Por onde anda o marca-páginas


Notas curtas sobre coisas que andei lendo esses dias.


História do Novo Sobrenome, Elena Ferrante. Ed. Biblioteca Azul (Tradução Maurício S. Dias) - melhor do que o primeiro da tetralogia; para mim, absolutamente envolvente. Vire a página e odeie quem você admira; ou vice-versa, mas não se apegue. Talvez a força dos livros da Ferrante venha muito de personagens muito bem elaborados - o que não significa identificação confortável. É possível admirar e rejeitar a mesma garota, sentir empatia e odiar o recalque ao mesmo tempo. Ver no que se transformaram as crianças Lenu e Lila foi uma atividade das mais prazerosas. Ainda que um pouco dolorida: como é imensa e funda a solidão humana. Como damos conta de crescer? E ainda, como pode um livro sobre duas garotas pobres no interior da Itália do pós-guerra dizer tanto sobre nossas próprias trajetórias de meninas-mulheres crescidas em ambientes e épocas tão distintos? E acho mesmo que esse livro o faz, para além de qualquer clichê sobre "boa literatura": Ferrante mira o local com seu olhar perpicaz e nele projeta outros mundos com linguagem cativante e vigor invejável. Recomendo ler nas férias, porque não dá vontade de largar. Ou leia agora e durma depois. O terceiro será lançado no Brasil em novembro, dizem. Aguardo.

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Pastoral Americana, Philip Roth, Cia das Letras (Trad. Rubens Figueiredo) - meu primeiro Roth, certamente não o último. A saga de um garoto perfeitinho, bonitão, com história familiar de sucesso, o sonho americano em várias camadas. E o soco no estômago vindo do centro desse sonho, a loucura do mundo atropelando até quem se imagina imune e nem se percebe causa - e a problematização mesma da ideia de "causa". Uma história apavorante sobre a (im)possibilidade de diálogo com nossos filhos, sobre o desafio de olhar nos olhos da loucura num mundo todo louco. Na reta final do livro senti certo exagero nos desvios da narrativa, queria logo resoluções, fiquei ansiosa. No mais, livrão. O conforto e a erudição com que Roth transita entre temas absolutamente díspares, mantendo a escrita fluente, quase galopante, é impressionante.



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A Resistência, Julián Fuks, Cia das Letras - procurei uma palavra que pudesse resumir com alguma honestidade minha relação com esse livrinho enquanto o lia. Escolhi cuidado. Fui lendo com cuidado porque assim me pareceu ter sido escrito. Há em A Resistência um tal critério com a escolha das palavras, talvez como quem faz um poema. A maior parte dos capítulos breves são quase estrofes feitas com vagar, ou assim me chegaram. Uma história sobre um irmão, sobre enxergar esse irmão e entender seu silêncio. Tão bonito o tom. Também uma história sobre uma família moldada pela ditadura argentina - no fundo do quadro, as avós da Praça de Maio, os sumidos. Um livro sobre buscas que escolhemos e outras que "esquecemos" na gaveta.


O aniversário mais legal das galáxias


Para comemorar os nove anos de idade, Amanda trocou festa por passeio. Quis aproveitar a data para matar a curiosidade que nasceu alguns meses atrás quando alguns amigos visitaram o museu Catavento em São Paulo. A visita agora seria seu presente, e a embalagem dourada com laço de fita seria um final de semana com a amiga que acabou de se mudar para lá. O aniversário era dela, mas no presente coube mais gente. O resultado? Melhor comemoração de aniversário de que se teve notícias nos últimos milênios em todas as galáxias conhecidas e observáveis. 

Enquanto para Amanda a "viagem de aniversário" trazia a chance de reencontrar a amiga que deixou Floripa, para nós trazia junto a chance de rever os pais dela, de quem nos despedimos sob protestos na época da mudança. Eles fazem falta por aqui, mas é claro que foi bom vê-los felizes e cheios de entusiasmo na cidade que escolheram para experimentar pelos próximos tempos. A gente perdoa a desfeita de ir morar longe. Enfim, foi um final de semana de muito aconchego.
 
Com essas crianças na foto, vocês não vão reparar nas nossas caras lambidas e sem maquiagem, néam?
Vejo ninfas: é nóis, mano!


O tal Catavento não decepcionou. Amanda era pinto no lixo, Arthur pegou carona, a amiga curtiu junto, e a irmãzinha da amiga matou todo mundo de fofura - bebês felizes e fofuchos salvam o mundo, vamos combinar?

