quis dizer com "equivalente do universo", então me agarro às sutilezas de uma história que trata de uma menina e alcança muito além dela. 

"O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele" - penso num reconhecimento. Algo como ler os contos em Laços de Famíla, da Clarice.

"Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia" - demorei para ler Karen Blixen; creio que as imagens que ela cria e descreve n'A Fazenda Africana devem ter inspirado dezenas de escritores depois dela. 

"É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo" - Ou, como diria Emily Dickinson:

'Hope' is the thing with feathers—

That perches in the soul—

And sings the tune without the words—
And never stops—at all—

And sweetest—in the Gale—is heard—
And sore must be the storm—
That could abash the little Bird
That kept so many warm—

I've heard it in the chillest land—
And on the strangest Sea—
Yet, never, in Extremity,
It asked a crumb—of Me. 


"É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível" - por exemplo, sempre haverá lugar para a fina ironia de Jane Austen, acho eu.

***


Por que ler os clássicos  (1991) reúne ensaios escritos por Italo Calvino entre 1954 e 1985 e publicados anteriormente em outros meios. Alguns são dedicados a um poema, outros a um ou dois contos de um mesmo autor, outros ainda a um breve panorama da obra de alguém, aqui focando em um aspecto comum a várias produções, ali debulhando uma variedade de elementos que ele julgou dignos de nota. Gosto muito desse livrinho. É possível ler os artigos aleatoriamente, claro, como já fiz algumas vezes. Ou, como o fiz agora, passear pelo livro todo como se os artigos fossem partes de uma unidade maior e formassem uma sequência idealizada pelo autor. Fui lendo, sublinhando, anotando: quero ler isso aqui, isso não me interessa etc. 

E verifico que mesmo o livro tendo reunido textos produzidos ao longo de mais de três décadas; mesmo que esses textos abranjam da poesia à prosa em várias modalidades; mesmo que as obras e autores resenhados se situem num intervalo de tempo tão amplo que inclua de Homero a Borges; e, por fim, mesmo que seu olhar afiadíssimo nos faça viajar por diversos países - EUA, Argentina, Espanha, Itália (claro), França, Inglaterra, Rússia; ainda assim, nenhuma escritora foi incluída na compilação.


A seleção de textos foi feita por Esther Calvino, viúva do escritor - Calvino morreu em 1985, seis anos antes da publicação de Por que ler os clássicos.  Não sei se Calvino escreveu artigos ou ensaios sobre escritoras, não incluídos na seleção de Esther. Sei que falar sobre faz diferença, o que chamamos de História se faz assim. Outro dia li que em O Cânone Ocidental, de Bloom, dentre seus 26 "autores fundamentais", apenas três são mulheres. O silenciamento de escritoras em livros como esses escreve uma história da literatura toda feita por homens. Homens, por sinal, que admiro muitíssimo, que me inspiram e ampliam meu mundo. Assim como tantas mulheres. 

Por que ler as mulheres? Pelas mesmas razões que temos para ler os homens. Porque os clássicos que elas produzem estão também enraizados em nossa memória, ampliam nossa visão de mundo, permanecem. Não nos apequenemos sob a ideia de que tudo se resume a gosto pessoal: Calvino não escreveu apenas sobre seus autores "favoritos". Essa é uma das riquezas de seus artigos, às vezes demorando-se sobre um autor não porque goste particularmente de seu estilo ou argumento, mas porque reconhece nele o lugar que ocupa na história da literatura - mas, de novo, essa história é também feita por livros como o de Calvino. Nesse caso em particular, um livro valioso, mas que parece tratar de um mundo onde mulheres não escrevem.

Voltarei a ele muitas vezes, um velho livrinho de boas dicas. Torcendo, contudo, que a crítica literária faça cada vez mais aquilo que os clássicos fazem de melhor: amplie o mundo, olhe para os lados. As meninas não são invisíveis.

 
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