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Uma das coisas bacanas da infância é a alegria besta, daquela com gargalhadas emboladas, por causa de coisas pequenininhas. Hoje botei alguns presentes no pé da árvore, onde ficarão até a noite de Natal. É um pouco torturante, reconheço. Uma tentação sem fim, coitadas das crianças. Olham, salivam, pegam, balançam, pedem pra abrir "um só", e eu, carrasca, digo nananina-ninanão. Reconhecendo as embalagens da livraria, Arthur implora pra abrir pelo menos os livros, mas Ulisses insiste que aquilo é na verdade uma vara de pescar, não é livro coisa nenhuma.

Só que não é da alegria de ver os presentes que estou falando, mas das etiquetas. Hoje quando fui preencher as etiquetinhas "de... para...", substituí o "papai e mamãe" por personagens habitantes do imaginário deles. Arthur adorou ver que há um presente para ele vindo de ninguém menos que Harry Potter himself! Morreu de rir ao ver que o Martin McFly, do recém-visto e adorado Back to the Future, também lhe mandou um presente de Natal. Amanda foi lembrada por Elsa e Olaf. Ao ver a etiqueta "De Coelhinho da Páscoa Para Arthur", então, ele me lançou o melhor dos olhares: 

- Ai, mãe, aí você forçou, hein? Agora só falta a Fada do Dente me trazer um presente de Natal.

Fui logo dizendo que não tenho nada a ver com isso, apenas ia passando na rua e me pediram pra trazer essas encomendas e coisa e tal. Foi mais divertido do que abrir os presentes. Adorei e recomendo. ;-)

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A & A: Eu quis contar aqui pra vocês dois lerem no futuro, caso se esqueçam. Porque foi divertido demais, demais. 

Do que fica


Às vezes acho que a gente cria "coincidências", inventando convergências para dar mais sabor a coisas sem qualquer parentesco ou semelhança. Como quando dizemos: olha, que coincidência, você me beijou pela primeira vez no dia em que fazia três anos que eu tinha passado no vestibular! Pois. Um jeitinho bobo de dar mais graça a eventos desconexos, mas com importância suficiente para querermos alçá-los à categoria "coisas incríveis".

No ano passado, a editora entregou os primeiros exemplares de Contos do Poente no dia 09 de dezembro. O carro do correio chegou no final da manhã. Era o dia em que eu revivia pela terceira vez a cronologia de seu último dia na Terra. A cada dezembro agora é assim. É bem verdade que penso muitas vezes nos momentos que antecederam sua partida em dias aleatórios ao longo do ano, em momentos absolutamente inesperados em qualquer estação, seja enquanto redijo um documento no trabalho, dou boa noite ao Arthur ou escolho tomates no mercado. Mas a cada 09 de dezembro a folhinha do calendário fica mais pesada, e o peito também. Nem sou tão ligada em datas, você bem sabia, mas o dia 09 de cada dezembro me traz você grande de novo. Então amanheço sabendo que eu tomaria café e iria à UTI para o horário das visitas e que eu conversaria com você como se você pudesse me ouvir. E que, momentos depois de eu sair, o hospital nos telefonaria e nós regressaríamos para lá absolutamente perdidos. E que o mundo seguiria girando no espaço, meus olhos arregalados, minhas mãos oscilando à procura das suas tantas vezes, meus filhos crescendo, a vida seguindo, você em mim.

Chega o dia 09 de dezembro de novo e me lembro de que no ano passado o carteiro me entregou os livros do lançamento e eu pensei "bem na hora em que mamãe se foi", como se existisse qualquer relação entre o horário do carteiro e a última batida do seu coração cansado. Uma invençãozinha para permitir importância a qualquer outra coisa no dia nove que não seja o fato de que você não podia mais.  

Em poucos dias irei à nossa antiga casa ouvir os ecos de minha infância. Vou de ouvidos bem abertos, com uma canção no coração. Aprendi que o amor fica. 

Bryson, o tempo e o Escorpião


Antes de ontem à noite estiquei o braço e alcancei a prateleira mais alta da estante, mas não a mais bagunçada, onde estava meu exemplar de Breve História de Quase Tudo, iria emprestar a uma amiga. Levei o livro para meu quarto onde cada membro da família lia ou teclava alguma coisa. Arthur me perguntou que livro era aquele, falei do que se tratava e disse que, olha, você bem que poderia dar uma olhada, acho que você ia gostar e tal. Ele abriu e viu, na primeira página, nossos nomes escritos com minha caligrafia: "Rita, Ulisses e Arthur, 2006". Mostrou à irmã:

- Olha, Amanda, seu nome não está aqui.

A carinha que ela fez cortaria mil corações. E me olhou, inquisidora. Arthur esclareceu:

- Você ainda não tinha nascido quando a mamãe comprou esse livro, né?!
- Você meio que já existia no coração dela - acrescentou o pai, idealizando só um pouco.