Pinto no lixo
Pinto no lixo no escuro.
O Arthur sabe que o mundo pode ser uma bolha.
Amanda auxiliando no laboratório de química - a parte mais divertida da visita ao museu.
Quarteto de cientistas - se cuida, deGrasse!
Equipe vencedora da batalha de robôs de lego - aniversariante pé quente.
O Catavento foi tão divertido que voltamos a ele no dia seguinte para sessões (e seções) que não conseguimos ver no sábado. Na tarde de domingo, rumamos para a Paulista. E sei nada da cidade, mas que delícia aquela avenida aberta para ciclistas, pedestres, skatistas, bandas, barulheiros em geral. O dia ensolarado parecia mais um presente.
 
Gatinhos na Paulista.
Em frente ao MASP, ainda reforçamos o grito de Fora, Temer! porque sim. E então entramos. Íamos à caça de Portinari. As crianças seguiram brincando por entre as obras - os adultos se renderam à exposição, não parávamos de ganhar presentes.
 
Imagem linda, foto ruim: Meninos soltando pipas

Mulher e criança

Marias
Mulata de vestido branco - a luz dos mestres no vestido. Arrebatador.

Ulisses e Criança morta. Nenhum silêncio dá conta.
 
Retirantes. Há tanto nesse quadro. Impossível não me lembrar das longas reportagens sobre a fome nos anos 80. O quadro é de 1944. A tristeza do mundo é longa.


Crianças brincando em frente ao Crianças brincando.

O lavrador de café.

Cabeça de mulato.

(Detalhe menor: gostei muito da disposição dos quadros, todos em um único salão do museu. É confortável, amigável, fácil de ver. A exposição está aberta até meados de novembro. Detalhe menor ainda: só tiro fotos tortas.) 

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Em meio a tanta beleza e tanto carinho, minha amiga e eu celebramos a amizade e a sorte, juntamos nossos desejos de alegria, choramingamos nossas desesperanças - nós que nos entendemos tanto. Acima de tudo, festejamos aquilo que nos uniu, a amizade de nossos filhos. Amanda na verdade nos deu de presente esses amigos quando se aproximou da sua amiga na escola. O mínimo que a gente pode fazer pra retribuir é se reunir sempre que der. Pra tomar vinho, cerveja ou café. Pra falar da vida e planejar viagens absurdas. Pra resolver todos os problemas políticos do país. Pra brindar ao fato de que a gente nunca sabe, mas que a caminhada pra tentar aprender faz tudo valer a pena. Obrigada, seus lindos.


A casa deles é assim: um presente cheio de beleza, com promessas de um futuro também cheinho delas. :-)

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Feliz aniversário, Amanda (de novo)! E obrigada por ter nos proporcionado um final de semana inesquecível. Mais um. ;-) Te amamos, gatinha.

Twinkle twinkle...


Você pediu uma luneta de presente. O aniversário ainda não chegou, a luneta foi mais rápida. Sua carinha enquanto a gente montava a coisa brilhou mais do que a lua - que hoje tá linda. E foi tão bom correr pro quintal e mirar as crateras. Que lindas as crateras, Amanda! Que presentão que você pediu e que todos nós ganhamos. Seu aniversário é uma festa em nossas vidas, todos os anos. Nesse, de novo, parece que não vai ser diferente. Que noite linda ganhamos hoje. Parabéns, já. E ainda nem chegou seu dia. 

Sua primeira espiadinha.
Se astrônoma, boleira ou dançarina borboletante, não sei. Radiante, sempre - é o que espero, querida. 

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A luneta foi batizada de "Amanda Primeiro" - a explicação: "porque eu olho primeiro!". Achei justo; a fila é impaciente, mas o presente é dela.

O genial espalhafatoso


Havia na biblioteca de minha mãe uma bíblia dividida em doze pesados volumes encadernados em capa dura, com páginas ricamente ilustradas. Acredito que essa tenha sido mais uma das coleções compradas fascículo a fascículo e encadernadas posteriormente. Era uma prática comum "naqueles tempos". Foi assim com algumas coleções que tínhamos em casa nos anos 70-80; a enciclopédia Conhecer, por exemplo, com seus imensos volumes em vermelho vivo, ou a Enciclopédia do Estudante, que vi se formando aos poucos e que adorava folhear sempre que era incumbida de limpar os muitos livros da estante de madeira escura.

