The sun is back in town


Certa vez li que Sydney é uma cidade de pouca chuva, coisa de alguns poucos dias por ano. Se for verdade, os dias de chuva de 2015 se concentraram todos nessa semana. Tivemos três dias de chuva, vento e temperaturas bem abaixo do que tínhamos em mente quando arrumamos as malas. Nem sempre chuva forte, mas chuva fraca também avacalha planos de andarilhos que viajam com chinelos e camisetas. Só nos restou apelar para capas de chuva e uma sombrinha comprados a contragosto. Calçamos tênis, vestimos as roupas mais "quentes" de que dispúnhamos e fomos passear mesmo assim.

No primeiro dia, encaramos a muvuca de Circular Quay para os festejos do Australia Day. A baía estava lotada de barcos enfeitados, com seus tripulantes animados e orgulhosos gritando aussie aussi aussie. De vez em quando a chuva dava uma breve trégua e nos divertimos entre os desfiles das embarcações e passeios nos arredores da Opera House. Tudo teria sido mais brilhante e colorido se o céu estivesse azul, certamente, mas concordo que esse povo aqui gosta mesmo de festa e o negócio funcionou mesmo com o tempo horroroso. 

A terça-feira amanheceu pior do que a segunda e sacamos da manga um dos passeios que havíamos reservado para dias de eventual sol escondido. Passamos o dia enfiados no Australian Museum, localizado na mesma rua do nosso hotel. Gostamos desse museu não muito grande, mas bem estruturado e com boas atrações. As crianças se divertiram no Planet of Minerals com as coleções de pedras e meteoritos; também me divirto vendo como nosso planeta é colorido por dentro. Na seção da bicharada, as temidas aranhas australianas roubam a cena- o museu tem exemplares bem vivos que me deram arrepios por horas, uiiiiii (Amanda me chamou de madrugada para ver se não havia nenhuma aranha na cortina do quarto, que divertido). 

A ala dedicada à história e cultura dos povos aborígenes é uma das melhores do museu, mas não despertou muito interesses das crianças. Depois de um lanche horroroso na cafeteria, curtimos o melhor: a exposição temporária sobre os Astecas. Enquanto Ulisses e eu fuçávamos os objetos, vídeos e textos da exposição, Arthur e Amanda se esbaldaram com um quiz interativo, carimbando símbolos astecas em álbuns coloridos - suspeito que não aprenderam uma linha sobre povo nenhum, mas adoraram a exposição mesmo assim e saíram de lá dizendo que voltariam no dia seguinte para "mais Astecas".

Ontem, no final do dia, o sol voltou e hoje fomos pro mundo outra vez. Passamos o dia espoletando por Darling Harbour.

Sunny day, happy day.

Li que Darling Harbour abrigou o terminal internacional de carga da região e manteve sua vocação industrial por muito tempo. Depois amargou anos de abandono até ser revitalizado para o turismo e  o comércio que vem junto. Hoje tem vários museus, inúmeras lojas e restaurantes, parque infantil, um jardim chinês (que ainda vamos visitar) e o charme da marina e das pontes. É uma região bonitinha demais e ganhou minha simpatia imediatamente.

Mas nosso negócio é bicho e lá fomos nós para uma das atrações de Darling Harbour, o Aquário de Sydney. Passeio meio obrigatório para quem traz crianças a Sydney, o Aquário acaba agradando todo mundo. Tudo bonitinho, mais do mesmo: tanques lindões, bichos esquisitos, caranguejos gigantes, todo tipo de estrelas-do-mar, águas-vivas incríveis, criaturas fascinantes e tal. Mas aquário em Sydney tem ornitorrinco. 
:-)   

Animadíssimo, bem mais do que o exemplar preguiçoso que tínhamos visto no Taronga Zoo, esse moço me permitiu algumas fotos, todas horríveis, porque ele é um exímio nadador. Vai essa, melhorzinha, pra vocês. Olhem bem, juro que é um ornitorrinco - a prova viva de que esse mundo é muito estranho. 

Criatura bonitinha, uma entre tantas.

Tudo já estava muito divertido até que chegamos ao ponto forte do Aquário, seus túneis submersos. São quatro túneis construídos abaixo do nível da baía que deixam a criançada em polvorosa. Mesmo sabendo que o Aquário controla a população animal daquela parte da baía, a sensação de descer abaixo da superfície para ver a bicharada no mar é uma delícia. Ter os peixes, arraias, tubarões, todos nadando sobre nossas cabeças é divertido demais.
   
