What if...


E se a gente abrisse uma passagem secreta no azul daquele céu e escapasse de fininho pra uma tarde de nós duas? Se a gente fugisse em nossas bikes, que tal?

E se a gente pegasse água, biscoito e chocolate, e fingisse um banquete na grama, com brindes de uma aventurinha só nossa?

E se a gente soubesse os segredos do parquinho, os melhores cantinhos, as curvas mais legais?






E se o tempo parasse na nossa tarde?


(Spoiler: não vai parar, amor. O tempo pedala mais do que a gente, vai vendo. Mas tomara que você sempre tenha a alegria em seu caminho. E que nunca nunca nunca perca o mapa para a fonte desse seu sorriso. Faz favor, né. Sua linda.)


De medos, risos e labirintos


Enfim passei alguns dias na tal abadia italiana do século XIV. Segui os passos de Adso de Melk e do frei Guilherme de Baskerville em meio aos torreões da biblioteca-labirinto, entre um assassinato e outro. Em cada coluna da abadia, que imaginei linda, vi soberba, desejo, hipocrisia, fé, perguntas; e, especialmente, poder e medo (quanto mais se impõe o segundo, mais se ganha o primeiro, desde tempos imemoriais, não é mesmo?). Sei que vocês já sabem, mas me deixem repetir: O Nome da Rosa (Umberto Eco, Ed. Bestbolso, tradução de A. F. Bernardini e H. F. Andrade) é uma delícia de livro.

"Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus."

Deve caber sob o rótulo de "romance policial", talvez igualmente se preste à denominação de "romance histórico", cada leitor que se divirta do seu jeito. Pra mim, a trama policial serve de boa fachada, vá lá, mas o livro foi como uma catedral que além do colorido dos vitrais vistos de fora me ofereceu o jogo de luz ainda mais interessante lá dentro da nave. A gente vai brincando de polícia e ladrão, imaginando o barato que seria desvendar as esquinas da labiríntica biblioteca da abadia, maravilhando-se diante do trabalho dos escrivães da época (e como não?), mas no fim ninguém se engana: de página em página, o velho novelo da imposição do medo a dominar corações e mentes vai se desenrolando. E aos pouquinhos a gente vai descobrindo as verdadeiras caras do "diabo". Das leituras que a gente deixa pra depois porque não sabe o que está perdendo, não sabe o tanto que a obra diz sobre a força... do riso. Saboroso.

***  

A edição da Bestbolso traz nas páginas finais algumas considerações de Eco sobre o processo de criação do livro. Traduzido como "Apostilas a O nome da rosa" (datadas de 1983; a primeira edição do livro é de 1980), são 35 páginas de brinde para quem está lamentando ter terminado a leitura. As breves seções desse texto são pitadas do próprio Eco sobre as pesquisas para a escrita, sobre a Idade Média e a "criação do mundo" da história, as revisões da obra, a voz do narrador, o leitor imaginado, o romance policial etc.
"(...) Um título deve confundir as ideias, não enquadrá-las."

"(...) Descobri, então, que um romance nada tem a ver, em primeira instância, com as palavras. Escrever um romance é uma tarefa cosmológica, como a relatada pelo Gênese (temos, afinal, que escolher algum modelo, dizia Woody Allen)" - Aqui Eco nos conta que passou todo o primeiro ano de trabalho em torno do livro dedicado à "construção do mundo".

"(...) A luta contra a emoção foi duríssima."

"(...) E eu, que leitor modelo queria, ao escrever?  Um cúmplice, claro, que topasse meu jogo." 
 o/

"(...) Há dois anos venho me recusando a responder a questões ociosas. Do tipo 'sua obra é aberta ou não?' Que sei eu, isso não é comigo, isso é com vocês. Ou então: 'com quais de seus personagens você se identifica?' Oh, Deus, mas com quem se identifica um autor? Com os advérbios, é óbvio." 

"(...) cada um tem uma sua ideia própria, geralmente errada, sobre a Idade Média. Somente nós, monges daquela época, conhecemos a verdade. Só que, ao dizê-la, somos às vezes levados à fogueira." 
:-)

***

Quando Eco morreu, em fevereiro deste ano, lamentei. Hoje, lamento muito, muito mais. 

Scream


"I was walking along the road with two friends -
the sun was setting - 
I felt a sort of breath of sadness - 
The sky suddenly turned blood-red - 
I stopped, leaned against the fence, deadly tired - 
looked out over the flaming clouds, like blood and swords
above the bluish-black fjords and the city - 
My friends walked on - I stood there quaking with angst - 
And I felt as though a vast endless scream hang through nature."


Edvard Munch 
(no capítulo "Written texts by Munch related to Scream", 
em The Scream, Munch Museum - Ed. Vigmostad Bjorke)
(Thanks, Lili.)

Episódio de hoje: O Plano


Tudo começou num dia de inverno azul...