Um dos volumes que costumavam atrasar a faxina era o último daquela tal bíblia ilustrada, todo dedicado a templos católicos mundo afora. Era recheado de fotografias de imensas e pomposas igrejas, com informações sobre o lugar onde se encontravam, o santo/santa/entidade a quem eram dedicadas, e que tais. Eu folheava aquilo e ficava impressionada com a beleza de algumas construções que mais pareciam castelos incríveis. No meio daquilo, havia a Sagrada Família, de Barcelona.

Nunca fui a Barcelona, mas vem dos tempos da faxina na estante de minha mãe a curiosidade em relação àquele prédio. Sempre que leio ou vejo algo sobre o templo, fico ali imaginando a imensidão e maravilhosidade daquilo, daquela floresta de torres. Enquanto não rola Barcelona, fui ao MASC dar uma espiada na exposição Gaudi Barcelona 1900.

O moço dos arcos, sulcos, tríglifos, métopas, arquitraves, cornijas, estilóbatos... (oi?) 
A exposição vai além de maquetes e fotografias de obras do próprio Gaudi. Como o nome bem diz, é um retratinho da Barcelona do início do século XX. Então a gente espia um tiquinho das ideias extravagantes do dito cujo e também um pouco da obra de outros artistas contemporâneos das abóbadas espetaculares.   

Acho que ela ouviu um barulho. (Ramon Casas)
Há mobília e adornos, portas e puxadores, algumas fotografias de interiores de casas projetadas por Gaudi. Tudo exuberante, tudo... muito. As cadeiras, no entanto, são puro charme.



Talvez para quem entende a teoria por trás da concepção artística de Gaudi a exposição tenha apelos que nem desconfio. Para mim, resta o respeito ao que me parecem coisas criadas por uma mente que girava em rotações que desconheço. A certa altura, paramos diante de uma placa que explica o sistema de cálculos usado por Gaudi em um de seus projetos. O sistema "simples" é descrito assim: 

Desenhava a planta desejada e pregava um barbante em dois pontos da planta. O cordão pendurado formava um arco, uma catenária. Colocava saquinhos com pequenos pesos de chumbo que correspondiam ao peso que receberia um determinado ponto da catenária, por compressão. A catenária ia se deformando e adotando a forma final, traçando um arco funicular. Após completar todas as linhas estruturais do edifício com cordões, Gaudi preenchia com telas os espaços entre os cordões para obter a textura definitiva do edifício. Uma vez concluída toda a planta, fotografava o conjunto pendurado e invertia a fotografia para obter a forma final do edifício.

Lendo assim, parece fácil e divertido, uma brincadeira de criança. Aí a gente olha as fotos e vê que, well, melhor não tentar em casa. 




Diz-se da obra de Gaudi ser "odiada por alguns, admirada por muitos". Ulisses disse ser fácil imaginar quem o odiava: os pedreiros... Eu sequer consigo imaginar como se colocam aquelas coisas de pé. Sigo com vontade de visitar Barcelona, entrar na inacabada floresta de torres... e olhar pra cima.



A exposição no MASC/CIC/Floripa está aberta até 30/10/2016. 


A little bit of spring


E eis que depois de mais de onze anos de vida nosso ipê resolve exibir suas primeiras flores. Mal conseguimos enxergá-las nos galhos mais altos da copa. Outras, tímidas, não passam de silenciosos pontinhos de primavera despencados sobre a grama. Mas são um prenúncio, e sou grata. 



Minha árvore generosa. Obrigada.

Retrato de uma nova leitura velha


Comprei minha edição de Um Retrato do Artista Quando Jovem nos tempos da faculdade - em setembro de 1995, segundo a data que anotei na folha de rosto. É uma edição comprada em sebo, velhinha com bordas amareladas (Ed. Siciliano, tradução de Bernardina Silveira Pinheiro). Apesar de todo o culto em torno da obra de Joyce, não guardei nenhuma lembrança de minha primeira relação com o livro. Dia desses, num momento mais enfadonho de Olhai os Lírios do Campo, fui fuçar os livros na estante e comecei a folhear Retrato do Artista. Fui lendo parágrafos aleatórios, saltando páginas. Ri da coincidência de retirar da prateleira justamente aquele livro que, tal como Lírios, também falava das angústias de um garoto em seu colégio. Li vários trechos, mas não me lembrava do rumo da história. Deduzi então que certamente havia abandonado a leitura na década de noventa e larguei o livro na mesinha de cabeceira. 