Dá até pra dar uma checada básica na dentadura dos tubarões. 



Depois dos túneis submersos, as crianças se divertem com um aquário virtual onde os peixes pintados por elas são escaneados e viram atração. :-)


Achei! - Há ainda uma pequena amostra da vida na Great Barrier Reef, com muitas anêmonas e bichos típicos dos famosos corais da costa australiana.

***

Almoçamos e lá fomos nós para o Wildlife World, um pequeno zoológico dedicado à vida selvagem australiana. Para quem gosta de répteis, é o lugar. Vimos a cobra mais venenosa do mundo, a taipan, além de várias outras, imensas, lindas, arrepiantes. Elas, as aranhas, também estão lá, claro. Esquisitas, espertíssimas, cheias de pernas e veneno, um horror. Fascinante, mas longe de mim, please. Para compensar tanta peçonha, toda a fofura do mundo. Diferente do Taronga Zoo, aqui os coalas estavam acordadíssimos, mastigando como se não houvesse amanhã. Cheguei a flagrar um animado salto entre árvores, o que deve equivaler ao grau máximo de animação na vida inteira de um coala. Depois eles se aninharam e dormiram, como fazem por aproximadamente vinte horas por dia. 

Hi, mate!

Sou bonito?

Agora deu.

E esse é o novo concorrente no coração das crianças, o marsupial Wombat. 
Coisa. Mais. Linda.

***

Passamos o final da tarde perambulando pelas lojas de Darling Harbour - morri de amores por uma casa de chás - e lamentando o Jardim Chinês fechado àquela hora. Certamente voltaremos para explorar mais essa região gracinha da cidade. Aí quem sabe consigo acertar nas fotos das fontes, sem cortar nenhuma cabeça. 

(Essa é a melhor foto; existem ainda as versões "total fora de foco" e a "somente água".) 

Lado B


Uma amiga no Face sugeriu que eu provasse vegemite, outros me disseram que não tinham gostado da "iguaria" e que eu deveria provar apenas para saber quão ruim é o negócio. Bom, curiosidade matou o gato e pus uma pequena quantidade na pontinha do pão. Gosto é como nariz, então falo só por mim, claro. Não é que seja ruim, simplesmente. É a pior coisa que já provei na vida. Algo como ferrugem extremamente salgada e rançosa, dotada da irritante propriedade de se prolongar na boca da gente - sabe quando você engole uma coisa, mas o sabor continua ali? OLHA. Ulisses provou e assinou embaixo, com a mesma careta. Idem para o Arthur. Amanda, como de costume, preferiu não se arriscar. Para vocês terem uma ideia do efeito vegemite em minha família, ontem Amanda perseguia Arthur pelo parque fingindo apontar para ele a terrível ameaça:

- Isso é um pote cheio de vegemite!!!
- Socoooorro!!

Agora há pouco, vendo a chuva cair lá fora e ameaçar nossos planos para o feriado do Australia Day, as crianças "rezavam":

- Se o sol voltar, como uma colher de vegemite!

Haja sacrifício. 

***

Enquanto a chuvinha molha a rua, vemos o jornal na TV. A cada ano, em 26 de janeiro, os australianos celebram a chegada dos britânicos em 1788. Como parte das celebrações, premiam personalidades que atuaram em diversas áreas no último ano, como medicina, artes, educação, comércio. No jornal da manhã, vimos a premiação de Rosie Batty por sua atuação no combate à violência doméstica. Rosie perdeu seu filho de 11 anos de idade em fevereiro do ano passado quando o pai da criança o atacou com um taco de cricket. Por causa das notícias em torno da premiação, fiquei sabendo que a Austrália vive o que Rosie chama de epidemia de violência doméstica, e que essa seria a grande vergonha nacional. Não li outras fontes, mas na entrevista que vi com Rosie os números são mesmo alarmantes: uma em cada três mulheres e uma em cada quatro crianças experimentariam algum tipo de violência doméstica na Australia. Lado B lamentável. E eu achando que o problema do país era o vegemite.

