Vaca e outras moças de família - contos da Renata Corrêa


Cabem muitas mulheres nas nove protagonistas dos contos que Renata Corrêa reúne em seu livro Vaca e outras moças de família (Ed. Patuá). Cabem muitas, cabemos todas, porque o olho da Renata é daqueles afiados que pintam bons quadros com a unha descascada, a cinza do cigarro, bexigas estouradas ou a bolsa comprada em Miami. Renata vê longe. E isso por si não bastaria, mas ela pega o que vê e o transporta para a página com a desenvoltura de quem dança muito bem com as palavras.

Eu lia e xingava. Ah, danada, como pode? Em alguns contos, como o excelente "A Memória da Puta", o tragicômico "Descompensada" ou o tocante "Esquisita", experimentei aquele mergulho que nos leva direto pro fundo: li todos submersa, sem renovar o fôlego, como a protagonista de outro, "A Fútil".

Os contos de Vaca acertam nas vozes, nas narrativas, nos diálogos. O tom que surge do mosaico de personagens é a um tempo divertido e feito de angústias, por vezes instigante ou imbuído de forte sarcasmo. Vaca é um retrato que pode ser desconfortável ou bonito, hilário ou dolorido. Há uma festa de mulheres nesse livro que acerta em tudo, do título inspiradíssimo ao ritmo dos textos - todos, para nossa sorte, refletindo o olhar aguçado da Renata. Corram atrás. 




Billy


Saudades do Século 20 me deixou com vontade de Billy Wilder. Mesmo com títulos tão familiares ressoando em minha cabeça, terminei a leitura certa de que não tinha visto nenhum daqueles filmes - ou se vi em algum momento lá atrás, o fiz parcialmente, vai saber. Agora ando correndo atrás do prejuízo, (re)descobrindo filmes como o delicioso Se Meu Apartamento Falasse ou Sunset Boulevard, gostando demais desses mergulhos momentâneos no olhar aguçado de Billy (folgada, já me sinto íntima). Conversa vai, conversa vem, uma amiga me emprestou o livro Entretenimento Inteligente - o Cinema de Billy Wilder, escrito por Ana Lucia Andrade e publicado pela editora da UFMG. Hoje terminei a leitura e sigo procurando nos Netflix da vida outros presentinhos do Billy. É engraçado ver Quanto mais quente, melhor e imaginar o frissón que Monroe causava na época com aquelas caras e bocas, aquela voz de convite. 

(Se quiser falar comigo, tô ali nas esquinas em P&B dos anos cinquenta.) 

A van passou


Nos últimos dias tive a alegria de ver de pertinho a passagem por Florianópolis dos Escritores na Estrada. De repente, entre o verde do quarteirão do lado de lá da rua e a porta da minha casa, sete almas aventureiras saltaram da van poesia e minha calçada ficou colorida-ruiva-arco-íris. A passagem foi rápida, mas os abraços foram bons, foco no que importa. Não pude oferecer muito aos meus visitantes, nada além de crianças barulhentas, um café ou chá quentinho, cachorros fedorentos e wi-fi. Por outro lado, e como o mundo não é mesmo justo, tive a honra de conhecer de uma tacada só pessoas que admiro de longe há tempos, como a Renata Corrêa, a Jeanne Callegari, a Ana Rüsche; conhecer o sorriso da Tarsila Mercer e admirá-la instantaneamente só pela energia boa - depois um pouco mais pela desenvoltura e beleza; e ainda conhecer os meninos da trupe, o poeta Rafael, e Gonzalo e Fred, que registram a aventura. Pude enfim agradecer pessoalmente o Prefácio que Contos do Poente ganhou da Jeanne Callegari, em 2013; e constatar que a Renata Correa é, sim, aquela mulher porreta que desconfiava que ela era.

Na noite de segunda-feira participei com alegria da leitura que eles organizaram na Cervejaria Sambaqui. Na terça, fui conferir a oficina de criação literária do grupo no SESC e fiquei feliz demais pela forma calorosa com que a proposta foi recebida pelo bom público que teve a sorte de estar lá. Entre um evento e outro, mais café, mais barulho, livros. 