Aparentemente, a explicação não foi suficiente. A cara dela não melhorou muito, a recusa em visualizar um tempo em que não estava ali, naquela cama, em nossa muvuca de fim de dia. Aí me dei conta de que Bill Bryson entrou na minha vida antes da Amanda, o que pode entrar para o rol das comprovações da relatividade do tempo. Porque Amanda é mais espaçosa do que o Bill, parece que está aqui há mais tempo do que consigo medir, mesmo levando em conta todos os bons momentos que a escrita dele me dá.

No dia seguinte minha amiga elogiou a edição toda linda, levou o livro pra casa e sugeriu que eu acrescentasse ali, ao lado dos três nomes, um coraçãozinho planejando a Amanda que viria no ano seguinte. Vejam vocês o cordão do puxa-sacos da minha filha.

Enquanto isso, ainda leio Little Women, atrasada, meio fora de tempo. Uma leitura que deveria ter sido feita aos 15 anos, talvez. Mas sigo lendo, meio curiosa, que o tempo é elástico e a menina que fui ainda está aqui. O que não me impede de sugerir ao Ulisses, assim, meio sem querer, que, olha, em alguma época dessas aí em que o povo costuma dar presentes... sabe, não tenho todos os livros do Bryson e tal. Ele mal me escuta, anda com a cara enfiada em Dezoito de Escorpião, livro que lhe dei no aniversário depois de mendigar sugestões de histórias scifi aos amigos. Parece que a sugestão foi das melhores, posto que falo com meu marido e ele nem mais responde, vão vendo. Vou ali fazer uma lista de coisas com as quais quero que ele concorde e ouvir um "tá" desinteressado. Tipo livros do Bryson.

We will not grow old


De vez em quando, no meio de um dia especialmente corrido, a gente pensa "ah, quem me dera ao menos uma tarde de folga para botar aquelas pendências mais ou menos em dia!". Hoje tive uma tarde dessas. Fiz as unhas - pendência da maior importância - dei uma passada na livraria, comprei manteiga. Depois fui pra casa. As crianças na escola, você resfriado. Sua tarde de folga veio a calhar, seu corpo pedia repouso. Mas a calhar mesmo foi o fato de essa bonança ter vindo na véspera do seu aniversário. A gente pôde começar a comemoração um tanto mais cedo, fazendo algo que a gente faz muito bem, ficando juntos. Tão bom ver que gosto cada vez mais desse lance aí, não importa o número de anos que compartilhamos. É como vinho, só melhora. Como os anjos estavam todos dizendo amém, passou Friends na TV, bem aquele episódio antológico do famoso "break". Friends foi ao ar pela primeira vez no ano em que nos conhecemos. Dez anos depois, algum tempo depois do nosso próprio break, compramos a última temporada e rimos juntos das velhas piadas vencidas. Hoje olhei para Ross & Rachel como quem observa um amuleto. Nós conhecemos todas as falas, uma pequena amostra do conforto que nos cerca. A gente se sabe, meio de cor. E a gente também sabe que sempre há descobertas, a gente deixa que elas venham. E a gente se aprende de novo e se redescobre, tal qual desejamos lá atrás. A gente envelhece e rejuvenesce e se reconhece. Dia desses você falou daquela canção da Lenka, quando ela diz que "we will not grow old"; você disse que é bem assim, ainda somos aqueles, da faculdade. Acho que entendi. Claro que mudamos, mas trazemos aquela vontade no peito, todos os dias desse agora. E ainda vibramos com uma simples tarde de folga que nos permite ficar grudados vendo um seriado velho na TV. Chamo isso de vencer na vida.

Então você sabe, estar com você ao longo dos anos é minha fonte maior de alegria. Seu aniversário é um pretexto maravilhoso para sublinhar isso aí. Te amo mais e mais. Seja feliz, seu lindo.  

Azul


Durante algum tempo, Belo Horizonte foi para mim a cidade onde Ulisses morava. Não era a capital de Minas ou a terra daquele povo simpático, mas o lugar para onde havia se mudado aquele menino com quem namorei na faculdade. Parecia um ciclo encerrado, o mineiro que havia voltado para casa. Isso foi antes de ele trocar Belo Horizonte por Floripa, claro, e a gente se entrelaçar de novo. Aí BH voltou a ser só a capital de Minas mesmo.