***

Então chove. Depois de quatro dias de muito sol, no dia em que a baía de Sydney estará repleta de embarcações enfeitadas, no dia da corrida de caravelas (!), no dia dos picnics em frente à Opera House... chove. *suspiros*

***

Ontem andamos sem rumo por aí. Passamos pelo Chinatown, pelo mercado de peixes, por praças mais escondidas, parques mais afastados do Centro. Vimos muitas barracas, certamente de moradores de rua. Pegamos um trem e cruzamos a Harbour Bridge, demos uma espiada em bairros do outro lado da baía. Depois voltamos "pra casa", almoçamos nos arredores do hotel, curtimos o final do dia no "nosso" parque - tudo pegando leve e descansando dos dias anteriores, e nos preparando para as celebrações de hoje. A poucos metros do hotel há um palco montado para a programação infantil do evento. Aí chove. 


Blooming Saturday






Terceiro dia de Sydney, terceiro dia de temperaturas altas e céu impecavelmente azul. Pegamos toda essa sorte e passamos o dia perambulando pelos Royal Botanic Gardens. Comentário do Ulisses: aí se a pessoa mora em Sydney, como faz para achar outro lugar bonito quando viaja? Realmente, o problema é sério. O Jardim Botânico é encravado no meio da cidade e liga "nosso bairro" à baía de Farm Cove, ali onde fica a Opera House. Entramos por outro jardim, conhecido como The Domain, que nos tempos coloniais era reservado ao uso privado do governador da colônica britânica. The Domain tem gramados a perder de vista e abriga concertos ao ar livre, além de pernas de pau jogando bola e minhas crianças brincando de esconde-esconde.


Temos planos de fazer um picnic nos próximos dias e a toda hora escolhemos um lugar diferente. Até ontem, seria no Hyde Park. Mas isso foi antes de passarmos pelo Domain, aí mudamos os planos e transferimos o picnic para lá. É que a gente não sabia que nos apaixonaríamos pelo Jardim Botânico minutos depois. Então, oficialmente, até descobrirmos outro lugar mais deslumbrante, vamos fazer um picnic no Jardim Botânico. Ou um em cada parque, quem sabe.

Um abuso para onde quer que se olhe, mas eu sempre acabo olhando para ela. 



Os Royal Botanic Gardens ocupam 30 hectares de área verde e colorida, bem cuidada, repleta de plantas da Austrália e do resto do mundo. Há várias ambientações, todas deliciosas. Ora estamos aos pés da baía diante de toda aquela vista sob a sombra de árvores imensas; ora estamos no meio de um bosque de palmeiras sem saber para onde olhar ou em meio a canteiros coloridos cercados pela passarada. Há um café e restaurante com mesinhas sombreadas ao ar livre, uma lojinha cheia de mimos tentadores, teatro ao ar livre para a criançada (altas produções!), moradores e turistas usufruindo desse privilégio bem no coração da cidade.

Nós nos entregamos ao lugar sem pressa. As crianças adoraram e exploraram cada pedacinho por onde passaram. O único motivo de preocupação (mais minha do que delas, claro) era a enorme quantidade de aranhas em suas teias espalhadas entre as plantas. Por todo o parque lá estão elas me levando a fazer a mesma pergunta over and over again: é venenosa? Conheço a fama de algumas espécies de aranhas dessas bandas e sinto arrepios.


No início da tarde saímos do parque em direção a uma piscina pública construída às marges de Sydney Harbour. Por uma pequena taxa, as crianças puderam aplacar o calorão, enquanto Ulisses e eu curtíamos uma sombrinha pensando em todo esse stress.


Toda piscina tem vista para um porta-aviões, certo?

Devidamente refrescadas, as crianças se juntaram a nós para o almoço no restaurante da piscina. Um lugar simples, com cara de restaurante universitário, mas que serviu nossa melhor refeição até aqui, tudo delicioso. Só preciso me lembrar de pedir para pegarem leve na pimenta ou vou me transformar em um dragão até o final das férias.

Depois voltamos para o Jardim Botânico e caminhamos pelo outro lado do parque até a Opera House. Aos poucos vou me aproximando dela. Ainda não entrei, apenas rondei suas escadarias e admirei a estrutura dos telhados que parecem desabrochar sobre a baía. O prédio mais espetacular que já vi na vida, mal posso esperar para conhecê-lo por dentro.
  

Ficamos por ali vendo a tarde ir embora, o cais cheio de gente caminhando, fotografando, tomando um café. Um imenso navio de cruzeiro soltou seu ronco avisando que estava deixando a baía rumo a sei lá onde. O navio era suntuoso e da terra ouvíamos a música que embalava os passageiros que se despediam de Sydney. Tadinhos. :-)





Sei que as férias passarão voando e logo teremos de nos despedir também. Por enquanto a gente vai se agarrando à cidade um tiquinho mais. 