Hoje eles partiram rumo a Porto Alegre, a próxima parada da van que parece cinza (mas que é multicor que eu sei). Torço que sejam recebidos com carinho e o reconhecimento que o projeto merece. Para além do que as grandes editoras oferecem no mercado, existe muita coisa boa sendo produzida por excelentes escritores país afora. O projeto Escritores na Estrada dá uma pequena e valiosa amostra disso e aproxima escrita e público da forma mais charmosa ever. Sei que Curitiba, BH e Rio também estão na agenda, torço que a van vá ainda mais longe. 

Agora fiquei aqui com a pilha de livros da cabeceira inflacionada. E com um cachorro cabisbaixo, tadinho, se perguntando a que horas aquele pessoal do cafuné vai voltar. 

Lá vem a van


Um projeto bacanérrimo estará de passagem por Floripa na próxima semana. A Jeanne Callegari, que assina o prefácio de Contos do Poente, e a roteirista Renata Correa, acompanhadas de outros escritores, darão o ar de suas graciosas graças por aqui. Espiem só.

***

Projeto Escritores na Estrada chega a Florianópolis na segunda, 20 de julho

Financiado por crowdfunding no Catarse, os autores em turnê
chegam à capital catarinense para leituras e bate-papos
na Cervejaria Sambaqui e oficinas no SESC Prainha



Uma viagem de van pelo Brasil, com eventos literários em diversas cidades. Essa é a proposta do projeto Escritores na Estrada, que acaba de ser financiado por meio de uma campanha de crowdfunding no Catarse com 161 apoiadores. A ideia é romper as barreiras que dificultam que autores independentes sejam lidos e criar pontes entre escritores e leitores, assim como entre os escritores de vários lugares.
A primeira cidade a ser visitada pelos escritores Ana Rüsche, Jeanne Callegari, Rafael Daud, Renata Corrêa e Tarsila Mercer de Souza é Florianópolis, aonde chegam de van na segunda-feira, dia 20 de julho. Na cidade, serão realizados dois eventos públicos.
O primeiro é uma leitura na Cervejaria Sambaqui do Santa Mônica, na segunda, dia 20. Nesse dia, os autores lançam seus livros, lêem textos próprios e convidam escritores da cidade, como Rita Paschoalin, João Amado e Priscila Lopes, para ler e conversar sobre poesia e prosa. O segundo evento público é um circuito de oficinas de criação literária no SESC Prainha, na terça, dia 21. São cinco oficinas consecutivas de cerca de vinte minutos cada.
Cada escritor preparou oficinas de acordo com suas áreas de formação e expertise. A escritora Ana Rüsche, por exemplo, vai ministrar aulas de escrita criativa. Rafael Rocha Daud, que também é psicanalista, vai falar sobre o inconsciente no texto literário. A roteirista Renata Corrêa falará sobre a jornada do Herói e trará uma proposta para a jornada da Heroína. Já a poeta Jeanne Callegari, que é formada em Jornalismo pela UFSC, falará sobre mulheres e poesia, enquanto Tarsila Mercer de Souza fará uma oficina sobre corpo e poesia. Além dos eventos públicos, os escritores pretendem visitar locais históricos e sebos interessantes, como o Elemental, no Centro da cidade.
A turnê será documentada em fotos e vídeos, que renderão uma publicação impressa em formato de cartões postais, com imagens e textos literários, e um documentário. Entrevistas e conversas com escritores serão registradas em vídeo e disponibilizadas no site da turnê. Além disso, o grupo está alimentando um site sobre a viagem (www.escritoresnaestrada.com.br). "A ideia é que todo mundo possa viajar conosco", diz Ana Rüsche, uma das idealizadoras da iniciativa.
As fotos da turnê serão tiradas pelo fotógrafo chileno Gonzalo Cuéllar. Já os vídeos serão captados pelo documentarista Fred França, que completa o time que vai pegar a estrada em julho. O projeto contempla ainda viagens para quatro capitais brasileiras: Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Na quarta-feira, dia 22, o grupo já pega a estrada novamente, rumo a Porto Alegre, aonde farão mais oficinas, leituras e bate-papos.