Voltei a ele logo depois de ler os dois primeiros livros da tetralogia de Elena Ferrante (aguardo o terceiro com vontade); daí vieram as Olimpíadas-leio-depois. Agora, sim, sei de Stephen Dedalus e do que me levou a comprar o livro anos atrás, bem na época em que andava abraçada aos contos de Clarice. Certamente as referências apontadas por tantos críticos que associam a escrita da brasileira a traços da escrita do irlandês me levaram a ele. Ainda assim não fui fisgada por Joyce naquele tempo, minha admiração por ele só surgiu muitos anos depois com alguns dos contos de Dubliners.

Agora sei de Stephen Dedalus, alterego de Joyce. Talvez um dia eu o reencontre nas páginas de Ulysses, um eterno "leio-depois". Por enquanto, vou ficando com a experiência que foi caminhar pelas brumas dos três capítulos iniciais do livro para desembocar no jogo de luzes que o quarto capítulo joga sobre o protagonista e os leitores. Retrato do Artista, com a maior parte de suas ações ambientadas na Dublin do início do século XX, gira em torno de um garoto cuja família mergulha na pobreza à medida que ele cresce, e de suas crises existenciais diante do autoritarismo, dos valores de sua igreja, do isolamento aonde sua caminhada cheia de perguntas o leva. Seria inicialmente um ensaio autobiográfico, mas foi editado e transformado em romance depois de ter recusada sua publicação. Pra mim foi acima de tudo um livro sobre a alegria da ruptura. Ruptura que chega com o voo do Dedalus no quarto capítulo - ainda que isso não signifique solução ou alívio, talvez apenas as outras cores da angústia da vida adulta, do artista em formação.

Normalmente viro o livro do avesso antes de começar a leitura: vejo orelha, contracapa, prefácio etc. Dessa vez, pela forma como o livro pulou da estante em minha mão, passei direto para o miolo. Somente depois de finda a leitura, reparei na orelha escrita pelo Professor Roberto O'Shea, de quem tive a sorte de ser aluna na pós-graduação da UFSC (acho graça agora saber que por anos fui sua aluna sem me dar conta da orelha dele em minha estante [risos]). Está lá que "qualquer observação crítica generalizante [de Retrato] será redutiva". Deve ser. Digo apenas que sorri com o protagonista lá pelas tantas, quando Stephen se viu sozinho, "ignorado, feliz e perto do coração selvagem da vida". Foi bom e fiz high five. Como se sabe, a solidão é muitas vezes uma companheira inevitável, independente do barulho a nossa volta.

Da beleza


Há a vitória, a derrota, as surpresas. Em tudo, a beleza.

Vi as Olimpíadas exatamente da mesma forma como em todas as outras vezes, pela TV. E ainda assim, que enorme diferença. Era tudo logo ali, mesmo que não fosse. Pela TV, Pequim, Londres e Rio deveriam ter a mesma distância, mas não. A Rio 2016 foi quase ao alcance da mão. Era como estar com um pé lá (e quase estive, mas disse não), como se meu grito pudesse ser ouvido pelo atleta na quadra na hora do saque. Tudo pela vontade de que desse certo, de que pudéssemos receber bem e celebrar o esporte com o coração na mão. 


As imagens que encheram meus olhos nas últimas duas semanas valeram o sono e a leitura adiados. Os sustos e surpresas compartilhados com quem estava no sofá ou do outro lado da tela do telefone transformaram as horas. Foram dias mais largos: já saíamos pro trabalho com um olho na esgrima; no almoço, sempre tão corrido, cabia uma luta de judô. Jantamos com pólo aquático e só dormíamos depois que a última bola caía na areia de Copacabana. Pela TV, o povo dessa casa torceu por pessoas de quem nunca tinha ouvido falar e vibrou com velhos "conhecidos". Algumas vezes, não importava muito a cor da camisa, numa Olimpíada a gente torce pela beleza, pela superação, pelo humano, pelo pequeno, pelo gigante, pela inteligência do corpo, pela garra, pelo improvável. A gente torce, é como gostar, sentir e espalhar carinho. É bonito e bom. 


Tantas cores na pele, nas bandeiras, nas camisas dos atletas realçam quão vasto é o mundo, quão diversos seus habitantes. A diferença enriquece nossa experiência nesse planeta, é bom que seja assim. De tempos em tempos, a gente junta todo mundo num mesmo palco e curte o deleite.







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Passou. Que nossa capacidade de enxergar o belo nunca esmoreça. 


(Todas as fotos deste post: aqui)

 
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