- Que tal dominarmos o mundo?
- Legal. Vamos reunir o pessoal.
- Pessoal, o plano é o seguinte...
- Beleza, eu levo a bola. 
- Acho que esse é o melhor caminho.
- Vamos.
- E aquele ali, não vem?    
- Depois, agora tô de boa.
- É cada ideia...
- Okay, vamos continuar com o plano. 
- Quem tá no comando?
- Eu!
- Alô, Mundo? Prepare-se!
- À vitóriaaaa!!!! 
- Partiu!!
 ***

E o dia seguiu, o mundo dominado, cada hora mais lindo. Até que a Lua veio e mandou todo mundo guardar as bikes, tomar banho e ir pra cama. 

***

Fim (ou não)

Quase sem querer - Arthur e a tocha


A caminho do café, o sinal fechou e parecia que nunca mais ia abrir. A gente ficou lá esperando, que remédio? Quando finalmente ficou verde, ninguém se mexeu. Arthur, com fome, reclamou. Aí estiquei o pescoço e vi os cones. O trânsito estava interrompido e a pista do lado, em sentido oposto, vazia. Certamente era a tocha, sabíamos que ela estava circulando pela cidade, apesar de não termos dado muita bola para a passagem. Cinco minutos antes tínhamos comentado que conduzir a tocha tem um significado bacana para quem se envolve de perto com esporte. O simbolismo é mesmo bonito - sair da Grécia, convocar a todos, venham ver homens e mulheres buscando seus limites, venham todos. Mas a gente levou o domingo em outras vibes. Até ali. 

O trânsito parado não nos deu escolha. Saímos do carro, o casal de amigos no carro à frente também. Ficamos curtindo o friozinho de final de tarde no canteiro que divide a rua. E lá veio ela. Não sei quem a conduzia naquele momento, mas aplaudimos, demos vivas. Arthur ficou animadíssimo, todos ríamos da coincidência - muita gente se organizou pra ver, esperou em vários pontos da cidade. A gente ganhou a tocha praticamente em nossas mãos, de presente. Foi bacana, apesar de tudo que ronda esses jogos (falo disso depois, talvez). Esporte é um troço, né, o frio na barriga. Por fim, a equipe de TV abordou o Arthur que, todo feliz, disse que nunca vai esquecer o momento em que viu a tocha olímpica pela primeira vez. Perdemos o pôr do sol que queríamos ver num café da Lagoa da Conceição, mas nem reclamamos.

***
 
(O engraçado da história: a repórter perguntou algo como "você, que esperou tanto pra ver, o que achou?". Depois, diante de nossos sanduíches, comentamos como seria engraçado se o Arthur tivesse dado uma resposta na vibe "o sincero" - "Na verdade, não esperei nada, até reclamei do trânsito parado porque tava como fome, mas, né, já que estávamos aqui e tal...")

O tempo, os ventos e o solo (de clarineta)


Um contador de histórias, assim se definia Erico Verissimo. Depois de contar muitas delas - mais de vinte romances, contos, livros infantis e os sete volumes d'O Tempo e o Vento - decidiu contar a história do contador. Solo de Clarineta, volumes I e II, encerrou a carreira do gaúcho. Com sua morte, a autobiografia, projetada para ser lançada em três volumes, foi interrompida durante a preparação do segundo livro. "Vou fazer o possível para continuar vivo e ativo por muito tempo", escreve ele em conversa com o espelho que o interroga: o ato de escrever a biografia é, afinal, uma despedida?

Não deveria ser. Verissimo deixou escritos, listas e rascunhos que apontavam para novos projetos. Morreu aos setenta anos. Ainda que cansado e convivendo com o fantasma do problema cardíaco que o acompanhava há anos, a impressão que fica é a de que ainda tinha histórias para contar.

E ele gostava de contar. Diante de seus relatos cheios de minúcias, parece evidente que a fonte era farta. Nas passagens em que descreve jantares e conferências, dos tempos em que atuou junto ao Departamento de Assuntos Culturais ligado à OEA ou de sua passagem por Portugal em 1959, a leitura chegava a ser, para mim, cansativa. Cada nome, rosto ou detalhe recebe uma descrição, uma nota que seja. Felizmente, o contador logo retoma um ritmo mais amigável - eu seguia lendo, com alegria. 


O primeiro volume cobre desde a chegada dos Verissimos ao Brasil, vindos de Portugal no início do século XIX, ao lançamento d'O Tempo e o Vento (Continente). Foi de longe meu volume favorito pela narrativa com tons de "contação" de história, como se diz aqui no sul do Brasil. A infância do menino com uma árvore no quintal e um livro no colo, um lar com as dores de um casamento infeliz, o colégio e os horrores da matemática (Verissimo era péssimo com números, destetava-os), a farmácia da família, a transformação do pai bonachão em persona non grata, os fantasmas que nasceram com a derrocada do pai, a rotina do pequeno município de Cruz Alta no interior do Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do século XX... tudo é elemento digno das melhores histórias. No caso, uma história que caminha para um final feliz, de sorte e acertos, mas nem por isso livre de grandes e imponentes sustos e dores. Gostei de saber da trajetória vitoriosa do rapazote que escrevia contos em papel de embrulho, escondendo-se do chefe do armazém onde trabalhava, e se transformou em ícone da literatura de um país. Uma história boa.