Confira a programação dos Escritores na Estrada em Florianópolis:

20/7, seg: Leitura na Cervejaria Sambaqui
  • Leitura no bar da Cervejaria Sambaqui, a partir das 19h, no Santa Mônica, Av. Madre Benvenuta, Posto BR. Fica próximo à UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina. Com a presença do João Amado, Rita Paschoalin, Priscila Lopes e outros escritores.
21/7, ter: Curto Circuito Criativo no SESC Prainha
  • Curto Circuito Criativo, oficina de criação literária. Das 19h às 21h30. Biblioteca SESC Prainha. Trav. Syriaco Atherino, 100, Centro. Inscrições gratuitas, realizadas antes da oficina. Serão oferecidas 20 vagas.


Para saber mais:

Assista ao vídeo produzido para a campanha:


***


A Cozinha das Escritoras


Tive mixed feelings em relação ao livro A Cozinha das Escritoras, da italiana Stefania Aphel Barzini (Ed. Benvirá, tradução de Rubia Sammarco). A ideia é tão irresistível - minibiografias focadas na relação que escritoras mantinham com suas cozinhas - que tendo a perdoar os pontos que me desagradaram. 

Livro com listas é o diabo. A gente acaba a leitura e aquela outra lista, a dos livros que gostaríamos de ler, só aumenta. Ou, no caso, a lista das autoras. Das dez autoras e respectivas cozinhas selecionadas por Barzini, cinco me eram desconhecidas - ainda que eu tenha visto A Festa de Babete, nunca li o livro que inspirou o filme nem qualquer outra obra de sua autora, Karen Blixen. E saber quem é Mary Poppins não faz de mim leitora de Pamela Travers. Por essas e outras vontades que Cozinha plantou em mim, mas não só por isso, sou grata pelo livro. Mesmo assim, por mais que eu goste do combo literatura/cozinha e aplauda edições que celebram mulheres, não brindo à visão que a autora parece ter acerca de um certo "mundo feminino" que não sei bem onde fica. A cozinha seria o reino "delas" e só delas. Somente as mulheres conseguiriam captar e dominar seus segredos etc e tal. Ou seja. Precisamos avisar aos muitos homens que arrebentam nas cozinhas por aí - ou cutucar a Barzini: "escuta, cê tem certeza?". Então essa é basicamente a base de meus incômodos - todos os outros derivam dessa ideia meio engessada de uma tal "alma feminina", prato cheio para contradições e equívocos. Numa página, a cozinha como universo "essencialmente feminino", na seguinte a celebração do talento do cozinheiro que trabalhou para Karin Blixen durante o período em que ela morou no Quênia; ou de um outro, indochinês, que fazia "pratos maravilhosos" para Gertrude Stein. Ou ainda: o desejo de Blixen de ter uma vida rica em aventuras como seu pai seria um desejo de "também ser homem". *suspiros*

Os estereótipos de gênero e comportamento naturalmente pulam das páginas no capítulo dedicado a Simone de Beauvoir. Barzini inicia admitindo que não gosta da mulher Simone, que a separa da escritora que "sondou a alma feminina" (encontre o erro). Parece evidente, contudo, que a autora não gostava nada de nada em nada que Simone tenha dito ou escrito - nenhuma surpresa, a essas alturas. E segue o capítulo evidenciando a relação de Simone com a bebida, sua pouca intimidade com as panelas, seu apetite voraz, sua "arrogância intelectual".

Peneirando certa visão engessada, restam várias pequenas delícias. Das maçãs da angustiada Virginia Woolf aos banquetes de Gertrude Stein e seus ilustes convidados do mundo das artes, passando por chás londrinos e pela fome durante a Segunda Guerra, o livro faz um passeio curioso pelos mundos das escritoras. Em alguns capítulos, descreve em detalhes alguns dos ambientes onde de fato as autoras viveram e, bem ou mal, cozinharam. Também fala de suas manias gastronômicas e ressalta a presença do assunto nas respectivas obras - Agatha Christie bem que gostava de matar pela comida (um veneninho aqui e ali); A Cabana de Pai Tomás, da americana Harriet Stowe, é um livro cheio de sabores e aromas do sul dos Estados Unidos: o bacon e as pound cakes, os empadões e as avelãs; e, claro, os poderes sedutores (e revolucionários) d' A Festa de Babete são celebrados, segundo Barzini, por uma autora anoréxica.