Dos bichos


Listinha de tarefas:

Cangurus, check.
Coalas, check.
Wallabies, check.
Dragão de Komodo, check.
Diabo da Tasmânia, check.
Ornitorrinco, check.

Vencedor na categoria fofura: canguru (e os primos wallabies), coala, ornitorrinco. Ou talvez ornitorrinco, canguru, coala. Ou... coala, ornitorrinco, canguru.
Vencedor na categoria preguiça: coala (coisa mais paradeza da vida), dragão de komodo (desconfiamos que o maior que vimos está morto e ninguém percebeu), diabo da Tasmânia - esse só se espreguiçou e nem tchuns pra nós.
Vencedor na categoria vontade de botar no bolso e levar pra casa: ornitorrinco.
Vencedor na categoria vontade de abraçar: canguru.
Vencedor na categoria maminhanossinhora-como-pode-ser-tão-lindo: coala.

***

Como vocês podem ver, passamos o dia no zoológico. Não há parques com cangurus livres em Sydney, algo comum em outras cidades da Austrália, então lá fomos nós pro Taronga Zoo, o maior zoológico daqui - ver cangurus era prioridade para meu grupo, vocês entendem. Se eu gostasse de zoológicos, diria que teria sido um passeio perfeito. Mas sinto aflição quando vejo pássaros grandes presos e coisas do tipo. De um modo geral - e se a gente não pensar muito - o Taronga Zoo até que oferece zonas bem amplas para os bichos. Sem dúvida, foi o melhor zoológico que já visitamos. Mesmo assim. Né? Maaaas, não vou negar: me derreti toda com tantas carinhas que parecem dizer "Tia, por que me colocaram de castigo?"



As crianças adoraram a variedade de bichos. Há animais africanos (morro de pena, são imensos e não há ambientação amigável que substitua a vida solta na savana), muitos pássaros (tadinhos), répteis (alguma cobras imensas), focas enormes e muitos outros. Passamos o dia inteiro sob um sol inclemente, soltando ohs e ahs diante da bicharada.
  

As girafas com a vista mais valorizada do pedaço.


Foca na Austrália.

Os animais já fariam do Taronga Zoo um destino meio óbvio para turistas em Sydney, mas há outro trunfo imenso na manga: a localização. O zoológico é situado às margens da baía de Sydney e para chegar lá, ah, que sofrimento, é preciso atravessar a baía. E lá está ela, majestosa e espetacular (não vou economizar nos adjetivos, não reparem), a Opera House.




Sydney, vista do outro lado da baía.

A ida para o zoológico foi, pra mim, o ponto alto do passeio. Mesmo adorando ver os bichos foférrimos, o visual da baía é algo cinematográfico mesmo e rouba qualquer cena. Muitos suspiros. Sydney é uma linda, viu. Não me cansei de olhar a Opera de todos os ângulos. Logo vamos visitá-la por dentro e devo muitas outras vezes ficar diante dela, embasbacada. Seu visual majestoso não me desapontou em nada, morri de amores. 

***

Antes de pegar a balsa para o Zoo, fomos de ônibus do hotel até o terminal. Pegamos a linha tarifa zero. Ônibus gratuito, olha que ideia louca. :-)

***

E antes de tudo isso, nosso dia começou com uma invasão de cacatuas no parque em frente ao hotel. Amanda deu o alarme, binóculo na mão. Só melhora. 


Continue a voar, continue a voar... chegamos


Então cá estamos do outro lado do mundo. Levando-se em conta a pequena odisseia que é a vinda para Sydney, acho que tiramos de letra. Entre tantas horas de voo e muitas outras em conexão, conseguimos manter o juízo e o humor - inclusive na conexão doméstica em Perth, com imigração, novo check in de bagagem e troca de terminal em um ônibus que pensei nos levaria por terra a Sydney, tamanha a distância entre os dois terminais. Menção honrosa para as crianças que se comportaram com louvor, alimentaram-se na hora certa (Amanda com seus altos e baixos, mas no lucro no final), dormiram boa parte das horas de voo e não reclamaram de qualquer eventual desconforto. Amanda chegou exausta, é verdade, já adormeceu ao lado da esteira de bagagens e seguiu dormindo no táxi, mas acendeu de novo no hotel animada com a vista da cidade. Era noite em Sydney e todos dormimos bem, felizes pelo longo banho e por esticar as pernas. Assim, creio, driblamos o jet lag. 