Com a mineirice, Ulisses trouxe o Cruzeiro para perto de mim. Não muito, que minha relação com futebol não é lá esse romance todo, vocês sabem - salvo em Copas, quando me rendo, facinha. Já o campeonato brasileiro não costuma tomar nenhuma tarde de domingo em minha vidinha afutebolística. Acontece, porém, que quando derrotou o Grêmio de virada na semana passada, o Cruzeiro ficou a um passo do título brasileiro (de novo). A mineirice de Ulisses aflorou com força. Foi um tal de reservar passagem e comprar ingressos antes de terminar a frase "Vamos para Bel..?". Quando dei por mim, estava dentro do Mineirão. O brasileirão, olha só, tomou de mim um final de semana inteirinho.

Não posso dizer que revi BH. Foi uma viagem corrida, no melhor estilo vim, vi pouco, venci. ;-) Do pouco que observei da janela do carro ou do curto passeio pelo bairro onde ficamos, vi uma cidade ainda maior do que eu me lembrava, mais barulhenta, mais agitada, mais mais mais. BH tamanho GG. Passamos metade do sábado no avião, metade da tarde tentando almoçar e o resto do dia paparicando meu cunhado, de quem gostamos demais. Ainda consegui dar um rápido abraço em uma amiga (mas um abraço bem dado: com café e pão de queijo recheado no Café com Letras do CCBB, anotem aí, delicinha - a meia hora mais bem aproveitada de Belzonte), mas há tantas pessoas que eu gostaria de ter encontrado em BH, que nem vou contar essa viagem como visita social. Continuo devendo.

O domingo pertencia ao Mineirão e para lá nos dirigimos no início da tarde. Escolhemos um restaurante em frente ao templo, digo, ao estádio (esse negócio empolga) e lá tive um gostinho da farra que vocês, amantes do futebol, vivem a cada ano/campeonato/fim de semana. O restaurante estava tomado de azul. Mulheres e homens smurfs entoavam seus hinos como se estivessem prestes a entrar no campo de batalha - ou a seguir atrás do trio elétrico, dá na mesma.

Para os dois minicruzeirenses de nosso grupo, tudo era festa. Cantavam sem saber a letra, batiam palmas. Arthur e Amanda nos acompanharam na fuzarca e estrearam em estádios de futebol em tarde de gala. Não de galo - oops, desculpa. Com a barriga cheia e a chuva despencando do céu, vestimos nossas lindas capas de chuva (o moço das capas de chuva deve ter ganhado um bom dinheirinho) e atravessamos a avenida. Chegamos de sapatos encharcados ao palco do inesquecível 7 a 1.  E aí dou o braço a torcer e admito: um estádio de futebol lotado é um trem lindimais, sô. Para todos os lados, azul azul azul. (Parênteses para registrar que é muito legal quando a torcida entoa o hino nacional com ênfase em "a imagem do Cruzeiro resplandece" - de arrepiar.)

Arthur não perdeu nenhum lance. Amanda se assustou com o barulho no primeiro gol. Instruída pelo pai, berrou forte no segundo e já pegou o jeito (fez uma carinha impagável quando a torcida xingou o juiz, by the way). O jogo foi emocionante, com o Goiás ameaçando adiar a festa até o último minuto. E não sei se a torcida que berrava ter o melhor goleiro do Brasil está com a razão, mas certamente foi ele, o goleiro, quem garantiu nosso grito de tetra no final. O Goiás quaaase marcou, mas o Cruzeiro se segurou e o estádio explodiu. Se para mim a coisa foi divertida, imagino para quem se envolve de verdade, torce o ano inteiro, vai sempre ao estádio. Bom, meu pé parece ser quente, tamos aí, é só convidar.

Deixamos o estádio e fomos visitar um velho amigo do Ulisses - atleticano. Disse que nunca antes na história daquela casa tantas camisas azuis, em noite de título! O mundo não é uma graça? :-)

Nesta quarta-feira tem mais, final da Copa do Brasil. No mesmo palco, um clássico que promete alguns infartes. Daqui do meu canto de torcedora eventual, acho que dá Galo, para alegria dos muitos amigos atleticanos - tá meio óbvio, né, já com dois gols de vantagem. Claro que tudo sempre pode acontecer (vide 7 a 1), mas acho que o azul hoje vai mesmo ceder lugar ao lado de lá. Vumbora.

De resto, agora o Mineirão não é mais só o campo dos gols da Alemanha. É o campo do primeiro jogo que meus filhos viram, do primeiro título que vi de pertinho. O campo que, quem diria, sequestrou meu final de semana - tudo isso ao lado do mineiro que um dia trocou BH por Floripa, ainda bem. 