Para calar minhas reclamações, o livro traz receitinhas. \o/ Se não conseguimos escrever algo como Mrs. Dalloway ou se, damn it, por mais que tentemos, não criamos um personagem como Poirot, ao menos podemos sujar nossas panelas tentando copiar a geleia de maçã e limão da Woolf ou a omelete da Agatha. Em dias de maior inspiração, podemos tentar a sopa de camarções da Stein - não vai dar pra convidar o Picasso pro jantar, mas a gente chama aquele amigo que gosta de desenhar, dá na mesma. 

No frigir dos ovos (sorry) resta aquele consolo mesquinho em saber que Agatha Christie também deixava queimar  o peixe e que Simone não precisou cozinhar um ovo para balançar Paris e o "mundo feminino". Nota mental para aqueles dias em que o arroz fica grudado ou o bolo desanda - seja você homem ou mulher. 


Bogotá: queria mais




"... basta mergulhar no centro nervoso da rua Sete com a avenida Jiménez de Quesada, batizado pelo exagero bogotano como a melhor esquina do mundo. (...) A instituição que diferenciava Bogotá eram os cafés do centro, onde mais cedo ou mais tarde confluía a vida de todo o país. Cada um desfrutou em seu momento de uma especialidade - política, literária, financeira - de maneira que grande parte da história da Colômbia daqueles anos teve alguma relação com os cafés. Cada pessoa tinha o seu café favorito, e isso era um sinal infalível de identidade" 


Gabriel García Marquez, em Viver para Contar.



Nós queríamos mais, mas a alteração no horário do voo que saiu de San Andres nos deixou apenas com algumas horas para a capital colombiana antes do retorno para Guarulhos. Então pegamos um táxi e pedimos que nos deixasse entre o Centro e a Candelária, de preferência próximo a um restaurante decente. O motorista, que disse ser natural de Cali e era simpático e falante, nos deixou a alguns metros do La Romana e nos apontou Candelária pra lá, restaurante pra cá. Nos empaturramos de massas deliciosas sem saber que estávamos a uma quadra de distância da tal "melhor esquina do mundo" para os bogotanos da biografia do Gabo. Nossa intenção inicial, após encher a barriga, era visitar o Museo del Oro. Olhamos o mapa, vimos que deveria ser perto dali. Chamada a confirmar, a garçonete gentilmente nos apontou o outro lado da rua. O taxista não sabia, mas nos largou praticamente na calçada do museu que queríamos visitar.

Compramos os ingressos (crianças não pagam) e exploramos sem pressa os três andares principais do museu. Adoramos o acervo, composto por peças de ouro e outros metais trabalhados pelas sociedades pré-hispânicas do território onde hoje é a Colômbia. Para amantes da arqueologia, o museu é um deleite. Para qualquer pessoa que se interessa pela história da humanidade, é um daqueles lugares que nos fazem pensar quão minúsculos e enormes somos ao mesmo tempo - um pontinho de nada na linha do tempo, mas capazes de feitos incríveis. 


Hall de entrada do Museo del Oro.

Amanda em museus: pinto no lixo; fotografa tu-do. Se vocês quiserem espiar o acervo, eu empresto os arquivos da câmera dela. :-)

Um dos destaques do museu é a Balsa Muísca. Não se sabe ao certo quando foi feita, estima-se que date de algum momento entre 600 e 1600 d.C. Representa uma cerimônia de passagem de poder a chefes muíscas. É lindinha demais. Foi encontrada em 1969 por camponeses, dentro de um pote de cerâmica.

Adorei essa linha do tempo dividida por continentes e com a Colômbia em destaque no topo azul.  Entre outras coisas, destaca achados arqueológicos que evidenciam atividades humanas a partir de 15300 a.C. Só aí a gente gasta uma boa meia hora feliz da vida.