No dia seguinte acordamos cedo e renovados, e já exploramos o centro da cidade. Um pequeno paraíso para os amantes das compras e do verde. Há lojas e mais lojas, galerias e shopping centers. Os prédios modernos abundam, mas aqui e ali são intercalados por construções restauradas do século XIX, como o Queen Victoria Building com seus elevadores antigões, vitrais e piso com mosaicos, um amor. Logo ali, o Hyde Park é um pequeno oásis verde que em um minuto nos arranca da muvuca do consumo. Ele será o "nosso" parque pelas próximas semanas, perfeitinho para Amanda observar e fotografar pássaros e canteiros com o pai enquanto Arthur e eu perambulamos, mapa na mão, programando o passeio do dia. Não tem as vastas extensões do homônimo londrino, mas nos serve como um bom refúgio - não que falte verde pelas ruas; a cidade, aliás, é bem arborizada.

Turistas, o que fazem? Programas de turistas; e assim subimos a Sydney Tower para uma vista panorâmica da cidade. Um pouco menor que a Torre Eiffel, serviu para a gente dar uma espiada na imensidão azul das baías que visitaremos nos próximos dias e tirar as fotos que não vou mostrar ainda porque o cartão da máquina não é compatível com o micro que trouxemos e o cabo ficou em casa. De nada.

***

Estamos satisfeitos com o hotel, apesar da inexistência de wi fi livre, onde já se viu? Os planos de dados são caros, o do hotel mais ainda. Optamos por comprar um pacote em uma loja de telefonia, mas já percebemos que o negócio não é lá essas coisas. Há pontos de wi fi livre pela cidade, mas torci o nariz para o hotel, humpf. Estou pensando em organizar uma manifestação pelo livre acesso ao meu lado do mundo, aguardem notícias.

No mais, dia azul, temperaturas altas, mas não agonizantes, comidinhas apimentadas, chinelinho no pé, crianças a mil. Não há cangurus pelas ruas ou coalas nas árvores :-), pobre Amanda, de modo que não devo escapar de uma ida a um (ou dois!) zoológicos. 

***

Agora, onze da noite, todos dormem; tô achando que esse tal de jet lag não veio ou foi extraviado na conexão na África do Sul.

Vumbora


As malas estão prontas. Partiremos na segunda-feira, 19, rumo a Joanesburgo para uma conexão de mais de dez horas. De lá, Perth por mais algumas horas. E, finalmente, Sydney, em algum momento da quarta-feira. Será nossa mais longa viagem até aqui, a maior aventura com e para as crianças. Adoraríamos visitar outas cidades da "jovem"* Austrália, mas dessa vez nos dedicaremos integralmente a bater pernas pela região que recebeu os colonizadores ingleses há cerca de 240 anos. Segundo nosso guia de viagem, Sydney é repleta de parques, bosques e reservas e tem visuais azuis impressionantes, de modo que esperamos mesclar o agito de uma metrópole badalada a momentos bicho-grilo. Os pares de tênis confortáveis estão na mala, ao lado daquela ansiedade básica. Torço que tudo corra bem ao longo do deslocamento, dos sobe-e-desce dos aviões, das conexões. Que nossa senhora do jet lag nos ajude e o que o sotaque australiano nos pareça um límpido sotaque inglês.

É possível que a gente dê uma passeada rápida por Joanesburgo na terça, é possível que fiquemos plantados no aeroporto cochilando ou jogando Catan (Catan na bagagem de mão, sure); tudo vai depender do ânimo das crianças depois do longo voo até a África do Sul. Espero que esse dia de espera pela segunda metade da viagem ajude a preparar nosso corpo para a diferença no fuso horário. Só espero coisas boas, como vocês podem ver. Na pior das hipóteses, passearemos pelas madrugadas e dormiremos enquanto o sol brilha/a chuva cai lá fora... (é ruim, hein).

Planejo dar notícias da primeira parte da viagem assim que possível. See you soon, guys.