Dos posts invisíveis


Vocês não sabem, mas ainda escrevo neste blog todos os dias. A dinâmica das redes sociais me afastou das postagens diárias e há muita conversa barulhenta nos compartilhamentos e curtidas, mas continuo escrevendo aqui. Apenas não publico, sequer digito os posts. Escrevo em minha cabeça pequenos textos diários como na época em que era aqui, nesta sala, que as conversas se desenrolavam. Um blog pequeno como o meu costuma manter seus ares de sala de visitas e de vez em quando eu até servia café, lembram? Um bolinho, um comentário sobre aquele filme. Pois não se enganem. Se hoje é no Twitter que mais falo do filme ou se a discussão acalorada sobre repimbocas e parafusetas pega mesmo é no Feissy, continuo vindo aqui. Abro a porta em silêncio, divago sobre aquele momento em que Amanda me abraçou apertadinho, deixo cair das mãos uma ou duas linhas sobre o pôr do sol que vi enquanto pedalava na Avenida Beira Mar. Faço posts que nunca serão, todos os dias. Este blog tem uma camada mais sutil, que se desmancha na pedalada seguinte. Cada sopro do vento em meu cabelo dissolve uma frase que quase se escreveu. Mesmo assim, passo o café e pego o pote de biscoitos. A mesa continua posta.

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Entrevista que dei à TV Itararé, afiliada da TV Cultura, em março deste ano, no lançamento de Contos do Poente em Campina Grande. O pessoal do programa Diversidade fez uma edição bacana, pena que a entrevistada é meio estabanada e fala obviedades em vez de coisas interessantes. :-) Mas gostei de ver nosso livrinho tratado com carinho.


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A edição da Revista Plural que sai esta semana traz um conto inédito meu, Sonata. Os exemplares podem ser comprados pelo email scenariumplural@globo.com. Deixo um beijo de agradecimento à Lunna Guedes pelo convite. :-)

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Lá no Facebook estamos brincando de comemorar um ano do lançamento de Contos do Poente. Leitores e amigos escrevem qual seu conto ou ilustração favorito(a), publicam fotos com o livro ou nos mostram o lugarzinho que ele ocupa na estante de cada um. Eu pitaco: Palavras, da Luciana, é o conto que eu quis que abrisse o livro. É meu favorito pela maneira irresistível com que Luciana coloca o leitor dentro da cabeça da protagonista. 

(As vendas seguem pela internet, contosdopoente@gmail.com, e tem promoção de aniversário até 31/12: R$30,00. \o/ O livro segue à venda também nas livrarias indicadas aí na lateral do blog.)

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As férias me acenam da esquina. Não sei se vocês concordam, mas 2014 merecia férias em dobro. Alguém? Vamos fazer uma petição?


Hiatos e janelas


O período eleitoral foi uma espécie de hiato nas minhas leituras literárias. Uma amiga me disse que eu não estava sozinha: à parte as notícias sobre a campanha, o máximo que ela conseguiu ler no mês passado foram best sellers de narrativa plana e enredo dinâmico cuja leitura praticamente deslizasse diante dela. Quanto a mim, deveria ter adiado a leitura de Terra Sonâmbula, do Mia Couto (Cia das Letras), livro que certamente merecia mais do que consegui dar em termos de atenção e apreço. Mas insisti, lendo meia página de vez em quando, sentindo um distanciamento em relação ao livro que talvez não experimentasse em outras épocas. Quando virei a última página hoje, foi como se tivesse lido uma espécie de resumo do livro. Acho que vi as belezas, afinal elas saltam das páginas do Mia, mas sei que poderia ter me aproximado mais da história. Quem sabe um dia eu volte a ele.

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Iremos ao Nordeste em breve. Eu sei que não é época da canjica de lá, aquela amarelinha temperada com canela, mas não quero nem saber. Nem que eu tenha que visitar todas as padarias por onde passar, hei de matar minha fome. Meus filhos já se assanham para rever os primos, eu já sinto o cheiro da velha casa, já vejo os caminhos dela. É um pouco como voltar pra casa, ainda que de certa forma eu tenha espalhado minha morada pelo mundo. Morar é um negócio engraçado, uma via de duas mãos. 

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Então houve essa gripe teimosa que parecia não querer ir embora. Houve a resistência, não queria remédios. Só me entreguei porque senti tamanho desânimo que a birra ficou menor que a falta de paciência. Duas consultas médicas depois (que somadas não chegam a dez minutos), tenho drágeas de tamanhos variados e um nariz que bem merecia ser trocado. Fazia tempo que não me sentia doente e não havia nenhuma saudade, mas aparentemente meus anticorpos tiraram uma soneca. Em que momento coloquei a consulta com a homeopata no rol das coisas eternamente adiáveis?

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Minha alma andou gripada as well. Costumo manter a gaveta de mágoas bem trancada, ou pelo menos acredito que seja assim na maior parte do tempo. Daí que num descuido ela se abriu e atacou alergias antigas. Acho que estou dando uma limpeza, mas reconheço que algumas manchas são resistentes demais. Não quero deixar aquela mágoa nova juntar mofo também. Melhor manter a vida arejada, vou tentar abrir mais uma janela.



 
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