***

Com o pouco tempo que nos restou após a visita ao Museu, passeamos por lojinhas de um centro comercial/artesanal e descemos rumo à Candelária. No meio do caminho, paramos para um café no Centro Cultural Gabriel García Marquez onde fizemos duas coisas: tomamos um café delicioso com doces tudibom e visitamos a imensa livraria. Como não falo nem leio em espanhol, não comprei nada, mas babei com força.

Na saída do café, vimos que o pôr do sol estava pintando o céu e tirei o Arthur de foco.



Descemos pela rua da Faculdade de Direito onde o Gabo estudou por alguns anos (detestava o curso e nem concluiu, sabia que seu rumo era outro) e fomos ver a praça, coração histórico de Bogotá. As obras no calçamento ao redor da praça não ajudou nossas fotos, mas quem liga? Tinha uma lhama e Amanda fez a selfie mais feliz.


Amanda, alguns pombos e uma lhama.

***

Com a noite chegando, precisamos pegar um táxi para o aeroporto e encarar o péssimo trânsito da hora do rush. Fomos tagarelando em portunhol fluente com o taxista, falando de nossas impressões e lamentando o pouquíssimo tempo que tivemos para ver a cidade. Vontade de mais, viu. 

San Andrés - uma semana num pedacinho do Caribe



Cerca de meio ano atrás, quando Ulisses se animou para comprar as passagens para a ilha colombiana de San Andrés, eu meio que dei de ombros e disse "beleza". Não é que eu não quisesse dar uma passeada por uma ilha no Caribe, é só que estávamos prestes a embarcar em outra viagem e minha cabeça estava mais para ornitorrincos do que para mares de sete cores. Então compramos as passagens e quase não pensei mais no assunto. Quando a data foi se aproximando, ao invés da ansiedade costumeira que antecede viagens de férias, me vi pensando mais na aterrissagem no pequeno aeroporto da ilha do que nos mergulhos em águas mornas - e vi que agora sou oficialmente uma pessoa que tem medo de voar, ou mais especificamente, medo de pousar em aeroportos pequenos. Obrigada, Congonhas, pela graça alcançada.

Botei o medo na mala e embarcamos rumo a Bogotá num voo de seis horas de duração. A conexão de noite inteira prometia ser cansativa, mas acabou sendo bem suave. O excelente serviço de um hotel próximo ao aeroporto, com traslado e café da manhã incluídos, foi um mimo no meio da viagem. Fizemos a reserva no balcão de informações do aeroporto, o traslado nos pegou cerca de dez minutos depois e logo estávamos de banhos tomados e confortavelmente instalados até o horário do voo para a ilha caribenha na manhã seguinte. Antes de seguirmos para o aeroporto, o hotel nos mostrou que, ei, estávamos na terra do bom café - o que foi um bônus, porque a gente nem tava se lembrando disso.

O voo de duas horas para San Andrés foi tranquilo com aterrissagem idem, ainda bem. Eu já podia curtir as férias e me concentrar no medo dos barcos, mas isso é outra coisa. Vumbora ver a ilha.

Escolhemos um hotel com cara de pousada, com os pés na areia. Foi muito bom ver que "nossa praia" era bem tranquila - o movimento ficava praticamente por conta dos hóspedes do hotel e dos clientes de um restaurante vizinho. Como os hóspedes estão quase sempre rodando pela ilha e o restaurante não fica cheio todos os dias, era comum a praia ficar praticamente deserta. Se você vai à praia procurando agito e muvuca, a "nossa" não era a melhor pedida. Para nós, que viajamos querendo paz e sossego, foi perfeito.

Os fundos do hotel, nosso quintal por uma semana.


No caminho para o hotel, vi que a ilha parecia maior do que eu a imaginara. Um taxista nos falou que cerca de 150 mil pessoas moram em San Andrés, mas a internet nos diz que os moradores são cerca de 80 mil. 80 ou 150, tive a impressão de lugar lotado, o que para mim valorizou ainda mais nosso cantinho. De cara, vimos que o trânsito é, digamos, uma alegria: salve-se quem puder, "contramão" é um conceito vago, o bom da vida é buzinar e capacetes para motoqueiros devem ser proibidos. Nada que a vista da janela do quarto  não apague de nossa memória rapidinho.