***

*"Jovem" para os caras-pálidas que chegaram lá no século XVIII. Segundo nosso guia de viagem, os "povos aborígenes viveram em paz no continente por pelo menos 40 mil anos, utilizando a terra para suas necessidades, até a chegada dos europeus em 1770". Se viviam "em paz" ou não, não sei. Mas saber que lá estiveram por tanto tempo muda um pouco nossa visão da Austrália como um lugar "jovem". Na verdade, a velharia reina, independente da presença humana: há registros de fósseis encontrados no vasto Outback, o interior árido do país, com mais de 3,5 bilhões de anos - as "mais antigas formas de vida conhecida".  o.O

Pergunte ao Pó - começando o ano com livrão


Fazia algum tempo que eu queria ler Pergunte ao Pó. Procurei por ele algumas vezes em livrarias de minha cidade, sem sucesso. Fui adiando a compra pela internet, li outro livro do mesmo autor, gostei, mas não amei, e fiquei com cara de paisagem esperando que o livro caísse em meu colo. Aí ele caiu. Veio pelas mãos de um amigo em dezembro passado: mostrou-me sua coleção de Fante e me emprestou . Na época eu estava lendo um romance estadunidense água com açúcar, escrito no século XIX, cheios de lições de boas maneiras - Little Women, de Louisa May Alcott, que, suponho, eu teria gostado mais se o tivesse lido aos quinze anos; agora, achei engraçadinho, no máximo. Aí o livro do Gregorio Duvivier aterrissou em nossa árvore de Natal e lá fui eu reler algumas de suas colunas, conhecer outras. Dia desses larguei o livro no meio (tô voltando pra ele hoje) e decidi ler Pergunte ao Pó, finalmente. Que coisa boa. 

Gostei de tudo no livro. Da temática, porque o mundo da literatura é sempre um tema caro pra mim. Da narrativa vibrante, firme e, ao mesmo tempo, poética na medida de encantar sem deixar cair o tom sarcástico de suas frases afiadas. Um protagonista-narrador que ri de si mesmo e revela sem pudores seus traços menos honrosos ou mais iluminados - Bandini é um encanto, Bandini é um covarde, Bandini é um gênio, Bandini é um hipócrita. Gostei dos personagens, todos - Arturo Bandini, seu lindo, a sedutora e/ou frágil Camilla Lopez, a melancólica Vera Rivken. Gostei demais da trama, um livro que pode facilmente ser tomado em um único gole. A história simples tem as viradas necessárias para se manter ágil e o ritmo certo para virarmos a página que leva ao capítulo seguinte sem nenhuma vontade de largar o livro. Fante é aquele cara que escreve tão bem que nos mata de ódio, sabe?

Em algumas passagens de Pergunte ao Pó parei e voltei. Reli o capítulo anterior para ver como a atmosfera foi construída para a chegada do evento do capítulo que eu acabara de ler. Reli várias passagens pelo puro prazer de apreciar a prosa tranquila, como se não existisse outra maneira de se dizer aquilo. Parágrafos definitivos em sua simplicidade, serenidade. Assim:

"Não me lembro. Talvez uma semana tenha se passado, talvez duas semanas. Sabia que ela voltaria. Não esperei. Vivi minha vida. Escrevi algumas páginas. Li alguns livros. Estava sereno: ela voltaria. Seria à noite. Nunca pensei nela como algo a ser cogitado à luz do dia. As muitas vezes em que me encontrei com ela, nenhuma foi de dia. Eu a esperava como esperava a lua."

A história de um jovem escritor em início de uma carreira que pode nunca sequer acontecer, deslumbrado com o mundo editorial, inseguro e orgulhoso a um só tempo, essa história poderia ser banal, piegas, insossa. Nas mãos de Fante, a vida maluca do pobre Arturo Bandini ficou irresistível.

***

A edição que li tem tradução de Roberto Muggiati, publicada pela Editora José Olympio. O prefácio, um presentinho à parte, é de Charles Bukowski, que se derrete mais do que eu: 

"Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim."

Acho que comecei bem minhas leituras de 2015, um ano que certamente terá mais Fante. 

***

A outra viagem começa na semana que vem. O frisson da criançada no momento é com a ideia de atravessar o planeta. Hoje Amanda me perguntou por que cargas d'água a gente não aproveita que já vai atravessar o mundo e não volta pelo outro lado e dá logo a volta completa de uma vez. Falei que a ideia é ótima, mas a passagem vai e volta pelo mesmo lugar. Ela achou meio sem graça. Mas vai mesmo assim. :-) 

 
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