O início do segundo volume nos apresenta ao grave problema cardíaco do escritor já famoso. Recuperado de um enfarte, Verissimo se lançou em viagens pela Europa. Os relatos dessas viagens praticamente preenchem todo o segundo volume da autobiografia. Como apreciei muito as narrativas do primeiro, mais voltadas à vida e à obra do escritor propriamente ditas, fiquei mais distanciada do segundo - que tem mais cara de livro de viagens do que de biografia. Ainda assim, fiz lá umas marquinhas em minhas passagens favoritas. E se um dia visitar Portugal, certamente voltarei a ele. Verissimo virou Portugal de cabeça para baixo. Tem-se a impressão de que não houve cidade não visitada, escritor português não mencionado, universidade ou templo não contemplado. É quase uma homenagem ao país de Eça. E de Camões. Pessoa. Camilo. Todos.

Ao longo dos dois volumes, a presença/ausência do pai Sebastião Verissimo nos dá uma ideia do gigantesco papel que ele teve na vida do autor - cada referência ao pai é tocante, ainda que tantas vezes carregada de dor. Em todos os capítulos, o tom que vi era o de um homem deveras solene, erudito, amante das artes e da liberdade. Humanista agnóstico, Verissimo gostava de templos (como eu - e o entendo tanto nessa aparente contradição) e definia sua rejeição à violência e seu amor à liberdade e a ideiais de justiça social como uma experiência religiosa, de comunhão. 

A edição dos dois volumes pela Cia das Letras tem muitas fotografias, além de desenhos, rascunhos e roteiros do escritor. O segundo volume traz ainda algumas cartas datilografadas, entre elas uma para o casal Clarice Lispector & Maury Gurgel Valente (1957), outra para (minha adorada) Lygia F. Telles (1970). A segunda parte desse mesmo volume traz nota explicativa do organizador da edição, Flavio L. Chaves, marcando a interrupção da escrita devido à morte de Erico. Flavio sinaliza o que é rascunho, e o que era texto já editado nas páginas finais. Por fim, presenteia o leitor com duas versões para a finalização do livro, o tal diálogo com o espelho (mesmo sem ter escrito todos os capítulos, Erico já havia preparado o desfecho do último volume; uma segunda versão foi encontrada, entre rascunhos). E então entendemos o porquê de a obra se chamar Solo de Clarineta.

É sobre a vida no interior do Rio Grande no século XX; é sobre o amor à literatura; é sobre ser artista; é sobre a liberdade; é sobre relações pai/filho; é sobre os ventos que levaram o contador a viajar pela Europa - ventos da Grécia, Portugal, Holanda, Espanha; é sobre o repúdio às ditaduras; é sobre o lar que buscamos ter. E é sobre a obra do Verissimo que, enfim, quero ler. 

Plano de fundo


Quero contar à parte de você que vive em mim o que fiz no dia do seu aniversário.

Não tivemos pressa de sair da cama, Ulisses e eu. Aproveitamos com folga a manhã de domingo, sentindo um a companhia do outro, saboreando o conforto de estarmos juntos. Quando a fome veio, passamos um café fresquinho, comemos qualquer coisa e voltamos pra cama. Deixamos um pouco da claridade entrar por uma fresta da cortina e, no silêncio de uma casa com crianças ainda dormindo, lemos nossos livros, fizemos planos para a semana que começa já. Quando as crianças acordaram, arrumamos uma coisa aqui, outra ali, e fomos juntos ao mercado. De volta pra casa, Ulisses fez nosso almoço. Comemos juntos, brindamos. Passei toda a tarde na cozinha fazendo bolos. Acho que você iria preferir o de laranja, é um palpite forte. No início da noite, fomos ao cinema. Voltamos pra casa falando que você faria 76 anos hoje. Amanda cantou parabéns. Arthur me deu um abraço. 

Tenho muito carinho pelo banal desse dia. Nada aparentemente grandioso, pequenos prazeres sem muito barulho. E, no entanto, é o melhor de mim. Minha bolha da qual eu tanto gostava de falar com você. Gosto do que vejo em primeiro plano, mas sei também do plano de fundo, sua mão. Em seu último aniversário, há seis anos, eu disse que trazia sua mão sempre segurando a minha. Ainda é assim. Então é banal, mas é tão bonito.

O dia 03 ainda é seu dia, todos os anos.
***

Há dias uma neblina paira sobre os morros que cercam meu bairro. De nosso quintal vemos uma nuvem estacionada sobre a mata, como algodão doce, contrastando com o fundo azul do céu. É um fenômeno meteorológico certamente comum; e tão bonito. 
 
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