Sacada dos ventos uivantes.

Foram sete dias de ventos fortes. Os coqueiros se agitavam dia e noite e eu sempre tinha a impressão de que uma tempestade poderia se aproximar a qualquer momento. Durante toda a semana que passamos lá, nem por cinco minutos vi o céu completamente azul. Mesmo com o tempo "aberto", o horizonte era sempre coberto por uma densa nebulosidade, como dá pra ver nas fotos aí de cima. Ainda assim, a cor do mar não nos decepcionou. A combinação de verdes e azuis é mesmo linda e a fama é justa.



Os fortes ventos arrastavam nuvens pesadas rapidamente, e os dias eram sequências intercaladas de tempo aberto, tempo nublado, vai chover, opa, abriu, lá vem o sol, nublou de novo. O tempo inteiro, o mar sempre lindão. Ulisses não levou o kite dele, mas bem que sentiu vontade que eu sei.


Em meio à quietude de nossa praia, meu entusiasmo pelos passeios mais tumultuados era prejudicado - vejam que viajei com o intuito de morrer de preguiça. Mas já que estávamos ali, coisa e tal, tomei mais um suco de fresa e fomos ver qual era. Creio que fizemos os principais passeios que há para se fazer por lá: um mergulho com snorkel aqui, um passeio de barco ali, bate-perna pelo centro - San Andrés é zona franca e o comércio é bem agitado - ou um gole do famoso café, outro mergulho acolá. Eu gostei de todos os passeios que fiz, com exceção de um tour guiado por uma taxista que nos levou à pior atração turística de todos os tempos, uma exposição baseada na vida de um suposto pirata que teria circulado por aquelas bandas sei lá quando. Detestei tanto o troço que vou poupá-los dos detalhes, até porque fiz questão de esquecê-los. As crianças, pelo menos, se divertiram, mas nem isso me faz perdoar a taxista.

Bem próximo a San Andrés, há outras ilhotas. Uma delas, Rocky Cay, fica tão pertinho que seguimos para lá nadando ou caminhando pela maré baixinha. Adorei. Não há nada para se ver lá que já não se veja do lado de cá da caminhada, mas nadar naquela água de uma ilha a outra vale a brincadeira. Muitas de nossas fotos nessa viagem foram feitas com as câmeras à prova d'água das crianças, então não reparem na qualidade. As lentes estavam sempre engorduradas de protetor solar, um filtro não muito bom. :-)
  
Amanda e eu, Rocky Cay ao fundo.

Talvez a atração mais badalada em San Andrés seja o passeio combinado à ilha de Johnny Cay e ao aquário natural. A travessia até o aquário leva uns vinte minutos, quando tive a chance de sacar da mochila meu medo de barcos pequenos. À medida que o barco avançava rumo ao aquário, nosso deslumbre com as cores do mar ia aumentando e me ajudava a engolir o medo. A transparência da água é incrível.  Na minha modesta opinião, o aquário seria uma atração top de linha se os organizadores do lugar reduzissem um pouco o número de pessoas por dia. A ilhota onde os barcos atracam para que possamos mergulhar é minúscula e a mistura de turistas, barqueiros, guias, vendedores, mais turistas... quebra um pouco o encanto. Com metade da galera, teríamos curtido mais, certamente. Acho uma pena. Mas a gente se jogou na água mesmo assim.

Antes do mergulho, um rápido passeio num barco com fundo transparente deixava ver a animada população da área. 



Oi, qual é?

Olhe onde pisa.


Depois do aquário, a ilha de Johnny Cay, com suas praias lotadíssimas, me fez querer voltar pro hotel. Mas antes, iguanas.

Moradoras de Johnny Cay.

Em outro dia visitamos um ponto de San Andrés chamado West View, e lá, talvez pela profundidade bem maior que no Aquário, o festerê de peixes foi mais animado. Ulisses, que já mergulhou em Noronha, disse que you know nothing, Jon Snow, mas a gente adorou.







***

Nós gostamos bastante de nosso passeio por San Andrés, mas nem toda a beleza natural do lugar nos impediu de lamentar o que certamente poderia ser bem melhor. Há uma certa desorganização generalizada nos pontos turísticos mais celebrados que não chega a estragar os passeios, mas deixa a desejar, sim. O embarque para as ilhas vizinhas, as saídas dos barcos, as filas inexistentes onde a presença delas resolveria tanta coisa, a superlotação das ilhotas, isso nos fazia dar suspiros de vez em quando. Em um dos pontos de mergulho mais legais, o acesso é por uma escada de metal encravada nas rochas. Beleza, dá um friozinho na barriga na hora de descer que faz parte da aventura. A escada é estreita, se há alguém subindo, outro não pode descer. Mas a falta de educação de alguns turistas é impressionante; e como não há qualquer sistema para organizar a galera, haja paciência para conseguir acesso à escada. Uma segunda escada resolveria o problema, mas organização não parece ser o forte dos responsáveis pelo turismo em San Andrés. Uma pena. 

Todo turista paga uma taxa de acesso à ilha quando entra. Há voos diários vindos das principais cidades da Colômbia. É muita gente. Fica a impressão de que esse dinheiro podeira ser mais bem administrado, mas talvez haja outras prioridades. A ilha enfrenta problemas sérios de acesso à água potável, e li que a população local  acaba sofrendo mais com isso do que os turistas, já que a rede hoteleira parece ter preferência nos racionamentos. Ainda assim, a água que saía na torneira do nosso hotel era salobra, passamos uma semana salgados, hohoho. De um modo geral, achamos as ruas sujas e mal conservadas. Para todos os males, o mar era a cura.


No quesito comida, quem gosta de peixes e frutos do mar se esbalda. Nem sempre os pratos são maravilhosos, mas via de regra comemos bem. Nossas queixas têm mais a ver com o serviço de nosso hotel do que com as vezes em que comemos fora dele. Para quem não é fã de peixe, é fácil encontrar opções de massa e carnes, o que salvou a Amanda - ela gosta de nadar com os peixinhos, não de comê-los.

No quesito custo/benefício, achei a ilha cara. As diárias dos hotéis combinam com a água, são salgadinhas, e os serviços são bons, mas não excelentes. Eu estava no maior clima pousada pé na areia, mas mesmo assim preciso ser honesta e dizer que a porta da frente do quarto emperrava, a da sacada só trancava com reza forte, a janela nunca trancava. Não reclamo da potência da água em respeito aos moradores da ilha. O café da manhã era simplérrimo, o que absolutamente não me incomoda, desde que o custo seja justo. Talvez os preços se justifiquem pela dificuldade de levar os produtos até a ilha. Talvez. Os taxistas nativos, sempre a bordo de carros muito velhos, confirmavam nossa impressão de custo de vida alto e eles cobravam - sem taxímetro - de acordo com a lua. Daqui pra lá, tanto; se lá for um pouquinho mais pra lá, um pouco mais caro, ou não. Um outro taxista pode discordar e cobrar bem mais caro pelo mesmo trecho, e assim vai. Somente quando pegamos táxi em Bogotá, com taxímetro, pudemos ver quão caros são os de San Andrés.

Feitas as reclamações, digo que adoramos. Curtimos nossos dias de preguiça gloriosa esparramados na praia, tomando coco fresa ou um suquinho colorido, vendo a brincadeira das crianças (com outras crianças do hotel, inclusive, agora é um vai e vem de emails para a Colômbia, vão vendo) e babando com aquele mar lindão. Reforçamos, Ulisses e eu, nossos votos de batedores de perna con mucho gusto.

Para mim, uma frase dita pelo Arthur enquanto caminhava/nadava rumo a Rocky Cay definiu o espírito dessas férias: "nunca fui tão bem tratado, mãe; esse mar, que coisa boa"!



Gêiser maluquinho.





Ah, amigo, não bagunça meu castelo, né. 







Um cantinho do Caribe, check. E ainda teve um tiquinho de Bogotá, conto já. 



 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }